Casais : Aliados ou Cúmplices
Uma das maneiras mais ágeis, sintéticas e charmosas, eu diria, de "juntar" casais na ficção é fazê-los partilhar um destino comum - seja viajando juntos, buscando a mesma coisa, fugindo de um perigo (variante habitual em novelas policiais), envolvendo-se na mesma situação ou experimentando um interesse comum. A cumplicidade é a chave: o romance entre herói e heroína parece brotar ou desenvolver-se naturalmente da trama.
A cumplicidade, contudo, não é positiva por si só. Implica em co-participação, em co-autoria, para o bem ou para o mal. A literatura nos dá exemplos excelentes de ambos os tipos de aliança.
Na tragédia MacBeth, de Shakespeare, MacBeth e sua mulher, Lady MacBeth, unem-se para "cumprir" o destino vaticinado para MacBeth pelas feiticeiras: o de tornar-se rei. Para isto, o Rei Duncan deve morrer. Para isto, o casal MacBeth se alia.
Mas o que se vê depois é a deterioração dos relacionamentos - do relacionamento de MacBeth com a esposa, e do relacionamento de MacBeth consigo próprio ("...Entupi-me / de tal modo com coisas pavorosas, / que o horror, já agora familiar das minhas / cogitações de morte, não consegue / abalar-me no mínimo") , e de Lady MacBeth consigo mesma: ela enlouquece. A cumplicidade na traição e no assassinato afastou os esposos, corrompendo a união deles, enquanto corrompia a ambos.
Não é outra a conclusão do romance de James Cain, O Destino Bate à Sua Porta : uma esposa e o amante dela matam o marido e, no processo, passam a desconfiar um do outro. O livro termina com a morte da mulher e a prisão do amante - que é quem narra a história.
Particularmente, acho lindíssimo o final de As Asas da Pomba de Henry James. No estilo elusivo de James, onde as alianças entre os personagens também costumam ficar no plano dos subentendidos, um casal arquiteta a solução de seus problemas financeiros: ele se comprometerá com uma jovem rica que está gravemente doente; sua influência junto a ela deve garantir a redação do testamento da moça - que, de fato, deixa-lhe sua fortuna. O desfecho, em que o rapaz e sua amada-aliada se reencontram após a morte da "noiva conveniente" dele, revela, porém, que o relacionamento dos dois transformou-se: a cumplicidade deles no plano calculista junto à moça que morreu envenenou o amor dos dois, algo que não haviam previsto. "Jamais tornaremos a ser como éramos antes" diz ela, derrotada.
Essas constituem o lado negro da cumplicidade. Existe o outro, positivo.
(continua...)
Escrito por Claire Scorzi às 19h05
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Touchstones Jamesianos
Informada pela Meg do Sub Rosa (http://flabbergasted.blogspot.com/) aprendi que touchstones são frases, trechos, pedacinhos de obras das quais gostamos. Aquele par de frases que ficam na memória, aquele parágrafo que sempre é mencionado quando vamos falar de um romance. Pois então...! Segue abaixo uma relação de touchstones - trechos favoritos - de um alguém muito especial: meu bem amado Henry James (1843-1916).
"Como pode esconder que está ignobilmente apaixonado por ela; que está mortalmente embriagado da alegria que ela lhe dá?" Atalhei o seu expedito protesto com um gesto ainda mais expedito. "Você a ama como nunca amou ninguém e, paixão por paixão, ela lhe corresponde na mesma medida! Domina-o, possui você por inteiro!"
(Os Amigos dos Amigos)
- Como foi, exatamente, que eu lhe contei?
- Sobre o que você sentia? Bem, foi muito simples. Contou que sempre teve, desde os primeiros tempos, como a coisa mais profunda dentro de você, a sensação de estar sendo poupado para algo raro e estranho, talvez prodigioso e terrível, que mais cedo ou mais tarde acabaria acontecendo. Que tinha este pressentimento, esta convicção, e que isto seria capaz de esmagá-lo.
(A Fera na Selva)
... Ele nunca supôs que ela não tivesse asas e necessidade de movimentos livres e belos, com seus longos braços e pernas; ele não temia a força dela. As palavras de Isabel, se é que tinham a intenção de chocá-lo, erraram o alvo e só o fizeram sorrir com a sensação de que havia um terreno comum entre eles.
(Retrato de uma Senhora ; o grifo em negrito é meu)
Ele ouviu-a em silêncio, olhando seu rosto, mas sem se mexer. Depois disse apenas:
- Eu me casarei com você, veja bem, dentro de uma hora.
- Como éramos antes?
