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Claire



Resenha: ALI MORAVA O PECADO (Bruno Fischer)

Nessa segunda leitura, fui surpreendida por encontrar muito mais do que me lembrava. E perceber valor no que encontrei.

 Trata-se de um policial gótico. E disse um crítico: "uma novela gótica para homens".

Primeiro, à medida que relia, me ocorreu o óbvio: sendo uma história de obsessão sexual, seria "para machos". A habilidade de Fischer ao descrever a atração entre os personagens, e seus encontros sexuais, é visível: o uso das palavras, o ritmo, as elipses, resvalando na crueza sexual - porém sem cair no vulgar. Hábil. Os leitores de pornografia ficarão desiludidos. A atmosfera é a certa, mas a linguagem não é chula.

Mas o "gótico para machos" também o é num outro sentido: narrada em 1ª pessoa pelo protagonista masculino, revela-se uma novidade para o gótico, que em geral utiliza a voz narrativa das mulheres. Não aqui. Acompanhamos a evolução da obsessão de Harry, um jogador de basquete que vem descansar em suas férias numa cidadezinha - e entre as fofocas locais, incluindo uma história macabra de crime, trava conhecimento com Lela Doane; a atração começa...

A diferença dessa mescla de gótico com policial está na ambientação e atmosfera. Uma propriedade caindo aos pedaços, o clima de suspense e mesmo de horror sugerido (Harry sempre se lembrando das histórias que ouviu na cidade) em cenas que em princípio não o provocariam. É de destacar-se uma cena em que, indo ao encontro da amante, a atmosfera criada pelo autor tem algo de sombrio, de assustador - como se, ao invés de um encontro sexual, algo de horrendo fosse acontecer.

Medo, suspeitas, dubiedade, a sugestão de mortes ocorridas de forma particularmente apavorante, mentiras, segredos... e a obsessão. Um retrato. Uma advertência ou uma sedução? Traições, e sempre, sempre, a obsessão.



Escrito por Claire Scorzi às 21h41
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Resenha: ASSASSINATO, RAPTO & CIA (Bruno Fischer)

Boa Construção da Trama com Protagonista Fraco

 

Não há o que dizer do ritmo: vertiginoso, equilibrando-se diálogo, ação, interioridade do personagem central. Nem da atenção dispensada a detalhes, que em breve irão revelar sua importância na história. O senão, aqui, é a falta de carisma do protagonista e o fato de seu interesse amoroso ter tão pouco caráter. Em vista da personagem da ex-esposa, outra ambiciosa desmedida, acho que o sujeito tem é um péssimo gosto para mulheres...
Os personagens de real valor da trama são o detetive Ben Helm, aqui figura secundária que, como de costume, rouba a cena e é mil vezes mais carismático do que o protagonista (Helm é protagonista em "Lábios em Fogo" e em "O Silêncio é de Ouro", dois dos melhores romances de Fischer, por sinal) e a melhor amiga do personagem central Paul Flagg, sua chefe na história, Martha Paley - a mais interessante e forte figura feminina do livro.



Escrito por Claire Scorzi às 17h18
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Resenha: O SILÊNCIO É DE OURO (Bruno Fischer)

 

Muito antes de O Nome da Rosa, esse romance americano dos anos '50 já trazia uma trama policial que gira em torno de um livro. É por causa do livro desaparecido que os crimes são cometidos.
O detetive, Ben Helm, é um legítimo descendente de Sherlock Holmes: não usa músculos, só o cérebro. Ao contrário de Sherlock, porém, ele é casado e muito apaixonado pela esposa.
Fischer escreveu (que eu saiba) 4 livros onde Helm aparece: neste e em "Lábios em Fogo", ele é protagonista; nos outros dois romances, é personagem secundário, mas em minha opinião rouba a cena.
A trama policial é ótima, bem desenvolvida, sem pontas soltas, com figuras coadjuvantes interessantes (o jovem Spike) e evita a maioria dos clichês de hoje, isto é, sexo e violência. Não precisa: a história é boa o suficiente para se sustentar sem eles.



Escrito por Claire Scorzi às 19h21
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Resenha: REBECCA (Daphne Du Maurier)

 

 

O famoso romance de Daphne Du Maurier que deu origem ao filme de Alfred Hitchcock, Rebecca - A Mulher Inesquecível (1940), tinha sido uma leitura da minha adolescência. Depois de mais de 30 anos, resolvi fazer o que vinha me dizendo há tempos. Resolvi reler.

