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Claire



Resenha: AMEI UMA ASSASSINA (Bruno Fischer)

Policial dentro da melhor tradição

 

Um dos melhores momentos do escritor policial Bruno Fischer, um autor americano já falecido e injustamente desconhecido. Aqui, ele alia a trama policial a uma história de amor onde o casal de protagonistas mantém diálogos qque lembram as comedias românticas americanas antigas.
Ágil, com muita correria - o casal de heróis passa todo o tempo fugindo e sendo perseguido - mortes e mistérios, segredos (um que o leitor conhece, mas a heroína não, acrescenta tempero à relação ambígua do casal), romantismo, um herói que é firme sem ser grosseiro e doce sem ser um bobo, humor, aqui Fischer chega perto de privilegiar a love story ao invés da trama policial. Na minha opinião, não faz feio, e integra o romance na grande tradição - nitidamente anglo-americana, como diria um amigo meu - de casais "aliados", isto é, aqueles onde herói e heroína fogem e investigam tudo juntos, como verdadeiros parceiros.
Uma excelente tradição, diga-se de passagem.



Escrito por Claire Scorzi às 19h05
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Resenha:O ÚLTIMO CASO DE TRENT (E.C. Bentley)

Um clássico que brinca com o clássico

 

O estilo é rigidamente britânico: lembra aqueles romances do século XIX vitoriano. O gênero, literatura policial, já recebeu elogios e insultos que nem vale a pena relembrar aqui.

Um romance bem escrito, uma trama bem urdida que parece brincar com o gênero policial - pelo menos, aquela fatia do gênero que nasceu com Sherlock Holmes e Hercule Poirot - mas ao mesmo tempo celebra-o: divertido, delicioso, clássico na linguagem e aberto a desvios na solução da trama, este é um romance que merece a fama que angariou. Crime, romance (discreto como boa parte das subtramas românticas da literatura inglesa clássica), humor fino, inteligência: sente-se confortavelmente e prepare-se para se deliciar.



Escrito por Claire Scorzi às 20h40
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Resenha: LAURA (Vera Caspary)

É possível se apaixonar por uma pessoa morta?

 

Você é daqueles que acham literatura policial literatura menor? Então, permita-me discordar. E uso como prova este romance aqui: "Laura".

Filmado em 1944 com a bela Gene Tierney e Dana Andrews nos principais papéis, "Laura" alterna vozes narrativas com habilidade - é bom prestar atenção não apenas ao que cada narrador/ narradora conta, mas também ao que não conta; um erro comum é o leitor deduzir que algo foi dito quando não foi; tratou-se somente de elusão, suspeitas - e nesse caso, uma suspeita tanto pode levar a A quanto a, digamos, C...

Outra coisa: os diálogos. São requintados, elegantes, como não se imaginaria, talvez, que um americano escrevesse; o desleixo de hoje faz-nos esquecer de estilistas da frase como Hemingway ou Edith Wharton - ambos americanos da primeira metade do século XX.

A fazer notar, ainda, como Vera Caspary desenvolve a trama policial ao mesmo tempo em que vai deixando subentendida uma trama de amor que é, no mínimo, inusitada. Afinal - quem pode se apaixonar por alguém a quem nunca conheceu - uma pessoa morta?

A galeria de personagens é mais um destaque. Um crítico ferino, uma dama cínica, um candidato a cafetão, uma mulher carismática, um detetive semialeijado cujo 'erro' foi aprender que existe mais na vida do que dinheiro e posses.

"Laura" eleva, se preciso for, o conceito de literatura policial. Boa escrita com surpresas na trama bem antes da última página...

Responda: alguém poderia se apaixonar por uma pessoa morta?



Escrito por Claire Scorzi às 20h20
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RELENDO FAULKNER: DESTRUIÇÃO OU SOBREVIVÊNCIA

 

Conheci William Faulkner aos 16 anos para 17, quando alguém citou seu nome com respeito; ao encontrar pela primeira vez um livro seu, comprei. O livro era Santuário, que ele publicou em 1931. De lá para cá, li o romance três vezes, a última terminada ontem.

