Claire
 


Diário de Leitora 17

Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto

 

Um romance sobre idealismo; sobre a mediocridade e seu ódio aos que não se encaixam nela; sobre os falsos "salvadores da pátria". Para muitos, esta é a obra-prima de Lima Barreto, a história de um Dom Quixote nacional cujas atitudes vão lhe granjeando estranheza, desconfiança, hostilidade aberta além de fazê-lo alvo de ridículo - até a morte.

Apesar do seu tema (ou por causa dele) este é um livro feliz de Lima Barreto: tudo se ajusta, da criação dos personagens ao desenvolvimento da narrativa; da estrutura do romance (com os três períodos da vida do herói, em seu idealismo sempre castigado pela realidade) às observações argutas, que ficam na memória; certas seqüências. Uma delas me parece emblemática: no capítulo 2 da terceira parte, o trovador Ricardo Coração dos Outros, transformado em cabo à força, consegue do major Quaresma licença para cantar e tocar seu violão nas horas de ócio... e é flagrado por um tenente Fontes que proíbe a brincadeira. O mesmo oficial vai depois repreender o major:

"- Que é isso, 'Seu' Quaresma! Então o senhor permite cantorias no destacamento?

O major não se lembrava mais da coisa e ficou espantado com o ar severo e ríspido do moço. Ele repetiu:

- Então o senhor permite que os inferiores cantem modinhas e toquem violão, em pleno serviço?

- Mas que mal faz? Ouvi dizer que em campanha...

- E a disciplina? E o respeito?

- Bem, vou proibir - disse Quaresma.

- Não é preciso. Já proibi.

Quaresma não se deu por agastado, não percebeu motivo para agastamento e disse com doçura:

- Fez bem."

Impressiona-me essa frase do autor: "não percebeu motivo para agastamento". Por que não teria percebido o major Quaresma razão para agastar-se, quando aos nossos olhos é evidente a petulância do outro? Porque, à sua maneira peculiar, Quaresma está fora desse mundo; esse mundo de tenentes Fontes, de consciência da própria dignidade, cioso de importância pessoal, lhe é estranho; não o penetra.

Quaresma e o tenente não habitam o mesmo mundo.

Alguém disse, a propósito do Dom Quixote (é difícil não fazer a comparação) que não era o cavaleiro a estar errado por não ser como o mundo o queria; o mundo, sim, estaria errado por não ser como o desejava Quixote... A colocação é válida igualmente para o nosso Policarpo Quaresma. Se estamos imersos num mundo materialista, medíocre, utilitarista, pragmático, interesseiro, aborrecidamente "prático", e o major não, é ele o felizardo (apesar de tudo) e não nós; o mundo do herói de Lima Barreto é infinitamente mais rico, mais vivo - melhor.

O escritor deixa isso claro ao elaborar dois personagens que, em contato com Policarpo, sentem a sua grandeza: Ricardo Coração dos Outros, o trovador, e a afilhada de Quaresma, Olga. São, também, idealistas, Ricardo na sua prática diária, no seu amor ao violão e às suas modinhas; Olga por intuição, sem viver plenamente sua crença (é interessante notar como Lima Barreto relaciona essa impossibilidade de Olga com a vida monocromática, compactada, destinada às mulheres e vivida por elas na época do autor) mas resguardando uma parte de si, secreta, que pressente que "deve haver algo mais": algo mais do que ganhar dinheiro, casar-se, ser respeitável, adquirir status. Deve haver algo mais. Policarpo Quaresma encarna esse desejo, na medida em que aspira a mais no seu amor desinteressado pelo Brasil. Um Brasil que parece preferir a mediocridade, contudo; não é o que vemos todos?

 



 Escrito por Claire Scorzi às 14h08
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Apontamentos XII

BRAKEMEIER, Gottfried. O ser humano em busca de identidade. São Leopoldo; São Paulo: Sinodal; Paulus, 2002. pág. 18-25.

 

Homem e Mulher: a Imagem de Deus.

 

Segundo Brakemeier, a imagem de Deus no ser humano é um atributo inalienável, um status conferido; este status, porém, incluiria uma atribuição: esta é compromisso, responsabilidade. Ele diz: "Atributo e atribuição encontram-se numa correspondência dialética, insistindo que o ser humano de fato seja o que é". (p.21).

