Uma Página Transcrita 18
Relendo Sartre. Algumas colocações existencialistas me fazem entender porque alguns cristãos se enamoraram, ao menos em parte, do existencialismo. Quando Sartre anota em seu diário "Somos totalmente responsáveis por nossa vida" , se encararmos "responsáveis" como o direito que Deus nos dá para escolhermos aceitá-Lo ou negá-Lo - pois Ele chama, mas não força ninguém (...) a frase é verdadeira. O existencialista é contra a auto-indulgência e, até onde percebo, o cristão também: se pecamos, é preciso admiti-lo (...)
Mas o existencialismo puro, sartreano, não admite Deus, daí a angústia. "É preciso perder toda a esperança. A moral humana começa onde pára a esperança (vida futura, perfeição humana, etc.)" (Diário de uma guerra estranha, p. 123). Sartre cobra de si, como existencialista, todo esforço: de responsabilidade, de autenticidade, de moral, de atuação-no-mundo. É peso demais. Com a herança do pecado, é um fardo, um jugo (...).
(excerto do diário pessoal - 02/03/1996)
Escrito por Claire Scorzi às 20h44
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Apontamentos XIV
Os Profetas
FEE, Gordon D. & STUART, Douglas. Entendes o que lês? SP: Vida Nova, 1991. p. 159-163.
A Tarefa Exegética.
* Uso de dicionários bíblicos, comentários aos livros proféticos e manuais bíblicos - Temos de ter "as informações de fundo histórico antes de conseguir captar a razão de ser de muita coisa que um profeta transmite. A Palavra de Deus veio através dos profetas para pessoas em situações específicas. Seu valor para nós depende parcialmente da nossa capacidade de apreciar aquelas situações de modo que, por nossa vez, possamos aplicá-la à nossa própria situação". (p. 160)
* O contexto histórico - Para uma boa exegese, é preciso compreender bem os dois contextos de cada livro profético: o "contexto maior" (a época do profeta) e o "contexto menor" (ou específico: o contexto de um único oráculo dentro do livro profético). "Um conhecimento da data, do auditório, e da situação, portanto, quando são conhecidos, contribui substancialmente à capacidade do leitor compreender um oráculo" (p.162).
Escrito por Claire Scorzi às 05h47
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Apontamentos XIII
Os Profetas - Fazendo cumprir a aliança em Israel
FEE, Gordon & STUART, Douglas. Entendes o que lês? SP: Vida Nova, 1991. p. 153-163.
Problemas surgidos na leitura e interpretação das profecias - mal-entendidos quanto à:
* função da profecia
* forma da profecia
A dificuldade em ler de uma só assentada os livros proféticos - em primeiro lugar, cada livro é uma coletânea de oráculos falados; não foram falados todos de uma só vez, mas em diversos momentos diferentes; em segundo, a maioria foi falada em forma poética (muitas traduções não deixam isso visível, especialmente na forma - prosa - como a maioria os textos proféticos se acha traduzida).
Funções da Profecia
* Os profetas como mediadores para o cumprimento da aliança
* A mensagem profética não é do profeta, mas de Deus; eles eram chamados para isso, transmitir a mensagem divina a Israel
* A mensagem do profeta não era original: trazia à lembrança do povo as ações de Deus, anunciava o castigo, prometia a benção - detalhes ou a maneira como a mensagem era anunciada variavam, mas o conteúdo da mensagem permanecia fincada na Lei transmitida por Moisés.
Escrito por Claire Scorzi às 06h56
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A Leitura em Questão
"(...) Até aqui só sabemos que são as condições familiares que permitem tornar-se leitor. E estas condições estão tão ligadas ao status das classes privilegiadas que é impossível - e ainda menos desejável - generalizá-las" (FOUCAMBERT, Jean. A leitura em questão. Porto Alegre, Artmed, 1994. p. 26).