Anotei no dorso da folha de rosto do exemplar: relido entre 3/7 e 18/7. Para mim, parece muito tempo. Sim, estive resfriada, o que me desanima nos piores momentos até para ler; sim, leio muitas coisas ao mesmo tempo; mas as razões não se resumem a essas.

Descubro : ler Santuário se torna mais difícil com o passar dos anos. Mudou o livro ou mudei eu?

Suspeito que fui eu. Depois dos 40 me descubro mais nervosa, mais sensível à leitura. A passagem de que me lembrava melhor - lá pela página 80 - a longa, angustiante espera de Temple Drake no celeiro, escondida e descoberta, quando seu perseguidor a alcança e ataca - foi a que mais tardou a leitura. A angústia de Temple tornou-se a minha; sofri com ela (Faulkner é elíptico; temos clarões, num estilo quase cinematográfico em seus cortes, capítulos curtos, o tom despido de melodrama). Não me recordo de tal identificação nas vezes anteriores. Simpatia sim. Lendo, aos dezessete anos, lembro-me de comentar com colegas de escola a ansiedade para que Temple fosse salva. Não sei mais que palavra usei. Salva? Resgatada? Temple é salva?

Ninguém é salvo em Santuário. Alguns sobrevivem, outros são destruídos, e isto é tudo. Mas eu não cessava de me fazer perguntas enquanto ia relendo, de novo diante de Temple e Popeye, de Horace Benbow e Narcisa e Clarence Snopes, de Miss Reba e Gowan e Ruby. Não deixava de me perguntar o que Temple estaria sentindo. Faulkner nunca nos diz o que ela sente. Ou ele não sabe (pode um personagem escapar ao seu criador? Creio que sim) ou quer que nós, leitores, busquemos saber. Eu a vejo amendrotada diante de Popeye, furiosa com Popeye; devaneando, prolixa, falando tanto sem dizer muito e dizendo tantas coisas no que não diz a Horace Benbow. E talvez seja isso : como outros grandes escritores, temos de prestar atenção àquilo que Faulkner não nos diz. Temple Drake nos 17 anos, na tolice juvenil que é quando pensamos saber tanto (e todos não fomos assim aos 17?), Temple ao se vestir, repetindo : "Agora posso agüentar tudo" - e a repetição planta em nós a dúvida se ela pode mesmo; Temple no tribunal, prestando depoimento sem fixar os olhos em quem quer que seja; na cena que encerra o livro, sentada ao lado do pai num banco de jardim duma cidade estranha, fora de seu país, intocada pela paisagem chuvosa - seu rosto que ela fita ao abrir o pó compacto com espelho - "taciturno, triste e descontente" diz Faulkner. Temple foi destruída? Ou sobreviveu?

Popeye, Red, Goodwin, Tommy são destruídos. Ruby e seu bebê sobrevivem; talvez Temple. Horace Benbow é outra incógnita. Seu retorno à esposa é uma admissão de derrota ou uma pausa para buscar novas forças?

E Temple, sempre. Ela. Eu a procuro enquanto leio, quero saber o que sente, o que sentiu todo esse tempo. Sim, vai ver é isto, Faulkner não sabe, ninguém sabe, a não ser que tenha estado lá - no celeiro, e depois, como aquela menina esteve.

Volto ao começo deste texto. Terá o livro mudado ou fui eu? Quem sabe ambos. A marca do que é grande literatura: um livro em cem, em mil, muda a cada vez que o lemos, nos perturba de modo diferente.