- Como éramos antes.
Mas ela se voltou para a porta, e seu balanço de cabeça era já o fim. - Jamais tornaremos a ser como éramos antes!
(As Asas da Pomba)
Escrito por Claire Scorzi às 05h47
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O Desprezo Pela Literatura
Se existe uma espécie de indivíduo que eu abomino, é aquele que levanta o nariz (metaforica ou literalmente) em desprezo à ficção. Tais criaturas são profissionais da área de ciências exatas, advogados, médicos, cientistas sociais (!), teóricos de comunicação (!!); até mesmo políticos julgam-se valiosos o bastante para dispensarem a leitura de romances, contos e poesia em nome "do que é relevante". A mais suja e medíocre das ocupações desse mundo acha-se superior àqueles que escrevem e lêem obras de ficção.
Por que isso? Em parte, pode ser um erro da visão limitada que encontramos em tipos como um dos personagens de Marilyn French em seu romance feminista Mulheres, o físico Harley; casado com uma estudante de Literatura, despreza-a porque "qualquer um pode ler e escrever". Essa idéia da "facilidade" do ato de escrever parece enganar a muitos. Muitas pessoas escrevem; muitos elogiam o que é escrito e publicado hoje. Contudo, acredito que as melhores mentes de nossa época, se consultadas, seriam as primeiras a reconhecer que novos Shakespeare, novas Jane Austen, novos Gregório de Matos não estão nascendo a cada geração; que decerto não pululam na literatura contemporânea. Os realmente bons são raros.
Portanto, parte do desprezo pela literatura brota desse equívoco (se é tão fácil, por que nossos políticos se expressam tão mal?). Porém há mais raízes. Uma outra estaria no extremo oposto: sendo Arte, a Literatura é, por definição, algo desprezível porque dispensável. É ocupação dos desocupados. Literatura, sendo Arte, é sem importância, porque não enche barrigas, não põe comida na mesa (se é por isso, falando estritamente, crer em Deus também não. Contudo, Nem só de pão viverá...). Os politicamente engajados - e os religiosamente engajados: nisto, são iguais - com freqüência olham a literatura de modo condescendente, no máximo; um romance, para eles, ou é perda de tempo (bem queria eu perder mais tempo assim), ou atividade menor, mais ou menos como assistir telenovela ou programa de auditório.
Endosso as palavras de Michael Horton, um calvinista anormalmente simpático:
Num grupo sempre se pode saber quem despreza a ficção. Freqüentemente, os que não tiram tempo para ler ficção olham para o mundo através de suas perspectivas limitadas, conhecendo apenas os seus próprios sentimentos e pensamentos dentro de seu próprio tempo e lugar. (...)
A leitura de ficção não apenas diverte ( que já seria razão suficiente para sua existência), como também nos ajuda a entrar em outro período de tempo e lugar e entender um mundo diferente, e não apenas levar nossas opiniões e experiências pessoais como uma verdade determinada. ("O Cristão e a Cultura", pág. 102;103)
Eu acrescentaria: sempre desconfie de alguém que não respeita Literatura.
Escrito por Claire Scorzi às 18h41
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Contar Segredos
A confiança é uma planta que só pode crescer devagar. Todas as vezes em que, por razões várias, acelero o crescer dessa planta, descubro meu engano. Partilhamos de nós, porém lentamente (e assim deve ser); cada relacionamento começa com uma seqüência de portas entre as duas pessoas. Algumas delas nunca são atravessadas.
E se a confiança é equivocada, resta a sensação desagradável, por vezes humilhante, que transfigura a intimidade partilhada: o segredo deforma-se, ganha contornos do ridículo, pois foi revelado a quem não devia; não vemos nosso segredo da mesma forma que antes, maculado que está, agora, por nossa indiscrição. O olhar errado (o olhar da pessoa errada) enfeia o que era belo para nós. Perdemos o que nos pertencia, e talvez não possamos reavê-lo.
Escrito por Claire Scorzi às 20h32
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A Bíblia : uma Leitura Feminista
Personagens femininas: 1 Samuel 25:2-42; Ester 1:1-22.
Abigail -- a esposa que encontra o equilíbrio entre submissão ao marido e fazer o que é certo; ou, quando cessa a submissão da esposa ao marido? Resposta: quando submeter-se significa fazer o que é errado.
Vasti -- a rainha que não se submete à humilhação pública, que recusa o papel de objeto, e paga o preço.