Ligada não somente à minha profissão, mas especialmente por interesse pessoal, leio às vezes livros como esse de Foucambert, teórico e crítico francês da área de Alfabetização e leitura. Ainda que concorde com ele em parte, também descubro afirmações-chavão que, consagradas, raro é que se questionem. Por exemplo, quando Foucambert diz que as condições familiares capazes de transformar uma pessoa em "leitor" estão fortemente ligadas ao status das classes privilegiadas. O que ele quer dizer com isso? Status é "o conjunto de direitos e deveres de uma pessoa em sua relação com as outras em sociedade". Então, o que ele está dizendo é que quase sempre, só dentro de famílias cujos direitos e deveres de cada membro quase se igualam aos dos privilegiados é que se formam leitores. Será isso? Neste caso, devo discordar.
Quais os direitos e deveres dos privilegiados? A liberdade e as condições materiais para ler e estudar à vontade; viajar para diversos países se hospedando nos melhores hotéis; financiar grandes projetos filantrópicos; aparecer na capa da "Caras"...
Se apenas ou quase apenas essa classe privilegiada faz nascer leitores estamos diante de uma consagrada mentira. "Consagrada" porque todos que se pretendem contestadores gostam de usá-la; se de fato contestadores, começariam questionando algumas "verdades" que nos são empurradas (e ensinadas).
Quantos leitores lúdicos (tradução: leitores que lêem pelo prazer da leitura, pelo menos 1 livro por semana) conhecemos ou temos notícia vindos das "classes privilegiadas"? Marcel Proust é um, certo; grande escritor assim como leitor. E além dele? Se alguém souber de um número razoável de milionários que são, também, leitores lúdicos, favor deixar comentário abaixo.
A idéia de que poucos lêem por culpa de uma classe privilegiada que é a única a ter acesso ao livro e quase sempre a única a dominar a arte de aproveitá-lo bem (isto é, ler criticamente) é uma das mais caras mentiras que determinado tipo de contestadores adora. Alguns, bem intencionados, repetem a mentira por crerem nela. Contudo, fico pensando aqui em quantos leitores lúdicos conheço - não tanto quanto gostaria, verdade - pertencentes à classe média, esta sim, julgo eu, a classe por excelência dos leitores. Pessoas que trabalham por salários entre 2 a 3 mínimos; que andam de ônibus ou que dirigem seus próprios carros; que estudam ou estudaram em escolas públicas; que adquirem livros em livrarias mas também em sebos; alguns tiveram pais leitores, outros não; pessoas que lêem dentro de conduções e até mesmo em pé, como já vi. Não sei com certeza porque algumas pessoas se tornam leitoras e outras não. Mas sei de uma coisa: não se trata de "característica predominante das classes privilegiadas". A não ser que a definição de "classe privilegiada" tenha mudado...
Escrito por Claire Scorzi às 06h03
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Diário de Leitora 18
O Sonho de um Homem Ridículo, Fiódor M. Dostoiévski
Na noite em que decide suicidar-se, um homem encontra uma menina que lhe suplica ajuda. Maltratando-a, ele a repele, porém o encontro irá persegui-lo, e ele terá um sonho onde se vê no Éden e convive com os seres humanos intocados pelo pecado; com o tempo, acabará por corrompê-los a todos. Ao despertar, muda sua vida.
Essa novela de Dostoiévski não terá sequer 30 páginas, mas é um extraordinário exemplo da riqueza temática do escritor russo: nela, o autor nos fala da natureza, do pecado e da Graça, do amor e do inimigo do amor, conhecido e denunciado por Dostoiévski em mais de uma obra sua: o niilismo. Seus antiheróis são homens que tentam provar sua superioridade seja matando (como Raskolnikóv em Crime e Castigo) seja buscando a indiferença pelo mundo e pelas pessoas; porém fracassam. Raskolnikóv é perseguido pelo seu próprio desejo de punição - a moral ainda existe nele; o protagonista-narrador de O Sonho de um Homem Ridículo é confrontado com sua falsa indiferença no episódio da menina. Embora repelindo a criança com brutalidade, o sofrimento dela o alcança; faz com que ele se preocupe e também sofra; seu sonho, mistura de alegoria e de profecia, acaba por ser uma revelação pessoal, profunda. Ao final da novela, é ele quem diz:
O essencial é amar o próximo como a si mesmo, eis o que é essencial, eis o que é tudo, sem que haja necessidade de outra coisa: logo sabereis como edificar o paraíso.