Escrito por Claire Scorzi às 05h59
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Um Caso de Amor



Escrito por Claire Scorzi às 05h55
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Resenha: A Volta do Parafuso (Henry James)

A  IMAGINAÇÃO  É  O  HORROR

 

Uma governanta é encarregada de velar por um casal de crianças numa região do interior da Inglaterra. A princípio, tudo parece normal - até que fatos estranhos passam a ocorrer...
Esse início do enredo de A Volta do Parafuso (The turn of the screw) de Henry James promete muito mais do que pode parecer. Para começar, há a técnica tão jamesiana dos pontos de vista. Logo de entrada, travamos conhecimento com uma roda de amigos que contam histórias de fantasmas uns aos outros. Após a narrativa de um, outro deles alude a uma história assustadora que em certa época lhe foi revelada. Então, apanha um manuscrito com o relato do episódio, feito por uma antiga governanta de duas crianças.
Só aí temos: o ponto de vista do narrador inicial, um dos amigos da roda, que descreve a reunião com as "histórias de fantasmas" e menciona Douglas, que surge falando no manuscrito; o ponto de vista do próprio Douglas, testemunha da governanta; e, por fim, pelo restante do livro, o ponto de vista da governanta: sua narrativa na primeira pessoa, que é a leitura do manuscrito em voz alta feita por Douglas.
Isso sem falar no narrador oculto, o orquestrador de tudo isso: o próprio Henry James, a esconder-se por trás de todas essas diferentes vozes.
Sendo assim, temos uma novela de fantasmas, com camadas e camadas superpostas de "ângulos" para a mesma história. Nenhum desses ângulos - o fato de percebermos que são "ângulos" já o denuncia - é onisciente ou imparcial. James nos convida a ler A Volta do Parafuso com atenção redobrada, buscando a verdade que subjaz debaixo de tantos disfarces, tantos olhares, tantos pontos de vista.
A técnica assemelha-se a acender uma série de lâmpadas espalhadas num cômodo: nenhuma delas o ilumina plenamente, mas cada uma ilumina algo, fornecendo-nos assim uma "luz" para o fato ou fatos revelados.
Uma das maiores, senão a maior, qualidade literária de A Volta do Parafuso está em que não "vemos" nada, ou por outra, que "vemos" muito pouco: há mais evocação do insólito do que corporificação dele; mais alusão aos fantasmas do que descrição dos mesmos; mais a sensação de estarmos na presença do mal do que objetivação desse mal.
O que é sugerido é muito mais aterrorizante do que aquilo que é visto; nossa imaginação constrói, amplia, dá substância às insinuações; a imaginação pode criar o terrífico num grau superior a qualquer esforço descritivo...
A Volta do Parafuso não foi a única incursão de James no fantástico, ou no terror. Ele escreveu outras histórias, a maioria curtas, evocando ora o terrível, ora o apenas estranho. Mas A Volta do Parafuso se destaca como talvez a mais bem acabada de suas novelas no gênero.
O crítico Edmund Wilson julgava que o testemunho da governanta era o mais suspeito, levantando a hipótese de recalques e frustração sexual que estariam na origem dos "fantasmas" vistos por ela. A teoria de Wilson tem seus admiradores (eu não sou uma delas).  Que julgue o leitor. O que fica é aquilo que James, e Arthur Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes, sabiam e que o grande detetive chega a dizer numa de suas aventuras: "Onde não há imaginação, não há horror".


 

 

 



Escrito por Claire Scorzi às 07h07
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Resenha: Morte em Pemberley (P.D. James)

Uma revisita feliz e quase perfeita

 

Neste romance policial a autora revisita os personagens do clássico "Orgulho e Preconceito" de Jane Austen. A surpresa é tratar-se de uma trama policial envolvendo Elizabeth, Darcy, enfim, todos os personagens já conhecidos pelos leitores de Austen.

6 anos após a ação de "Orgulho..." com Elizabeth e Darcy casados e pais de duas crianças, a propriedade dos Darcy, Pemberley, prepara-se um grande baile. Eis que às vésperas do evento a irmã mais nova de Elizabeth, Lydia, chega de surpresa histérica, afirmando que seu marido, Wickham, foi assassinado...

P.D. James conseguiu:
- Recuperar o ritmo dos romances clássicos;
- Recapturar a personalidade da maioria dos personagens originais de Austen ( o sr. Bennet é um dos melhores exemplos), imitando inclusive certo fraseado de JA;
- Realizar um bom romance policial histórico, com referências às guerras napoleônicas, leis inglesas, etc.;
- "amarrar" a trama do romance a personagens de outros romances de Austen, como "Persuasão" e "Emma".