Contudo, e o pecado? Tendo o ser humano pecado, o que aconteceu com essa imagem de Deus? Para o autor, é preciso distinguir atributo - o status que Deus conferiu à Sua criação - e atribuição, ou seja, a responsabilidade, a vocação; na criatura humana pecadora (isto é, em todos nós) o atributo (dignidade) permanece inalterável, porém a atribuição - a consciência responsável, a vocação de criação máxima de Deus - perdeu-se. Esta só é recuperada em Cristo.



 Escrito por Claire Scorzi às 18h46
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Literatura Policial : Damas do Crime (2)

Nancy Taylor Rosenberg talvez não possa ser classificada como romancista policial autêntica; seu foco está nos meandros da lei americana, no exercício da justiça - as heroínas de seus dois livros publicados no Brasil são juízas - porém vários elementos do gênero se fazem presentes: crime, investigação, suspeitos. Mais jovem do que Mary Stewart, contemporânea, seu estilo narrativo é mais ágil, os personagens mais "cinzentos" no plano moral (em Rinehart, em Stewart, a tendência é apresentar os personagens no esquema branco e preto); é, também, detalhista quanto à violência utilizada nos crimes (uma infeliz característica na ficção policial recente), particularmente os que envolvem sexo, o que dá um tom indigesto à parte do que escreve. Nessa nossa época de abuso generalizado de crianças, a denúncia de Rosenberg é válida, mas pega pesado, tornando difícil ler ou reler trechos de seus livros. Em Circunstâncias Atenuantes , a violência contra sua filha traz à memória da heroína a violência que ela própria sofreu em criança - e sua luta passa a ser um gesto desesperado para trazer justiça à filha - a justiça que a protagonista infelizmente não obteve. Em No Interesse da Justiça , o assassinato de uma prostituta parece interligar-se com as ações de um pedófilo de identidade misteriosa. Nos dois romances, um atrativo são os desenhos que a escritora traça dos personagens adolescentes: a menina de 13 anos de Circunstâncias  e o garoto de 14, de No Interesse... não são aborrecentes histéricos nem tampouco jovens exemplares, mas figuras interessantes, com quem nos zangamos e nos enternecemos; um ponto para a autora por ser capaz de criá-los.

Vera Caspary (1899-1987) escreveu outros livros, porém só consegui ler um. Se ela escreveu os outros no mesmo nível, ou em nível aproximado, é uma romancista afortunada. Seu Laura, filmado duas vezes (a primeira e mais famosa em 1943, com Gene Tierney no papel-título) é uma peça refinada de literatura. Nele, Vera usa a técnica dos "pontos-de-vista": cada parte é narrada por uma personagem que dá seqüência à história enquanto apresenta, com suas observações, ironias, obsessões, sua visão própria do caso - multiplicando assim os "ângulos" para o leitor. A autora revela inclusive na diferença de "estilos" em que cada um dos personagens narra - o amigo, o detetive, a vítima - seu virtuosismo e segurança da técnica de escrever; ler Laura é acompanhar uma excelente trama policial e uma escritora que nos dá prazer com sua forma.



 Escrito por Claire Scorzi às 04h07
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Literatura Policial: Damas do Crime (1)

O que há em comum entre a inglesa Mary Stewart (1916- ) e as americanas Mary Roberts Rinehart (1876-1958), Nancy Taylor Rosenberg e Vera Caspary (1899-1987)? Resposta: todas escreveram histórias policiais.

Das quatro, é Mary Stewart quem parece ter um estilo literário mais elaborado, até mesmo ornamentado em excesso. Porém, não falta atmosfera a seus livros. Se Fogueiras à Meia-Noite tem um começo desinteressante, ainda assim apresenta uma seqüência de suspense que merece elogios - a cena em que a heroína está trancada no quarto com a sobrevivente de um dos crimes, e então atende a um telefonema que visa fazê-la abrir a porta - para o assassino (que ninguém sabe quem é). Em A Herdeira (The Poison Tree) o suspense advém da brincadeira de gato e rato que a heroína (a narradora da história) faz com aqueles que a contratam para passar-se por uma mulher desaparecida há anos; e a brincadeira é também com o leitor, quando descobrimos que a protagonista não nos contou tudo, do mesmo modo como não contou tudo aos seus cúmplices: ela se esconde de nós e também deles...

Outros bons romances de Mary Stewart são Não Toque no Gato e Nove Carros à Espera.