E ainda acrescenta a denúncia do niilismo e do cientificismo, praga que nos assola ainda hoje, na nossa época tão sofisticada, e tão orgulhosa de sê-lo (mesmo que estejamos indo para o buraco):
"A consciência da vida é superior à vida; o conhecimento das leis da felicidade é superior à felicidade" - eis contra o que importa lutar! E eu lutarei.
Há muito mais em O Sonho... Dostoiévski era capaz de escrever uma página e nos deixar sem fôlego com a amplitude de seu pensamento, com a quantidade de idéias ali comprimidas. Um escritor inesgotável.
(este post é para Diego)
Escrito por Claire Scorzi às 06h17
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Dante
Estou relendo A Divina Comédia de Dante Alighieri. É a 5ª leitura que faço do poema inteiro, mas é a 1ª na tradução de Cristiano Martins.
Vão umas observações:
1) Dante como cristão medieval que coloca as Escrituras em debate ou em confronto com a tradição eclesiástica
No canto III do Purgatório, Manfredo, rei da Sicília (1232?-1266), conta que morreu excomungado pelo papa Clemente IV; arrependeu-se de seus pecados no fim da vida, crendo na palavra bíblica quanto ao perdão de Deus:
Duramente no século pequei,
mas é tão infinito o dom divino,
que a todo acolhe, que pranteia, eu sei
(Purg, III, 121-123)
E, no poema de Dante, é colocado na entrada do purgatório, rumo à salvação, portanto:
Porém o grande estigma não empece
a alma de se elevar à gloria pia,
se nela inda a esperança refloresce
(Purg, III, 133-135)
Aqui Dante é mais explícito: o estigma ( a excomunhão) não tem poder para impedir a alma de se salvar, se essa for visitada pela Graça. A Deus toda a glória!
2) Dante como Pré-Reformador
Algumas idéias e críticas de Dante à Igreja enquanto instituição aproximam-no, curiosamente, de precursores da Reforma, como John Wycliff (1328-1384). Como Wycliff iria defender em seus escritos que há 2 governos - um, natural ou evangélico, tendo como base o amor, e outro, civil, resultado do pecado, tendo como base o uso da força, e que a Igreja não deveria aliar-se às políticas dos poderosos ou a qualquer tipo de "poder temporal", Dante, já em começos do século XIV, em obras como Da Monarquia e na Divina Comédia, já criticava as autoridades eclesiásticas por ambicionarem o poder político, como se vê na longa exprobação feita no canto VI do Purgatório:
Ó gente que se crera apenas pia,
e deveras confiar ao Rei a brida,
se atendesses a Deus, como cumpria
(Purg, VI, 91-93)
Também na visão já citada de Dante quanto à Excomunhão vs. Graça de Deus (Purgatório, III) o poeta aproxima-se de Wycliff, que defendera o conceito de que o cristão só se excomunga verdadeiramente quando se afasta de Jesus Cristo.
Escrito por Claire Scorzi às 07h50
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O "Politicamente Correto" e Seus Equívocos
É politicamente correto uma nação inteira fazer um "mea culpa" quanto ao horror da escravidão e se falar até mesmo em indenização ao povo negro.
É politicamente correto, considerando o racismo existente, defender a implementação das cotas para pessoas negras nas universidades.
É politicamente correto denunciar as injustiças e violências cometidas pela ditadura militar e exigir indenização para as vítimas do regime, ou para as famílias daqueles que foram assassinados sob o regime.
Não acho que o racismo seja coisa de somenos, ou que não exista (do mesmo modo como não acho o machismo algo insignificante, muito menos que seja "um exagero feminista"). Contudo, se a idéia das indenizações pegar - parece que em alguns casos já está sendo executada - o governo pagará aos negros, e a quem mais? Sim, porque os índios também foram escravizados e dizimados através da história das Américas. E quanto a nós, mulheres? Vamos ser indenizadas também? E quanto às crianças? Aos idosos?