Não dei 5 estrelas porque:
- Numa cena, acompanhando os pensamentos de Elizabeth, a autora não foi justa com a personagem, atribuindo a ela temores que a heroína original de Austen deixa bem claro não possuir - coisa que "Orgulho e preconceito " prova mais de uma vez sobre o seu caráter;

- O ritmo "clássico" funciona até certo ponto; para os acostumados à escola inglesa do romance policial clássico, a 1ª parte é fácil de ler, obedece às suas características - porém, o ritmo mais lento para um romance policial, aqui, talvez só seja bem aceito para os leitores que tem extrema familiaridade com os personagens originais de Jane Austen.



Escrito por Claire Scorzi às 20h15
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Resenha: As Aventuras do Sr. Pickwick (Charles Dickens)

Personagens que se tornam nossos amigos


Um livro engraçado, comovente, cativante. Tem centenas de personagens, figuras inesquecíveis como o Sr. Pickwick e seu criado Sam Weller (que dupla!); é frequente o uso da técnica da história-narrada-dentro-da-história, sem nunca tornar a narrativa complexa, porém dando-lhe um sabor diferente quando menos se espera; nesse seu primeiro romance, Dickens já deixa ver seu lado de crítico social (o longo trecho do livro dentro da prisão de Fleet - a mal afamada prisão para devedores - revela ironia e acidez, com toques panfletários de denúncia; também as cenas que mostram as fraudes nas eleições e aquelas que tratam da atitude rapace dos advogados). Como já disseram, as críticas às injustiças aqui ainda não tem o tom sombrio que irão adquirir em alguns livros posteriores do autor.
É possível ler "As aventuras do senhor Pickwick" e terminar sua leitura sentindo saudades dos personagens...



Escrito por Claire Scorzi às 18h43
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Resenha: A Décima Terceira História (Diane Setterfield)

Recuperando a paixão em ler o melhor

 

É possível escrever uma história de mistério que não fica de pé senão por isso; é possível escrever uma história de estilo elaborado, onde a pretensão é tão forte - o "escrever bem" - que, quando se examina o enredo, este foi deixado à míngua: não existe trama, ou esta é manuseada com tanto desprezo que nos faz suspeitar que o autor se sentiu envergonhado em escrever no gênero "mistério", tentando todo o tempo fazer sobressair o seu estilo.

A décima terceira história poderia ter caído em qualquer dessas categorias. Mas não. Conseguiu unir um estilo meticuloso, um olhar que cataloga poeticamente imagens - texturas, odores, sons, sensações - sem que esse estilo encubra um enredo medíocre. "A décima terceira história" é grande enredo expresso em texto de primeira. Remete-nos ao gótico das irmãs Brontë, Emily (O morro dos ventos uivantes) e Charlotte (Jane Eyre, cuja menção na história é proposital) e aos momentos góticos de Dickens, como no assombroso "O homem e o espectro". Faz-nos pensar naquele romantismo sombrio, pesado, que foi o clima de tanta literatura inglesa que se tornou clássica. E aliás nem só inglesa: sobram homenagens aos americanos Henry James (A outra volta do parafuso) e, suspeito eu, Hawthorne (A letra escarlate). O romance apóia-se assim numa forma narrativa (poética, atenta a minúcias), num enredo gótico, e no desfile de citações e alusões à literatura. Por suas páginas passam as Brontë, George Eliot, Dickens, Wilkie Collins, Henry James - mas, como a razão e o bom senso também merecem seu lugar, comparecem ainda Jane Austen e Conan Doyle - a personagem Hester tem certo parentesco com a mentalidade desses dois.

Lê-se "A décima terceira história" à antiga: devorando as páginas, apaixonadamente, como se leria um grande clássico que se tornou popular (outra vez, penso em nomes como Dickens e as aventuras de Sherlock Holmes). O leitor não estará lendo um best-seller receita de bolo; trata-se de paixão. O romance de estréia de Diane Setterfield recupera a paixão de ler o altamente qualificado. Uma recompensa ao leitor e leitora que se deixa cativar por suas páginas.