A americana Mary Roberts Rinehart começou a escrever para sustentar-se. Dona de uma obra extensa e irregular em termos de qualidade, escreveu dezenas de romances, novelas e contos, no gênero policial e em outros. Por volta de 1913 já era escritora famosa e, procurando assunto para um novo livro, soube do caso do "Herbert Fuller", navio à bordo do qual haviam ocorrido diversos assassinatos. À época, um dos tripulantes da embarcação achava-se preso como autor dos crimes. Após ler a respeito e pesquisar sobre o resto da tripulação, a escritora concluiu que o homem encarcerado era inocente. Escreveu Assassinato no Castelo de Pôpa (1914) com desfecho diferente do caso real - responsabilizando outra pessoa pelas mortes. O ex-presidente Theodore Roosevelt, um dos seus leitores, leu o romance e entrevistou-se com a autora; de algum modo, através dele ou por convicção própria, o presidente Woodrow Wilson, outro admirador de Rinehart, assinou o perdão para o prisioneiro. A escritora estava certa: o verdadeiro assassino, quando fora do "Herbert Fuller", cometeu outros crimes e havia sido diagnosticado como maníaco homicida. Assassinato no Castelo de Pôpa  é um de seus melhores livros. Outros são O Grande Equívoco; O Caso Jennie Brice; e o volume de contos e novelas A Esposa Apavorada, onde o destaque é A Poltrona Queimada, justo a história que encerra o livro, no estilo "troca-troca" de suspeitos até chegar-se ao verdadeiro criminoso.

     (continua)



 Escrito por Claire Scorzi às 02h19
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Uma Página Transcrita 16

O que aprendi e continuo aprendendo:

Deus trabalha conosco no ponto em que estamos, nas condições em que estamos.

Arrependimento é aceitação das conseqüências do nosso pecado.

A verdadeira bondade, como a verdadeira santidade, não são vistos por aquele que as possui; são as jóias ocultas nele em Deus, invisíveis para o próprio santo - vistas só por Deus e por aqueles a quem Ele permite ver.

(...)

              (excerto do diário pessoal - 16/04/2006)



 Escrito por Claire Scorzi às 06h29
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A Vida Após a Devastação: Homens e Mulheres de Henry James

Em Nove Razões para Amar Henry James escrevi sobre os desfechos "reais" de HJ. É um fato testemunhado por nós, quando não advindo da experiência, que as pessoas sobrevivem após o sofrimento. No romance tradicional ( a palavra é usada no sentido de "vir da tradição", do consagrado; não se trata de uma crítica, mas de classificar para entender) quando um herói ou heroína atravessava uma catástrofe emocional, encontrava, no fim do percurso, a loucura ou a morte. Exemplos não faltam: Eurico, o Presbítero de Alexandre Herculano; O Ingênuo de Voltaire (onde, apesar da valentia de Voltaire, ele obedece à lei não expressa de que o pecado sexual feminino exige a morte - e assim, sua heroína, após sacrificar a virtude tentando salvar o herói, deve adoecer e morrer); Ana Karênina de Tolstoi; O Seminarista de Bernardo Guimarães; Pai Goriot de Balzac; O Idiota de Dostoiévski; etc.

Exceções? Sim, existem. Algumas bem antigas, como a heroína-título de Daniel Defoe, Moll Flanders; embora não seja o meu favorito (prefiro Robinson Crusoe e Um Diário do Ano da Peste ) louvo Defoe por ter ido contra as regras não escritas - se bem que os séculos XVII e XVIII (início) são, mesmo, um pouco diferentes (o XVII ainda devia estar cheirando a Shakespeare...). Um dia escrevo sobre Defoe.

É nos fins do século XIX e começo do XX que a mudança vai deixando de ser exceção; passa-se a admitir que as personagens sobrevivam aos cataclismos, inclusive as mulheres. Estella, em Grandes Esperanças de Dickens, sobrevive a um casamento infeliz. Em Henry James, a vida após a derrocada irá aparecer cada vez mais.

Em A Herdeira (título original, Washington Square) a heroína sobrevive a um pai despótico e que a despreza, e também a um falso admirador (que estava atrás do dinheiro, para variar; as heroínas de James, como muitas de nós, têm um péssimo gosto para homens): as últimas linhas do romance, lapidares, colocam em cena sua capacidade de continuar a viver, ir em frente após tudo; em Retrato de uma Senhora, Isabel Archer é outra expert em sobrevivência - e prova-o dolorosamente, ainda uma vez, ao afastar-se de Goodwin na cena final e prolongar seu sacrifício por causa da enteada; o desfecho em aberto deixa-nos sem saber: Isabel continuará resistindo? James não nos diz, mas aposto minhas fichas nela.