 

Nesta segunda leitura, onde (como esperado) oscilei nas minhas emoções a propósito do protagonista masculino, que ora eu odiava, ora me provocava compaixão - não tive dúvidas sobre um fato: a qualidade literária do texto. A narrativa fluiu bem, nessa releitura que durou dois dias.

 

A observar (anotações soltas sobre o romance):

 

* A protagonista-narradora jamais é nomeada - não se sabe seu nome.

 

* A crise do casamento dos personagens é nitidamente "moderna": falta de comunicação. Ele a compreende mal, e ela o compreende mal; ambos acreditam coisas um sobre o outro que não são verdadeiras.

 

* A nítida inversão de papéis na parte final do romance (sutil, porém, porque Du Maurier é das boas escritoras aqui: ela não repisa, não enfatiza): a heroína, que se desculpava e recebia o carinho do marido "como se fosse Jasper" [o cachorro], numa cena para perto do fim, abriga o marido nos braços como se fosse ele o cachorro que precisasse de consolo/ conforto/ proteção.

 

* Farta descrição dos cenários, contudo sem perder o ritmo; Rebecca nos prende todo o tempo em sua leitura.

 

 



Escrito por Claire Scorzi às 13h36
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Resenha: BENITO CERENO (Herman Melville)

Ambiguidade que Gera Tensão

 

Publicado em 1856, Benito Cereno conta como dois navios se encontraram no mar: um navio americano e um espanhol.
O americano é um navio mercante, um caça focas, que percebe algo de estranho no navio espanhol. -- e a explicação para estranheza será o tema subjacente a toda narrativa: descobrir a verdade. Porque a verdade se mostra cambiante, incompleta, ou incorreta a todo momento.
A narrativa de Melville se vale primordialmente do ponto de vista do capitão americano a bordo do navio espanhol: embora não seja narrado em 1ª pessoa, é no ponto de vista desse personagem, o capitão Delano Amasa - homem amável, compassivo, e, mesmo, inocente - aquela inocência "americana" que mais tarde o escritor Henry James irá fazer objeto de muitas de suas novelas - que Melville se detém para construir a narrativa e dar seu sabor particular. O leitor vê através do olhar do capitão todo o cenário, as personagens, suas falas, suas atitudes - e, enquanto Delano confia, desculpa, desconfia, outra vez desculpa e repreende a si mesmo pelas desconfianças que por vezes lhe surgem ante pequenos fatos insólitos, incompreensíveis e até vagamente ameaçadores - o leitor vai aos poucos se desvencilhando do ponto de vista do americano e buscando "ver" - ver malgrado através desse olhar amável do capitão - o que Realmente está acontecendo; o que é, afinal, que está em jogo aqui?
A narrativa estabelece um clima de suspense valendo-se daquilo que Delano "vê" mas interpreta erroneamente, gerando medo e ansiedade no leitor. É como se víssemos mais do que aquilo que o capitão vê: a escrita de Melville é de mestre, provocando nosso desconforto enquanto a tensão cresce a níveis quase insuportáveis.



Escrito por Claire Scorzi às 13h16
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PARA GOSTAR DE LER

 

 

O crítico e professor americano Harold Bloom teve mais uma de suas idéias "literárias" anos atrás, ao selecionar diversos textos de prosa e poesia para uma coleção destinada aos jovens. O resultado, traduzido em português com selo da Ed. Objetiva, é uma série de 4 volumes - Contos e Poemas para Crianças Extremamente Inteligentes de Todas as Idades.

 

Cada volume da coleção refere-se a uma das estações do ano. Começando com a Primavera (v. 1) o livro abre com um soneto de John Keats, As Estações Humanas, uma espécie de apresentação da obra inteira. Este e o conto surpreendentemente perceptivo de Émile Zola, As Feiosas, são os destaques.

 

No volume 2 - "Verão" - o tom oscila entre contos e poesia fantasiosos e moralizantes (o que nem sempre funciona). São belos O Rei do Rio Dourado de John Ruskin, fantasia onde a menção a cores acentua a atmosfera de conto de fadas; O Gênio da Garrafa de R. L. Stevenson; Rikki-tikki-tavi de Kipling; e o poema Agosto de Swinburne.