Abigail e Vasti obedecem ao princípio do hierarquismo: quando dois deveres ou mandamentos acham-se em conflito, obedecem ao dever mais alto, ou ao mandamento mais importante. Fazer o que é justo - evitar mortes desnecessárias - é mais importante do que obedecer ao marido (Abigail). Auto-respeito ou respeito próprio é mais importante do que obedecer ao marido (Vasti).
O capítulo 1 do Livro de Ester é uma peça de fina ironia. Terá sido escrito por uma mulher? Possibilidades. O restante de Ester não mantém o mesmo tom. O Livro de Ester pode ter autoria composta.
Escrito por Claire Scorzi às 18h40
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Uma Página Transcrita 17
(...) Leio "A Canção da Relva". O 1º capítulo pareceu-me escrito com ódio, com ira - a indignação contra o racismo é muito forte. Os capítulos seguintes - já li até a página 92; são 185, e páro às vezes, é doloroso - fizeram-me chorar, me apiedar, sofrer. Não acredito que conserve este romance, ainda que não lhe faltem qualidades: dói demais assistirmos essas pessos infelizes, imperfeitas porém patéticas, dignas de simpatia - como, como n ã o simpatizar com Mary, apesar do seu esnobismo? Com Dick, apesar dos seus castelos no ar? - serem destruídas. E Moses - no 1º capítulo já descobrimos que ele matou Mary, os capítulos seguintes são um longo "flashback" - provavelmente será o mesmo: digno de simpatia e compaixão, um ser humano que o leitor assiste ser aniquilado. Doris Lessing escreveu este romance um pouco antes dos 30 anos, creio, e publicou-o aos 30-31; será que se consegue escrever com tanta ira e sobre tanta infelicidade, tanta dor, quando se fica mais velho? Não consigo crê-lo; a não ser que se conte tal dor de muito longe (o que ela não faz neste romance); penso que ficamos mais sentimentais com o passar do tempo, menos capazes de escrever algo tão doloroso, tão sofrido; e sinceramente, gosto que seja assim. (...)
(excerto do diário pessoal - 27/04/2000)
Escrito por Claire Scorzi às 17h40
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Vitalidade Extinta e o Fazer Teológico
Recentemente estive notando o quanto certos teólogos e escritores cristãos se repetem. Um amigo meu, leitor voraz, contou-me ter lido tudo ou quase tudo de D. M. Lloyd-Jones e observou: "Em seus últimos livros ele se repete". Percebi o mesmo fenômeno em Francis Schaeffer: a amplitude, a vitalidade tão presentes em "A Morte da Razão" acha-se ausente de obras posteriores como "A Igreja do Final do Século XX" e "Verdadeira Espiritualidade" - este último, aliás, chega a ser medíocre. O que aconteceu? Por que os jorros de visão, os insights que me impressionaram naquele livro desapareceram nos seguintes? Por que encontrei tanta obviedade? No campo da teologia, só consigo chegar a uma conclusão: o pensar teológico desses homens deve ter sido estreito, absolutamente fechado; a caixa dentro da qual Lloyd-Jones e Schaeffer se moviam era bem delimitada, com exatos espaços para movimentos contidos. Uma teologia de corda curta que acabou por estrangulá-los. Dizendo isso, quero deixar claro que de modo algum advogo um fazer teológico sem bases firmes; para que uma pessoa se "torne" cristã (biblicamente: para que nasça de novo) terá de, forçosamente, crer em alguns pontos básicos, centrais, inegociáveis da fé. Pontos básicos - a partir dos quais se pensa como cristão - e firmes - que não podem ser mudados sob nenhuma hipótese. Radical? Sim. O termo "radical" já o indica: "Parte invariável de uma palavra. Relativo à raiz. Fundamental". Porém o radical numa palavra, como o radical na teologia, possui um limite. Falando apenas teologicamente: qualquer teologia que afirme, implicita ou explicitamente, dar conta do Deus da Bíblia é maligna, pretensiosa, fruto da soberba do homem; é satânica e deve ser execrada. Sei que muitos dos meus irmãos e irmãs na fé erguem as sobrancelhas, ressabiados ante qualquer insinuação de "novidade" religiosa. Muitos louvam a obviedade, pois é no óbvio que se encontra o coração do Cristianismo; na obviedade do pecado, da condenação, da Encarnação, morte e ressurreição do Cristo que nos salvou e salva todos os dias, na celebração desse "centro" - a Ceia do Senhor - vivemos como renascidos: salvos, justificados, santificados em Jesus Cristo. Nisto, acho-me em perfeito acordo com meus irmãos. Contudo, abominando as "modas" no meio cristão, nem por isso deixo de reconhecer que existe muito trabalho a ser feito, ou talvez a melhor colocação seja "a ser redescoberto". Lutero não inventou a justificação pela fé, foi reencontrá-la em Paulo. Nós, hoje, precisamos refletir teologicamente e, com nossos esforços e amparando-nos uns nos outros - o que inclui aqueles que já morreram, mas cujas obras estão conosco - construir uma teologia do lazer, uma teologia da arte (há indicações de que o liberal Tillich esboçou algo nesse campo; e nós, cristãos conservadores?), uma teologia que abarque nossa vida, que dê conta de cada área dela. Para isso, é preciso humildade - nossa teologia não está "acabada" - é preciso fé - o Senhor que iluminou outros, nos iluminará também - é preciso estudo e dedicação, ou seja, dar um adeus à preguiça intelectual. Ou estacionaremos como outros antes de nós.