No melancólico e absolutamente lindo, além de ambíguo, A Roda do Tempo, a protagonista feia rejeitada pelo herói sobrevive a tempo de, como diz o título, ver as rodas girarem... E tornar-se uma mulher madura que, possui, agora, sua própria espécie de beleza.

Os heróis, ou devo dizer, protagonistas de HJ, também sobrevivem, embora alguns pareçam consegui-lo porque simplesmente não têm caráter (como Amerigo, o marido de Maggie em A Taça de Ouro) ou porque ignoram a extensão da própria dor (caso do pai de Maggie, Adam Verver, no mesmo romance; tipicamente, ele é poupado de saber a verdade pelo sacrifício da filha, que suporta o peso da traição - traição a ela, traição ao pai - sozinha). Talvez seja coincidência, mas talvez não: no único romance de que consigo lembrar em que o protagonista de Henry James não é um mau caráter, e em que conscientiza-se da extensão da sua perda, da gravidade da derrocada sofrida, ele morre... Bom, há o herói (parece que é herói mesmo) de O Americano; que continua sua vida. Este eu não li ainda.



 Escrito por Claire Scorzi às 04h45
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Literatura Policial: Simenon

Georges Simenon (1903-1989) escreveu mais de 400 livros e é o criador do comissário Maigret, seu herói em diversas narrativas policiais. Desprezado por críticos, conquistou, porém, o respeito de alguns, notadamente o escritor francês André Gide, que chegou a citar, impressionado, uma novela como Estranhos em Casa, um de seus romances sem Maigret, revelando, contudo, o mesmo tom humano: a história do advogado alcoólatra que, vivendo uma espécie de "morte em vida", é de súbito despertado à ação pelo inesperado assassinato ocorrido em sua casa, constitui uma de suas melhores obras, tendo sido levado ao cinema com um elenco que inclui Jean-Paul Belmondo (sempre ótimo)  no papel central e a atriz brasileira Cristina Reali interpretando sua filha.

O estilo de Simenon é como, eu imagino, um cínico escreveria, porém um cínico muito particular, aquele que ainda guarda em seu íntimo alguns idealismos (ou romantismos). Assim, se em Estranhos em Casa ele faz questão de frisar que a filha do advogado não é bonita, o desfecho traz alguma coisa de emotivo não piegas, quando o protagonista, tendo provado a inocência do namorado da filha, deve "perdê-la" para esse jovem, justo quando a havia "recuperado" ao abandonar a bebida em prol de salvar o rapaz da acusação de assassinato; a casa do advogado, na qual ele próprio se tornara um estranho, ficará desta vez realmente vazia, apenas com ele; porém, é um homem diferente que a ocupa agora.

Essa combinação de secura e emotividade também é encontrada numa das novelas do comissário Maigret: Maigret e o Fugitivo, onde o protagonista atravessa cinco dias e cinco noites seguindo um suspeito; deliberadamente, "o homem", como passa a chamá-lo Maigret, sabendo-se vigiado, não vai para casa; passa os dias entre refeições modestas, hotéis de baixo nível, até ter de refugiar-se em abrigos de mendigos. O comissário assiste a degradação do seu suspeito que, reduzido à miséria, insiste em não voltar para casa, em não revelar onde mora - até chegarmos à conclusão, entre doída e nobre.

Outras obras de Simenon: Morte na Alta Sociedade; A Velha senhora; O Louco de Bergerac; e o premiado O Alfaiate e o Chapeleiro.



 Escrito por Claire Scorzi às 17h29
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Nove Razões para Amar Henry James

1 - Sutileza é o seu forte. Numa época literária em que a liberdade de expressão pode ser usada também para "dizer tudo" porque falta talento para sugerir, e porque não se acredita na inteligência do leitor, faz bem lembrar que existem outras maneiras de escrever.

2 - Personagens complexos. As pessoas não são simples, então por que as pessoas de ficção deveriam sê-lo?

3 - Figuras femininas. Marilyn French disse que, com exceção das de Henry James, todas as personagens femininas criadas por homens eram cabides disfarçados com roupas. O exagero ainda assim ilustra uma verdade: as mulheres criadas por James são verossímeis. São criaturas tridimensionais.