 

No vol. 3 - "Outono" - nota-se uma delicada melancolia, como se fosse um comentário a essa estação em que as folhas secam. Doce e de uma tristeza sábia é a narrativa poética de Christina Rossetti - O Mercado do Duende. Sabedoria, como o preço pago pela mesma, é o que encontramos no conto Penacho de Nathaniel Hawthorne. Saudade e esperança são as tônicas dos poemas O Amor Descobrirá o Caminho (autor anônimo) e A Ilha Branca (de Robert Herrick).

 

No vol. 4 - "Inverno" - predomina o fantástico, o inexplicável, até o terror. Ao lado de poesias que falam da morte, da natureza e da corrupção humana - Tristeza (Aubrey de Vere), Um Soneto de Inverno e Canção de Christina Rossetti, O Cisne de Prata (Orlando Gibbons) - somos brindados com contos e novelas de tirar o fôlego: O Sinaleiro de Dickens; O Horla de Maupassant; William Wilson de Edgar Allan Poe (este fica melhor a cada nova leitura); No Escuro de E. Nesbit; e Finados de Edith Wharton. Não falta nem o toque russo dos mestres: A Rainha de Espadas de Pushkin, com justiça um clássico, e o cômico-surrealista O Nariz de Nikolai Gogol.

Contos e Poemas para Crianças... é uma festa, um verdadeiro banquete de leitura, e não só para os jovens. Os "extremamente inteligentes de todas as idades" terão muito o que saborear. Textos clássicos, alguns pouco conhecidos, "pratos" para qualquer gastrônomo exigente.



Escrito por Claire Scorzi às 21h18
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Resenha: UMA MULHER ENTRE DOIS (Bruno Fischer)

O americano Bruno Fischer (1908-1992) escreveu 25 romances policiais e um outro tanto de contos para revistas pulp fiction como a famosa “Black Mask” – para a qual escreveu também o cultuado Dashiell Hammett. Fischer nunca chegou a ser tão reconhecido. Uma injustiça. Dentre os seus melhores romances, está este: Uma Mulher Entre Dois, publicado em 1960.


Interessante é comparar um de seus primeiros trabalhos, Escada para a Morte, de 1939, com esse; é possível perceber a distância que vai de um escritor habilidoso para um profissional altamente consciente do processo de escrita. Em Uma Mulher Entre Dois (The Girl Between) a qualidade salta aos olhos – na descrição física das personagens, na caracterização das mesmas, no cuidado em não repisar, revelando sem abusar de ênfases e praticamente sem uso da grandiloquência. A composição de cenas, mesmo aquelas focadas nas chamadas personagens menores, traz o mesmo apuro; a narrativa em terceira pessoa segue um personagem, observa-o, centra-se nele, e só após algumas páginas, a intervalos, passa a seguir outros; o “foco” do autor parece acompanhar determinadas figuras somente quando fazê-lo se torna importante para Fischer: quando ele decide nos mostrar quem é este ou quem é aquela, quais os seus pensamentos e motivações – já que as motivações de certas figuras constituem também pequenos mistérios dentro do enredo policial. Um policial noir. Porque seu protagonista é um anti-herói, porque o sentimento de insegurança atravessa toda a narrativa (todos estão sujeitos à violência), há uma angústia no comportamento do protagonista e uma realidade social cruel é posta em primeiro plano – porém Fischer não facilita aqui: a verdade obsessiva em seus romances, o da importância do dinheiro, não se mostra em discursos pífios e frases banais.


Uma Mulher Entre Dois se destaca dentro da obra de Bruno Fischer (digo isso como leitora de 19 dos seus 25 livros) pela criação bem sucedida de um protagonista anti-herói. O autor havia tentado o mesmo em Código de Honra, sem sucesso, em minha opinião: seu personagem ali é apenas desagradável e até artificial. Mas neste romance de 1960, Fischer consegue: cria um “herói” questionável, imerso na corrupção política e nos meandros do poder. E ainda: consegue nos fazer gostar dele. E acompanhar a narrativa de mais de 200 páginas pensando se haverá, ou não, redenção para seu Curt Stone. Ainda: é possível que aqui também esteja a mais bem construída figura feminina de seus livros, uma heroína. Ah, Uma Mulher Entre Dois possui uma heroína? Sim. Embora o leitor leve algum tempo para descobrir quem ela é.



Escrito por Claire Scorzi às 16h31
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