PÓS-ESCRITO: Estou ciente que muito conhecimento me falta. Meus leitores bem mais cultos do que eu têm intimidade com pensadores e teólogos antigos, inclusive clássicos como Tomás de Aquino e Calvino, e podem contribuir com o tema, dizendo o quanto eles avançaram nesses campos.
Escrito por Claire Scorzi às 20h13
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Gato Pensa?
Dizem que gato não pensa mas é difícil de crer. Já que ele também não fala como é que se vai saber?
A verdade é que o Gatinho, quando mija na almofada, vai depressa se esconder: sabe que fez coisa errada.
E se a comida está quente, ele, antes de comer, muito calculadamente, toca com a pata pra ver.
Só quando a temperatura da comida está normal, vem ele e come afinal.
E você pode explicar como é que ele sabia que ela ia esfriar?
(Ferreira Gullar)
Escrito por Claire Scorzi às 06h59
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Claire na Alcatéia 25: A Coisa Real
Então, ela estava olhando para ele enquanto dormia. O médico havia dito que o perigo passara. Ela o contemplava; esperava. O médico acreditara nela, na sua serenidade. A eficiência naquelas palavras "Ele não perdeu muito sangue"; ele o confirmara, tendo-o examinado. Uma cirurgia de emergência. Bem sucedida. Ele repousava com os olhos dela sobre si. Olhos velados. Sempre pudera mantê-los assim, e representar emoções que não sentia; estados de espírito diversos do seu real. As pessoas nunca a descobriam, nunca; em toda a vida - e significava algo, agora que caminhava para o seu quadragésimo-quarto aniversário - só encontrara duas pessoas que podiam lê-la com clareza; ler seus olhos. A primeira, a bisavó. Aquela mulher difícil. Não a visitava muito. A definição do relacionamento entre elas dera-se naquela tarde em que, fingindo abalo com o término de um noivado, a velhinha a desmascarara: "Não sei o motivo dessas lágrimas, mas sei que por causa daquele idiota não é". Uma mulher difícil, muito. Via através dela, via em seus olhos. Ela sempre julgra estimulante (além de seguro) representar o que não sentia. O que sentia ficava a salvo, apenas dela. Ele moveu a cabeça no travesseiro, e ela sentiu o coração confranger-se. Ah, nossas emoções. Os afetos. Bom que os guardemos do mundo. São nossos, nossos só. Ela guardara os seus. Nenhum dos homens de sua vida soubera. O noivo de quem fôra conveniente fingir que se importava (quando enlanguescia, entediada ao seu lado), o primeiro marido a quem amara profunda, insensatamente. E que jamais o soubera. O segundo era um bom homem. E decidira deixar que ele soubesse que era o que ela pensava a seu respeito. Ele também a julgava uma boa mulher. E, é claro, estava certo. Porque ela podia escolher, e com freqüência escolhia, quem poderia ver além dos seus olhos; quem podia, e quando, saber o que ela sentia. O resto eram personas. Irada, infeliz, tranqüila - embora não fosse uma atriz podia convencer qualquer um de suas emoções. A bisavó estava morta. E, como numa lição de humildade, para que ela soubesse que nunca poderia ocultar-se de todos, seu filho nascera. Ele era a segunda pessoa que, aprendera, não conseguia enganar. Desde a infância era observada, v i s t a, com exatidão pelso olhos castanhos da criança. Não podia enganá-lo e deixara de tentar. Seu filho. Enquanto ele crescia, e ela compreendia seu amor e sua nudez diante dele, buscara ensiná-lo. Protegê-lo. "Por que você deixa que saibam? Proteja-se" Um menino teimoso, um adolescente igualmente teimoso. "Não" "Por que não?" "Porque, se eu fingisse, nunca teria a coisa real". Assim ele dissera: "A coisa real". Jovem, desamparadamente (a juventude é desamparada, ela pensava; o idealismo nos faz vulneráveis), e límpido. O céu. Um riacho de água. Nenhum esconderijo, nenhum tapume. Límpido. E ali estava o resultado: pulsos cortados, dor. Tanto sangue... Não perdera muito, ela dissera ao médico. Contudo, parecia tanto quando abrira a porta do quarto e vira... Viu-o piscar, os olhos se abrindo. Aproximou o rosto para que ele a visse. "Você está no hospital, querido. Está salvo". Ele custou - olhava para ela. Disse: "Lamento ter preocupado você". "Foi uma grande asneira. Você sabe". Ele a estava olhando e sabia. "Sim. Foi mesmo. Que bom que falhei". "Que bom" ela disse, os olhos que ele podia ver, o que estava no fundo deles; deixando que as lágrimas escorressem, pingando no lençol onde o filho estava deitado.