4 - Ligada à anterior: compreensão do ser feminino nem sempre inclui feminismo (ver Ana Karênina de Tolstói). No caso de Henry James, inclui, isto se entendermos feminismo como aceitação & visão de mulheres inteiras (nem sempre vítimas, nem sempre devoradoras), colocando-nos, cavalheirescamente, ao lado delas - porque sabemos que elas vieram a um mundo onde as cartas já estão marcadas.

5 - Estímulo ao escritor comum: Quantos ângulos existem para se contar uma história? Quantos pontos de vista? Ler HJ pode ser um maravilhamento contínuo.

6 - Viver pela máxima: "Tudo pode ser tema de ficção. Tudo pode ser escrito, mesmo os elementos mais melodramáticos podem ser usados, desde que se saiba contar".

7 - Vidas humanas com desfechos humanos. Os realistas e os naturalistas protestaram contra o Romantismo enquanto literatura porque idealizava; eles, sim, dariam a seus leitores pessoas reais com vidas reais. Contudo, se alguns cumpriram a promessa, outros dentre eles, apesar do discurso, continuaram fechados à "vida real" num aspecto óbvio - os finais de seus romances. Henry James, em fins do século XIX e início do XX, foi dos primeiros a apresentar a vida humana como é tantas vezes. Cataclismos emocionais acontecem e as pessoas sobrevivem a eles; a vida não é um tudo ou nada, nem sempre se precisa encerrar um romance com o casamento ou a morte dos protagonistas. Romances e novelas de HJ demonstram isso: existe vida após a desilusão, a dor e o desamparo; a vida prossegue. Seus desfechos raramente são "fechados". James não foi o único e nem o único de gênio a fazer isso na ficção; mas foi um dos que fez melhor.

8 - A surpresa ao reler. Porque o texto jamesiano é rico de possibilidades, porque alguns personagens parecem entrar e sair do nosso ângulo de visão, reler nunca nos dá uma experiência repetida: acrescenta, enriquece, intriga, surpreende; podemos compreender a atitude dum personagem de certo modo, e na leitura seguinte de outro; raro é, numa releitura jamesiana, nos depararmos com o mesmo livro.

9 - O Inesperado: a pessoa por trás do escritor? Ler Henry James tem surpresas legítimas: o escritor ultra sofisticado que ele foi, que "certamente" esnobaria escritores de best-sellers retrata, na novela Greville Fane , a morte de uma autora de best-sellers onde toda a sua simpatia está do lado dela (os vilões são os parentes da romancista, que podiam desprezá-la, mas querem raspar cada centavo que a morta deixou). C. P. Snow disse que era impossível alguém ser mais gentil do que Henry James. Talvez fosse verdade.



 Escrito por Claire Scorzi às 07h35
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Apontamentos XI

FEE, Gordon D. & STUART, D. , p. 45 -62.

 

As Epístolas: As Questões Hermenêuticas.

 

A hermenêutica aqui no sentido estrito: o que as epístolas dizem a nós, no século XXI. Determinar o que é cultural nas cartas, e que portanto tem relevo somente para o século I, e o que é intemporal, e que tem relevância para todos os cristãos em todos os tempos, é a questão central.

"(...) nossa falta de consistência (...) é a grande falha em nossa hermenêutica comum. Sem pretendermos (...) trazemos nossa herança teológica, nossas tradições eclesiásticas, nossas normas culturais, ou nossas preocupações existenciais às epístolas enquanto as lemos. E isto resulta em muitos tipos de seletividade, ou nos faz contornar certos textos" (p. 46).

Regra Básica : "Um texto não pode significar aquilo que nunca poderá ter significado para seu autor ou seus leitores" (p. 48). É base da exegese, e auxílio importante para descartar significados impossíveis. Se um significado era impossível para os leitores do século I a quem as epístolas foram dirigidas, não será possível para nós - ou seus leitores originais não a compreenderiam!

Segunda Regra : "Sempre quando compartilhamos de circunstâncias comparáveis (isto é, situações de vida específicas semelhantes) com o âmbito do século I, a Palavra de Deus para nós é a mesma que Sua Palavra para eles" (p. 49).



 Escrito por Claire Scorzi às 12h49
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Literatura Policial: Arthur Conan Doyle

Verdade costumeiramente repetida: o caso Conan Doyle/ Sherlock Holmes é perfeito exemplo do criador engolido pela criatura. Todos sabem o nome de Agatha Christie, ainda que conheçam Poirot e Miss Marple, seus dois detetives mais famosos. No caso de Doyle, é mais fácil conhecer-se o mito Sherlock Holmes (que já foi considerado uma pessoa real) do que o escritor escocês, médico, que começou a escrever histórias de ficção devido a um consultório vazio.