Será que sou só eu que julgo essa "mea culpa" um tanto grandiloqüente, retórica, pomposa, hipócrita?
Será que sou só eu que vejo no sistema de cotas um modo velado de dizer que os negros são pessoas intelectualmente inferiores, e que por isso precisam de um "empurrãozinho" - com o sistema lhes garantindo vagas? Será que só eu encaro isso como um racismo muitíssimo pior, porque condescendente, e ardiloso?
Será que sou só eu que acho que muitos que hoje se encontram no poder, tendo sofrido perseguição política no passado, estão aproveitando para obterem mais regalias? Estão se deixando corromper e ostentando o rótulo - perseguido político - para mimarem a si mesmos, onerando um Estado já bastante explorado?
Considero injustificável, injustificável, qualquer forma de ditadura seja de direita ou de esquerda (o bom de ser apolítica é isto: quase sempre, os de direita acham a ditadura terrível - se esta é de esquerda. E os de esquerda julgam a ditadura um horror - se esta é de direita. Enfim, deu para entender, não?). Porém desconfio muito de todo esse espetáculo que temos visto pela mídia atual, toda essa onda de "mea culpa" e indignações e cotas e leis disto e daquilo.
Se eu fosse negra - informo: tenho ascendência indígena - não quereria cotas. Como não as quereria se instituíssem cotas "para mulheres" nas universidades. Eu não sou burra. Não preciso de favores nem de esmolas. Penso que todos nós, homens e mulheres, brancos e negros, de esquerda, de direita e apolíticos, deveríamos parar e pensar melhor sobre todo o "cenário" que tem sido montado diante dos nossos olhos. Se é espetáculo, deve ter uma razão.
E, querem saber? O pensamento (?) "politicamente correto" é linear, é tão linear que é burro; e dessa forma prejudica as causas que afirma defender.
Escrito por Claire Scorzi às 20h41
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Livrarias e Sebos (final)
Nos últimos anos, além de continuar aparecendo em alguns dos sebos e livrarias já mencionados - Elizart, Opção - fui descobrindo outros lugares; a Saraiva Megastore, Martins Fontes, Livraria da Travessa, a Academia do Saber, a Artes e Letras (esta foi meu "point" em 1997, por uma simples razão: seu estoque jamesiano. Comprei lá seis dos meus livros de Henry James, a ponto de me fazer notada pela atendente, que um dia me perguntou: "Você está preparando alguma monografia sobre ele?" Infelizmente, a livraria fechou)... Dessas, freqüento mais a primeira e a terceira. Sentar-me no Café da Saraiva é uma das minhas pequenas-grandes alegrias. A cerimônia é: compor uma pequena/ grande pilha de volumes, dirigir-me ao Café, fazer o pedido, desfrutá-lo enquanto folheio cada livro sentada numa das mesas. Vou seguindo meu ritual: leio as orelhas, a contracapa, o sumário (se houver); abro por acaso em alguma página e leio, experimentando. Imagino que todo leitor, nessa "leitura inspecional" como a chamava Mortimer Adler, interroga o livro; e, dependendo das respostas, compra-o.
Na Livraria da Travessa não me demoro tanto, pois não costumo "instalar-me". Faço giros e giros pelas estantes e prateleiras. É nela que encontro mais facilmente os títulos saídos por pequenas editoras, ou editoras pouco divulgadas - foi onde achei, por exemplo, as Crônicas Italianas de Stendhal (editora Max Limonad) em oferta, e um volume de novelas de Henry James traduzidas por Marcelo Pen, Um Peregrino Apaixonado (ed. Planeta). Ou ainda os Contos Fantásticos de Gautier (ed. Imaginário). Ela possui também um acervo mais rico nas áreas de Filosofia e História.