Escrito por Claire Scorzi às 14h17
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Lançamento do Livro de Chesterton
Eu ia escrever um post especial onde incluiria a notícia; como tive imprevistos, apenas faço o anúncio: dia 17/10, terça-feira, na Livraria Al-Farabi, na Rua do Rosário, 30, atrás do Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB), no centro do Rio, lançamento do livro A Inocência do Padre Brown de G. K. Chesterton, pela editora Sétimo Selo. A tradução é de Carlos Nougué, com apresentação de Rosa Nougué, incluindo um apêndice do próprio Chesterton, "Como Escrever uma História de Detetive". Ah! A orelha do livro foi escrita pela autora deste blog.
Escrito por Claire Scorzi às 19h21
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Poesia Brasileira no Otium
http://otiumliberale.blogspot.com/
Um panorama esquemático sobre o que li ou não li de poesia brasileira. Aviso: não sou uma leitora proficiente de poesia.
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Escrito por Claire Scorzi às 19h25
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Sobre Escrever
Os que levam o ato de escrever a sério são talvez os maiores críticos de si mesmos. Escrever, para esses, não é atividade puramente divertida (embora, em caso de ausência de divertimento, aquele que escreve deva reconsiderar sua paixão); é amor, necessidade, chamado, forma de expressão... Sendo amor, também dói às vezes; sendo necessidade, deve ser disciplinada para que não se torne gula ou luxúria ou qualquer outro vício de excesso; sendo chamado (dom) deve trazer humildade e o ouvido atento (o "ouvir" interno) - conscientes que devemos ser de que textos vêm através de nós, como filhos, disse uma escritora. E como filhos, não são "nossos", porém dádivas que recebemos, com a incumbência de zelar por elas. Filhos são dádivas. Escrever é dádiva.
Toda dádiva deve incluir seriedade e alegria. Na alegria, antes, durante e depois, já está a recompensa; quando se falha, a alegria pode ser toldada, mas não deixa de existir: se nos sabemos portadores do dom, se nos sabemos escritores, sabemos também que continuaremos a tentar, a experimentar, a trabalhar, sempre e sempre; trabalhar para escrever melhor também é alegria, e forte motivação.
A seriedade é a outra face da moeda. Alegria sem seriedade é desmazelo com o dom, ou somente distingue aquele que o recebeu daquele que não o recebeu. E daí? Ora, podemos brincar com as palavras. Brincamos com frases, com textos; enquanto soubermos que é brincadeira não haverá mal. É quando um mau escritor julga-se bom que existe tragédia. É verdade que esta pode ser evitada quando o meio, a época, tudo conspira para entronizar a mediocridade. Não é preciso citar exemplos...
Contudo, esse tipo de auto-engano não é tão danoso quanto o inverso: o escritor autêntico, agraciado com o dom, que passa a descrer de si mesmo porque lhe deram uma palavra má, uma palavra que semeou a dúvida sobre seu chamado e o fez perder a confiança, mas uma palavra falsa; lemos sobre a vida de alguns que lutaram contra o meio, a época, sobrevivendo e ainda teimando em escrever a cada recusa, a cada rejeição. Alguns deles que viram, como diz um soneto de Shakespeare, "A nulidade trajada com luxo..." Irônico. Não perder a fé. Trata-se disso. Para escrever também é preciso fé. Fé naquilo que se recebeu, fé na dádiva.
Escrito por Claire Scorzi às 04h38
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Sobre Literatura Brasileira, no Otium
Um panorama esquemático do que li, gostei, não gostei, não conheço bem, não li, em Literatura Brasileira. No http://otiumliberale.blogspot.com/ .
Escrito por Claire Scorzi às 05h54
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