Arthur Conan Doyle (1859-1930) é o criador do maior detetive de todos os tempos. Poirot é ótimo, uma figura com toques de humor; Miss Marple tem algo das cidades de interior, como Agatha Christie a imaginou; o Maigret de Simenon é uma pessoa simpática; mas Sherlock Holmes, o personagem literário inventado num romance publicado em 1887 (Um Estudo em Vermelho) é o mestre de todos eles, e suspeito que tanto Agatha Christie, com suas homenagens oblíquas (através de referências discretas) ao detetive de Baker Street, quanto Bruno Fischer, cujo detetive, o carismático Ben Helm, tem tanto do herói de Doyle, concordariam comigo.

A saga inteira de Sherlock Holmes compõe-se de 56 contos e 4 romances, 60 aventuras ao todo. Algumas das tramas policiais mais bem engendradas estão aqui, e algumas das histórias mais simples, onde o trunfo é a força da personalidade de Holmes, o dueto Holmes-Watson (o melhor da amizade é o contraste) e o modo como o detetive soluciona o caso. Conan Doyle é narrador de primeira linha, honrando a tradição da literatura inglesa (em minha opinião, a melhor do mundo) e, sendo o iniciador da "escola" que é a literatura policial (Edgar Allan Poe foi um precursor, mas não teve o peso de Doyle), pode nos provar como essa "escola" sofreu mudanças, e por vezes deturpações com o tempo: na origem, em Doyle, com o "mundo" criado por ele - Sherlock Holmes, o Dr. Watson, Baker Street 221 B, o Professor Moriarty - as personagens tinham tanta importância quanto o enigma, a "charada" policial: o "quem-como-porquê" do crime. Através de décadas, espalhando-se por países como os EUA, França, Itália, Argentina, Holanda, Noruega, Brasil, o gênero policial com freqüência caiu na armadilha do puro jogo intelectual, da "charada" a ser decifrada, onde os personagens, do detetive ao criminoso, são simples marionetes do escritor, sem qualquer delineamento psicológico - ver as "charadas" de S.S. Van Dine e de John Dickson Carr, por exemplo: seus personagens não se diferenciam uns dos outros - ou na outra armadilha, a do "nacionalismo": em busca da "cor" local, do empenho nacionalista em criar uma literatura policial fora dos moldes anglo-americanos, o que se lê/ vê é uma ficção medíocre como literatura e como enredo policial; o caso brasileiro é típico. [*]

Literatura são personagens, um enredo e um estilo. Literatura policial não é exceção. Com Sherlock Holmes, o leitor tinha os 3 elementos, a figura do detetive dominando em primeiro plano, fazendo daquele um aliado. O estilo de Doyle era sempre um prazer, e se as tramas não mantinham um nível intrincado em todos os casos - uma característica que Agatha Christie, sim, manteve inalterável - personagens e estilo conservavam a atração do texto literário.

Dentre as melhores aventuras de Sherlock Holmes, vale destacar, dentro do tipo mistério ou crime intrincado, A Faixa Malhada ; Estrela de Prata; O Tratado Naval; O Construtor de Norwood; A Escola do Priorado ; O Pince-Nez de Ouro ; A Segunda Mancha ; Os Planos do Submarino ; A Ponte de Thor [**]; A Juba do Leão.

Noutras, se o crime não é tão misterioso, atrai-nos pela narrativa com toques ora sombrios ( As Cinco Sementes de Laranja; O Sinal dos Quatro) ora pitorescos ( O homem do lábio torcido; Charles Augustus Milverton; Os Dançarinos) além, claro, de O Cão dos Baskervilles, que paira acima de qualquer idéia pejorativa quando alguns dizem "literatura policial". O Cão dos Baskervilles é literatura policial.

 

[*] Falo de maneira geral. Há exceções.

[**] O exemplar mais bem acabado do subgênero a que A. Christie se dedicou, aquele que responde à pergunta: "Como o crime foi cometido?"



 Escrito por Claire Scorzi às 21h38
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Luzes

Há tantas coisas sobre as quais quero escrever. Desejo escrever sobre maternidade virtual, mas minha visão a respeito ainda é muito incompleta ( será sempre incompleta, mas ainda é muito), muito imperfeita (e assim continuará; porém é muito), certamente rósea, e confusa; quando houver alguma carne e sangue a pôr no papel, e não apenas palavras bonitas, escreverei.