Porém a Saraiva associou-se, para mim, a eventos importantes; foi nela que tive a satisfação de conhecer algumas amigas virtuais. Três vezes, estive sentada ao Café na companhia da Prit (do blog Diário de Bordo), tendo na última o acréscimo da presença da irmãzinha da Prit, a Thams (do Sereníssima). E uma única ocasião, em março deste ano, aproveitei o melhor que pude (tradução: nunca o suficiente) da companhia da Dira (do Voando pelo Céu da Boca ). A megastore, portanto, sempre irá evocar em mim boas lembranças...
Escrito por Claire Scorzi às 20h46
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Livrarias e Sebos - IV
Em 1995, nasci de novo. Como nova convertida, e imutavelmente uma pessoa para quem ler sempre foi o principal e melhor caminho para aprender, tornei-me uma cristã devoradora de livros. Nunca li tanto, ou estudei tanto, como cristã, do que no meu primeiro ano de convertida. Não foi o meu melhor ano de estudos teológicos; nem mesmo foi o ano em que compreendi melhor a fé. Muitas idéias erradas foram aceitas por mim, e só mais tarde revistas e retificadas; porém '95 foi, de fato, o ano em que mais li como cristã. Foi o ano em que me tornei figura costumeira nas livrarias evangélicas de minha cidade: Opção, JUERP... saía delas carregando livros, em geral três ou quatro, obras como os comentários de Derek Kidner sobre Salmos, Provérbios, Gênesis; os livros de lexicografia de William Barclay, inclusive o lindo As Obras da Carne e o Fruto do Espírito; Hermenêutica de Henry Virkler, mais tarde só superado pelo Entendes o Que Lês? de Gordon D. Fee e Douglas Stuart; Filosofia e Fé Cristã de Colin Brown; os comentários que comecei a adquirir dos meus dois livros favoritos no NT, a Epístola aos Romanos e o Evangelho de João - escritos por F.F. Bruce (um dos meus protestantes ingleses prediletos), J. Ramsey Michaels, Harold Brokke...
Ainda - a descoberta de escritores cristãos contemporâneos nos quais realmente encontro valor - os livros de Richard J. Foster e o canadense Paul Stevens: Celebração da Disciplina; Disciplinas para um Coração Faminto; Dinheiro, Sexo & Poder ; Oração: O Refúgio da Alma. Também, entre esse primeiro ano e '96, comprei nessas livrarias O Grande Abismo e Peso de Glória de C. S. Lewis; O Jesus Histórico de Otto Borchert; A Morte da Razão (um Francis Schaeffer muito bom); e, ligado à fé, porém não à minha tradição religiosa, fui ler (para me apaixonar) Anselmo de Cantuária: Monológio e Proslógio.
O que comecei a sentir falta: livros de alicerce na área teológica; as obras dos fundadores do Protestantismo. Em busca desses últimos, tive de empreender caçadas; o protestantismo histórico continua mal servido em nossas livrarias.
(continua...)
Escrito por Claire Scorzi às 06h13
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Livrarias e Sebos - III
Entre fins de '92 e começos de '93, o sebo que eu vinha freqüentando na Visconde de Inhaúma fechou as portas (acontece com boas livrarias também: aconteceu com a Artes e Letras, na Sete de Setembro, que visitei quase mensalmente em '97). Explorando a rua, fui dar no trecho em que esta transforma-se em Marechal Floriano. Na altura do nº 63, uma placa: Livraria Elizart. Neste momento tenho em mãos um dos marcadores que ganhei na livraria, informando: "Fundada em 1972". Permanece lá. Espero que continue. É uma sobrevivente.
Um dos seus charmes está em que, quando se adentra mais a loja, vamos encontrar ao fundo uma série de retratos de escritores clássicos afixados nas colunas de sustentação do teto - imagens de Dostoiévski, Flaubert, Alexandre Dumas, Balzac... Qualquer apaixonado por Literatura não pode deixar de simpatizar imediatamente com uma "decoração" dessas. O sebo traz estantes dedicadas aos clássicos separando-os por nacionalidades. Possui ainda umas quatro ou cinco prateleiras enfocando literatura policial (comprei alguns ali). Saí de lá sobraçando obras como Coronel Jack de Daniel Defoe; Razão e Sensibilidade de Jane Austen; Os Mandarins de Simone de Beauvoir; Bouvard e Pécuchet de Flaubert; Mar Absoluto & Retrato Natural de Cecília Meireles; Martin Eden de Jack London; 62 - Modelo para Armar de Cortázar; ABC da Literatura de Ezra Pound; volumes soltos de História da Literatura Ocidental de Carpeaux; o Henry James de Leon Edel... até hoje, o acervo deles na área de Crítica literária é de dar água na boca. Nem sempre chego a comprar, porém registro a presença de certos títulos, satisfeita.