Escrito por Claire Scorzi às 17h36
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Resenha: Jean-Christophe, I (Romain Rolland)

É o Sofrimento a Marca do Gênio?

 

Nesse primeiro volume de Jean-Christophe, romance sobre um músico de gênio, acompanhamos sua vida desde o nascimento até a adolescência. Neste tempo, vemos toda a miséria - física, material, emocional, intelectual - a cercar Jean-Christophe, e todas as dores dessa alma apaixonada pela música desde a infância. As humilhações, as injustiças, desilusões, perdas... todo o sofrimento enfim.
E aí me parece estar o problema: Rolland parece advogar que o sofrimento de seu herói é que o enobrece; que sua grandeza se deve a ao acúmulo de dores enfrentadas por ele desde criança. Há as menções à sua música, mas são poucas - pelo menos neste volume - comparadas à ênfase ao sofrimento.
Além disso, a escrita de Rolland por vezes - especialmente à medida que o enredo caminha - vai ficando um tanto fácil, leve e até descuidada; enquanto continuei admirando e mesmo me afeiçoando ao protagonista, não pude deixar de pensar que, nas mãos de outro escritor, um Dostoievski quem sabe, Christophe não seria melhor aproveitado e valorizado; sua simpatia visível por vezes se apequena nas repetições e grandiloquências de seu criador, o que prejudica o desenvolver da narrativa - frouxa, com um herói que, mais cativante nos começos, ameaça ir se tornando como todos os outros "gênios" de livrinhos menores.



Escrito por Claire Scorzi às 17h32
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Resenha: Os Artistas do Crime (Ngaio Marsh)

Como Falar Do Que Adoramos?


Este e "Crime de Luxo" formam meu par favorito dos (poucos, ainda, infelizmente!) romances policiais de Ngaio Marsh que li. Esta neozelandesa sabia casar gêneros dentro da ficção policial como poucas parecem saber. Aqui, temos uma ótima trama de investigação e exercício de inteligência (atenção à cena em que o detetive Roderick Alleyn, num esforço digno de Sherlock Holmes, demonstra como um crime que parece ser de um jeito é na realidade de outro) unida a uma história de amor - meio enviesada, verdade, mas charmosa justo nisso: é como se Marsh, cônscia de que não está escrevendo um romance de amor, deixasse mais insinuações e rápidas frases do que melosidade propriamente dita. Fez bem. Deixa-nos curiosos quanto ao seu casal e achando-os simpáticos ao invés de fastidiosos; o que, claro, leva-nos ao livro seguinte da série Roderick Alleyn - "Crime de Luxo".

Elegância estilística, humor discreto, pitadas de romance, dois crimes (um particularmente escabroso; lembrou-me certas imagens de crimes meio góticos que aparecem em Sherlock Holmes, outra vez tenho de citar), personagens cativantes (a mãe de Alleyn é ótima: divertida, inteligente, cheia de verve) - Ngaio Marsh mereceria ser reeditada, e com todos os títulos da autora que ainda permanecem inéditos no Brasil. Será que nenhuma editora vai ter essa honra?



Escrito por Claire Scorzi às 17h22
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Resenha: Os Mistérios de Udopho (Ann Radcliffe)