Quero escrever sobre Milton & Dante, já há algum tempo; faltam elementos, releituras, e maior reflexão. Também quero escrever sobre Dante como um possível pré-reformador (especulação que veio à tona enquanto estava lendo Monarquia). Desejo escrever sobre literatura puritana - Milton, Bunyan, Richard Baxter, John Owen, somente os que li; a respeito de literatura medieval, amor místico, e ainda mais. Há tanto sobre o que escrever! Tanto me interessa. O que é preciso - tempo, e disposição, e sossego (pode-se ter tempo vago e nenhum sossego).

Tenho contos a revisar, além de idéias em botão para transformar em contos ou novelas. Ah, tempo. Disposição. Sossego. E somente pensar nesses projetos, pensar neles, acende luzes em mim.



 Escrito por Claire Scorzi às 19h27
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Literatura Policial : Bruno Fischer (2)

É no seu ambiente e com o seu tipo próprio de figuras humanas que Bruno Fischer mostra o seu melhor - o professor frustrado e reprimido que, cruzando com uma jovem criminosa, mergulha numa aventura de roubo, mentiras e fuga, passando-se por outro homem e assim fugindo de si mesmo - A Grande Decisão. O poeta  que acaba obcecado com o assassinato ocorrido no edifício em que mora - Escada para a Morte. O milionário (figura incomum na galeria do autor) que tenta provar a si próprio seu valor como homem, ao assumir a identidade de um criminoso enquanto foge da polícia ao lado da heroína, numa trama das melhores (talvez a melhor) que envolve macarthismo, perseguição política, comunistas e ex-comunistas que agora viraram perseguidores, em Amei uma Assassina, um título incorreto; o original, Run For Your Life, é mais exato. A fuga do casal é pretexto para a subtrama romântica, no único caso que conheço de Fischer em que o romance chega perto de tornar-se mais importante do que a trama policial. O casal de protagonistas é um encanto e os diálogos que travam são afiados: ficariam perfeitos num antigo filme preto & branco.

Se Bruno Fischer fracassou ao criar um anti-herói à Wade Miller, quereria isso dizer que era incapaz de fazê-lo? A resposta é não, não com o seu espécime particular de anti-herói. Outro dos seus melhores livros - Uma Mulher Entre Dois - focaliza um candidato a professor, aluno brilhante, cujo pai morto por manobras políticas corruptas, a perda da noiva (que preferiu o filho de um dos vilões, um homem rico) e demais desilusões - "o mundo é dos que têm dinheiro poder, não dos que têm méritos" - leva-o a tornar-se o "relações públicas" de um gangster. Numa escalada rumo à degradação, o protagonista recua diante da tortura da viúva de um adversário de seu "chefe" - e busca, à princípio confusamente, reencontrar o homem que foi. Curt Stone, o personagem central, é o mais próximo de anti-herói que Bruno Fischer criou com sucesso; um homem corrompido pelo dinheiro, pelo poder, e cheio de tiradas cínicas. Um excelente personagem. Uma Mulher Entre Dois tem o pano de fundo da política, da corrupção e, como em quase todas as novelas do escritor, do poder terrível do dinheiro. Sua heroína, a jovem viúva Elizabeth Oliver, tem certa força; é uma boa personagem feminina.

O único detetive de Fischer que conheço é Ben Helm, protagonista de Lábios em Fogo e O Silêncio é de Ouro, além de personagem secundário em Assassinato, Rapto & Cia. e A Morte Nua. É um detetive com educação superior, que dá conferências e não costuma usar armas; mais ao estilo de Sherlock Holmes (porém não com a sua frieza, já que adora a esposa, Greta, a quem pede em casamento no desfecho de Lábios em Fogo) do que nos de seus companheiros escritores da época - os detetives de Chandler, Hammett, Deming e outros, que, além de portarem revólveres, bebiam muito e/ou eram promíscuos. Ben Helm de Fischer distingue-se deles, e os dois romances em que é o herói estão entre os melhores do autor - O Silêncio é de Ouro, por exemplo, trata dos originais de um romance que desapareceu - e ele é, francamente, mais cativante do que os heróis das outras novelas em que aparece como figura secundária.