Também na mesma época, devido a um conjunto de circunstâncias, passei a visitar o sebo Casimiro de Abreu. Foi lá que adquiri o meu exemplar de A Arte de Ler de Mortimer J. Adler e Charles Van Doren; onde comprei A Mulher Eunuco de Germaine Greer e Feminismo e Arte: um estudo sobre Virginia Woolf de Herbert Marder.
Nessa minha vivência entre espaços-com-livros, entre livrarias e sebos, um detalhe chamou-me a atenção: é comum que eu ouça pessoas conversando sobre escritores, sobre literatura, dentro dos sebos, inclusive com participação dos donos. Em todo o meu tempo de freqüentadora de livrarias, só me lembro de uma ocasião ter ouvido um rapaz aconselhando alguém sobre um livro para ler, na opinião dele um livro incomparável. Tratava-se de O Senhor dos Anéis de J. R. R. Tolkien.
(continua...)
Escrito por Claire Scorzi às 11h39
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Livrarias e Sebos - II
Alguns anos mais tarde, tornei-me habitué nas livrarias do Norte Shopping, a Siciliano e outra filial da Tecnoprint. Foi nas estantes da primeira que encontrei O professor de Charlotte Brontë; os Poemas de Sylvia Plath; os Poemas Reunidos de Dylan Thomas; um volume belíssimo com reproduções das pinturas de Van Gogh e texto de Nathaniel Harris.
Em minha cidade, a melhor "experiência" com sebos é, até a presente data, o modesto & atulhado quiosque estacionado então na Praça da Liberdade, Yan. Nele descobri História da Filosofia de Will Durant (um exemplar sem a capa que tratei de "vestir" com todo o cuidado); Ulisses de James Joyce (na tradução de Antônio Houaiss); e o precioso 7 Novelas Clássicas, seleção de Philip Rahv, incluindo "Folhas Vermelhas" de Faulkner, "Bartleby, o escriturário" de Melville, e "Um Episódio Internacional" de Henry James. Era 1990. O volume marcou meu reencontro com James. Yan, mais tarde, "subiu de nível" e tornou-se papelaria-livraria. Já não era a mesma coisa...
Foi também num sebo improvisado, em algum ponto da cidade, que fui dar com Sagarana de Guimarães Rosa. Algo aconteceu e comprei. Eu não era exatamente uma entusiasta com ficção nacional, só amando os nossos poetas desde a adolescência, quando costumava lê-los sozinha, em voz alta. No dia de Sagarana eu devia estar sob uma disposição muito especial - mudando...
1992. Folheio minhas notas de leituras daquele ano, e alguns títulos remetem-me à livraria-sebo que passei a freqüentar (como a descobri??) na Visconde de Inhaúma, no centro do Rio. Época feliz embora breve. Trouxe daquelas estantes superlotadas e empoeiradas Primeiras Estórias de Guimarães Rosa; O Moinho do Rio Floss de George Eliot; A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy de Sterne; Sete Novelas Fantásticas de Isak Dinesen; Lady Barberina de Henry James; Humilhados e Ofendidos de Dostoiévski... eu poderia estender a lista, mas esses títulos bastam.
Como não sei de que forma encontrei o sebo mencionado, também não saberia hoje localizar o mal iluminado, enorme sebo (ah, o erro de não notar nomes, ruas!) onde fui parar certa ocasião, também no centro do Rio, palco do meu "encontro' com uma tradução dos anos 20 ou 30 de Vida Nova de Dante Alighieri: comprei-o por uma pechincha, na época. Talvez se tratasse de um sebo mágico. O fato é que jamais o reencontrei.