O Gótico no Seu Apogeu


Ann Radcliffe ficou conhecida por este e outros romances góticos - livros de mistério, suspense, ambientados em geral fora da Inglaterra (aqui, França e Itália) o que devia dar uma atmosfera "exótica" ao público leitor inglês, e quem sabe a ideia de que tais horrores não aconteceriam em solo britânico...
Otto Maria Carpeaux (História da Literatura Ocidental) escreveu que Radcliffe tinha certo talento literário, mas que hoje não a leríamos mais. Esta é uma das vezes em que discordo do grande Carpeaux. Embora eu não tenha como saber, ainda, se Radcliffe escreveu uma "obra" que permanecerá - só li este - apreciei muito descobrir que:
- Ann Radcliffe tinha, de fato, talento literário;
- Usa o gótico com discernimento, sem exagerar nas cenas e optando sempre pelo gótico fundamentado na razão - todos os "eventos estranhos" tem explicação racional - e criando boas cenas de suspense;
- A atmosfera da narrativa é cuidada, sem transições abruptas e superficiais;
- Um possível feminismo - só possível! rs - na sua heroína, Emily, cuja firmeza moral é a sua única "arma" contra Montoni, mas que a autora consegue tornar admirável em mais de um episódio de confronto entre os dois personagens;
- Ausência do cinismo e irreverência tão comuns na literatura inglesa do século XVIII - ou seja, nada de Fielding - sem, contudo, abrir mão de um humor discreto;
- Frases de personagens memoráveis (inclusive algumas de Emily enfrentando Montoni);
- Personagens de apoio simpáticos (Annette e Ludovico, para citar só dois);
- Esforço de análise psicológica, o que me fez suspeitar que Radcliffe tinha certa familiaridade com a literatura francesa da época.

Enfim: um romance que merece ser lido.



Escrito por Claire Scorzi às 17h21
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Resenha: O Jogo do Assassino (Ngaio Marsh)

Roderick Alleyn Apresenta-se


Este é o primeiro livro policial de Ngaio Marsh, onde ela nos apresenta ao seu detetive Roderick Alleyn, detetive-chefe inspetor da Scotland Yard. Alto, magro, moreno, oriundo do serviço diplomático inglês que só depois ingressou na polícia, ele parece ter trazido algo da elegância e educação dos meios diplomáticos para a atuação como policial. Ainda assim, neste livro de estreia, Alleyn ainda não está completamente "formado", eu diria; é como se, para Ngaio Marsh como para o leitor, sua figura permanecesse, em parte, indistinta e às vezes soando contraditória.

O mistério do crime num único cenário - uma casa de campo onde seis convidados mais o anfitrião veem-se às voltas com um deles assassinado - é engenhoso em sua solução sem chegar a ser irreal, e a estrutura do policial clássico inglês - apresentação de personagens, atmosfera, indicações de conflitos entre eles, até que por fim o crime aconteça - é bem orquestrada. Há uma sub trama envolvendo os anarquistas que numa única cena soa um pouco exagerada, mas é só. Não é o melhor de Marsh, mas ela aprenderia rápido a fazer melhor. No geral, uma boa estreia.



Escrito por Claire Scorzi às 17h19
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Resenha: O Mistério de Columbella (Phyllis A. Whitney)

Livro Bom É Aquele que "Cresce" Ao Ser Relido


Reli este livro e aumentei a pontuação de 4 para 5 estrelas. Vamos ver se consigo justificar (explicar) a razão.
Um: Phyllis A. Whitney escreve no gênero que costumo chamar "gótico moderno", ou suspense romântico como dizem algumas editoras. Mistério, segredos, residências com passagens secretas, personagens dúbios, tempestades, e quase sempre narrados na primeira pessoa pela protagonista - que é sempre a heroína. Phyllis é a minha escritora predileta nesse gênero.
Dois: PW conseguia escrever em "blocos", isto é, através de um certo número de parágrafos descritivos - da paisagem, das ações, dos pensamentos da protagonista - para criar uma atmosfera; em geral não se destacava por frases ótimas, mas pelo acúmulo desses blocos descritivos - deixando uma impressão, gerando um estado de espírito no leitor. Neste ela faz isso magistralmente.
Três: sua mescla habilidosa de psicologia natural, sutileza, referências literárias ou artísticas, podiam incrementar o enredo, dar-lhe consistência; novamente, aqui isto é perfeito. Cito: a madrasta de Branca de Neve ("Espelho, espelho, haverá alguém mais bela do que eu?") e a insinuação da possessão demoníaca.

Para o meu gosto, um livro que fica melhor com o tempo, porque nossas próprias leituras e experiências, ao relermos, são ferramentas para apreciar ainda melhor o que Phyllis A. Whitney realizou aqui.



Escrito por Claire Scorzi às 17h16
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