É uma pena que Bruno Fischer já não seja publicado no Brasil. Leio e releio suas obras em português nas antigas edições de bolso da Tecnoprint. Folhas estão soltas e amareladas; mas constituem excelentes companhias quando se está de férias ou adoentada, como estive estes dias. Alguma editora deveria reeditá-los, incluindo aqueles de sua autoria que nunca consegui encontrar em sebos: Minha querida Inimiga, Atriz de Terceira e A Teia da Aranha Prateada.



 Escrito por Claire Scorzi às 07h13
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Literatura Policial : Bruno Fischer (1)

Este texto deveria chamar-se "Perdidos na Estante". Bruno Fischer (1908-1992) autor americano de romances policiais, é apenas um entre as dezenas de bons escritores do gênero que parecem ter desaparecido na obscuridade.

A maioria de suas novelas deve ter sido escrita entre fins da década de 40, após a 2ª Guerra, e o começo dos anos 50. As histórias estão pontilhadas de referências àquele tempo: o american way of life após o "New Deal", a bomba de Hidrogênio, o macarthismo (a "caça às bruxas")... O ambiente é sempre o leste do país: Nova York ou alguma cidade imaginada pelo autor num dos Estados da região - Nova York, Connecticut, Vermont.

São raros os protagonistas detetives em seus livros (com uma notável exceção). Na maior parte deles, trata-se do homem comum, geralmente um membro da classe média, que vê-se envolvido com um crime. Comparado a outros novelistas policiais americanos de sua geração - David Goodis, Wade Miller, Richard Deming, Ed Lacy, ed McBain - percebe-se certa sofisticação em Fischer: seus heróis e heroínas costumam ser educados e há, mesmo, em alguns dos romances, certa valorização da educação e da cultura; das 19 novelas suas que li e reli, duas tem um professor como herói, uma terceira, um poeta; em outras duas, o protagonista é um repórter, e ainda em outra, um químico. Na maioria, porém, uma tese parece impor-se: educação e dinheiro não andam juntos.

Dinheiro. A necessidade dele, a ambição por ele. Os livros de Bruno Fischer estão repletos da busca pelo dinheiro, dos crimes cometidos por dinheiro, do poder corruptor do dinheiro. Seus heróis debatem-se pela falta de dinheiro ou com a cobiça dos outros personagens, que como numa teia, envolvem em sua ambição os heróis e heroínas; novelista aos 31 anos, publica Escada para a Morte (1939), onde um crime brutal num edifício ocupado por artistas é praticado por desejo de dinheiro; numa novela posterior, A Morte Nua (1957) o motivo continua sendo o dinheiro - porém há uma amargura que parecia ausente do livro de '39.

Quando se lê e relê um número grande de livros de um autor, como eu li e reli Bruno Fischer, tirando-os da estante de minha mãe desde os meus 13 a 14 anos, acabamos por perceber algumas repetições, alguns fios condutores, algumas obsessões. O dinheiro é um deles - a falta dele, a cobiça por ele, e de tal modo, que ao contrário de muitos de seus colegas escritores masculinos, para Fischer o crime das mulheres - as vilãs, evidentemente - em seus romances não é sexo, e sim o amor ao dinheiro; sexo como crime feminino é no máximo conseqüência: as vilãs ou quase vilãs usam o sexo para obter ou tentar obter o dinheiro: gostam mais de dinheiro do que de sexo. Basta ler A Bela Assassina (pensando bem, esta gosta tanto de dinheiro quanto gosta de sexo), A Morte Nua, Assassinato, Rapto & Cia., O Silêncio é de Ouro para percebê-lo. Como toda regra tem exceção, um dos mais fracos romances do autor apresenta uma vilã cujo crime é sexo: Código de Honra. É verdade que ela também o usa, mas não por dinheiro, e sim pelo desejo de poder - o poder de manobrar homens. É um mau romance porque Bruno Fischer tentou escrevê-lo fora do seu ambiente e com personagens que não são os seus, e sim os de Wade Miller, um novelista policial habilidoso cujas histórias tem como pano de fundo o ambiente sórdido da Costa Oeste, com  jogadores e gangsters, prostitutas, vigaristas, gigolôs, mercenários, viciados, assassinos profissionais. Com raros heróis, Wade Miller é um artífice de anti-heróis. Porém os dele funcionam. Fischer, tentando escrever no gênero do outro, cria um anti-herói desagradável, violento, e uma "heroína" chorona, ambos sem carisma. Um erro.



 Escrito por Claire Scorzi às 11h12
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