(continua)
Escrito por Claire Scorzi às 21h40
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Livrarias e Sebos - I
Onde moro, livrarias sempre tiveram vida curta. Com exceção das evangélicas (duas com bom material teológico), as outras cumpriam um ciclo: surgiam, resistiam por algum tempo, e fechavam. Triste sina. Não sei de quantos dos meus vizinhos podem se lembrar dessas moradoras instáveis.
Lembro de uma aqui no centro da cidade, a Francisco Alves, onde comprei um dos meus primeiros Dostoiévski: O Jogador & Noites Brancas num volume único. Numa filial que tivemos da Tecnoprint, comprei, entre os 17 e 18 anos, todo o Sherlock Holmes. E Crime e Castigo; a maior parte dos Shakespeare. Tolstoi.
Em 1983, como aluna da UFF em Niterói, depressa devotei-me a conhecer todas as livrarias e sebos que pudesse. Havia uma Debate em frente ao ICHF (Instituto de Ciências Humanas e Filosofia), onde comprei O Castelo de Kafka; não recordo se mais algum. Ela fechou ainda no meu primeiro ano como estudante. Pelo centro, a Diálogo que, próximo do último lugar em que morei em Niterói, e já remunerada pelo estágio, adquiri pilhas & pilhas de livros: os primeiros da saga Filhos da Terra de Jean M. Auel, Sartre, Simone de Beauvoir, Jean Genet, Virginia Woolf, William Faulkner, Fernando Pessoa... Também comprei desses autores, e de outros - o meu exemplar de Cyrano de Bergerac (lera o do meu avô, numa tradução antiga) de Rostand, Jane Austen (A Abadia de Northanger e Mansfield Park são aquisições desse período), Ricardo III de Shakespeare, Conto de Duas Cidades de Dickens - nas livrarias no bairro de Icaraí que então freqüentava (inclusive para ir aos cinemas), a Portinari e a Gutemberg.
Foram os sebos de Niterói que me iniciaram nessa ciência que é a freqüentação de sebos. Paciência, persistência, disposição aventureira, e nada de nojo de sujeira ou poeira: essas qualidades formam o usuário bem sucedido de sebos. Lembro-me de um, no centro, do qual uma amiga e eu já saíamos quando avistei um título conhecido. Retornei à estante: saí de lá com uma tríade kafkiana - duas coletâneas de novelas e contos, A Muralha da China e A Colônia Penal, e o Diário Íntimo. Já não me recordo se terá sido no mesmo que adquiri, mais tarde, uma das mais belas (e felizes) compras minhas: uma edição em 2 volumes, encadernada, com ilustrações originais, de Vida e Aventuras de Nicholas Nickleby de Dickens. Até hoje olho para a obra na minha estante com demorado prazer.
(continua)
Escrito por Claire Scorzi às 19h15
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Corrente de Livros Atualizada
Terminei de ler:
A Inocência do Padre Brown, G. K. Chesterton
O Último dia de um Condenado, Victor Hugo
Numa e a Ninfa, Lima Barreto
Terminei de reler:
A Herdeira (The Poison Tree), Mary Stewart
O Casamento na Idade Média, Christopher Brooke
Estou lendo:
Pecadores nas Mãos de um Deus Irado e outros Sermões, Jonathan Edwards
A Arte do Romance: antologia de Prefácios, Henry James
A Dança das Letras, Franklin de Oliveira
Comprei:
Dante, o Poeta do Absoluto, Hilário Franco Jr.
Contos Fantásticos, Theófile Gautier
A Maldição de Sarnath, H. P. Lovecraft
A Perspectiva Cristã, Julian Marías
Escrito por Claire Scorzi às 18h20
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Casais : Aliados ou Cúmplices (final)
A ficção também coloca em cena casais que se reúnem em busca da verdade; por um ideal; fugindo de um inimigo comum; compartilhando um destino inóspito por escolherem fazer o que é certo.
Em O Lobo do Mar de Jack London (Diário de Leitora de 13/11/2005), Humphrey e Maud fogem juntos da "Ghost", a nau comandada pelo feroz capitão Wolf Larsen. Expostos em um barquinho em alto-mar, o casal aporta numa ilha onde a luta pela sobrevivência estreita a camaradagem entre eles - e, a certa altura, o reencontro com Larsen torna-se um teste de caráter para ambos. Humphrey e Maud vencem esse teste. O relacionamento entre eles cresce, evolui, alimentado pela força moral dos dois. Não há corrupção aqui: o herói e a heroína podem se unir porque a aliança deles contra Larsen nunca os conduz à traição, à injustiça ou ao crime.
Também em Amei uma Assassina (título incorreto para o original Run For Your Life) de Bruno Fischer (ver Literatura Policial: Bruno Fischer em 02 e 05/09/2006) o casal de protagonistas acha-se em fuga: suspeitos de um assassinato, Bill e Nina fogem juntos: num carro, através de um pântano chuvoso, abrigando-se numa floresta... novela policial absolutamente deliciosa, onde a subtrama romântica é talvez a melhor das do escritor (Fischer sempre valoriza o interesse romântico em seus livros policiais), a fuga do casal é pretexto perfeito para evidenciar o caráter de cada um. De novo estamos longe da cumplicidade corruptora; cada peripécia vivida por Bill e Nina deixa claro a coragem, a abnegação - e, no tocante a Bill, um cavalheirismo mesclado a senso de humor. Em outra novela de Fischer, A Grande Decisão, a "fuga a dois" vai se dar lá pela terça parte final do livro: o disfarce do herói, um professor frustrado, é descoberto pelos criminosos - e é pela intervenção da heroína, cúmplice nesse ambiente, mas tentando sair dele, que ambos fogem. A possibilidade de proceder mal, através da traição, é explicitada pelo autor; contudo, o casal a evita e a fuga torna-se o primeiro passo rumo à honestidade. A Grande Decisão é mais tortuoso em sua visão ética do que Amei uma Assassina ; ainda assim, a opção pela franqueza, pela "transparência" , como se diz hoje, acaba por triunfar; o casal não se corrompe, ao contrário: as escolhas erradas que fizeram quando não se conheciam passam a ser descartadas agora que se uniram. O relacionamento deles os enobrece. Sua aliança é redentora.
Num romance contemporâneo, até mal escrito, embora com qualidades, Pelas Minhas Mãos de Alton Gansky – o herói, o pastor Adam Bridger, e a heroína, a dra. Rachel Tremaine, unem-se a princípio em busca de respostas: “Quem ou o quê está curando milagrosamente as pacientes do hospital?” À medida em que a história avança, Adam e Rachel, aliados em nome da verdade, demonstram qualidades e defeitos, e fazem bem um ao outro. Um ponto para Gansky: ele não chega a interromper a narrativa para fazer sermão. Mas é estilisticamente defeituoso.
Já em Lágrimas do Dragão de Dean R. Koontz, o autor aproveita uma parceria profissional – um casal de policiais – cuja aliança se intensifica (com leve insinuação de romance; Koontz é ótimo, mas não tem queda para desenvolver entrechos românticos) quando tem enfrentar um assassino com poderes paranormais. Mais uma vez, a cumplicidade é positiva: os dois exibem coragem, lealdade e auto-crítica; e a heroína criada por Koontz, Connie Gulliver, é das suas melhores.
Para finalizar: em A Morte do Leão, um casal de admiradores de um grande escritor já morto alia-se na busca de um manuscrito perdido, provavelmente a obra-prima do mestre. A causa nobre e desesperançada (para o protagonista narrador, não para a sua companheira, que mantém a esperança) une os dois até o fim, até as linhas finais, pura delicadeza no que insinuam quanto ao destino dos dois: “Seja como for, a única coisa que nos resta fazer é continuar procurando e esperando, juntos; e este forte vínculo nos uniria mesmo se já não estivéssemos unidos por outro”. Quem é o autor dessa novela? Henry James. Alguém que o conheça duvida que só ele escreveria esse tipo de trama?
Escrito por Claire Scorzi às 20h27
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