Claire
 


Oportunidades Perdidas

     Fico me lembrando delas. Todas as ocasiões em que eu respondi "não" a uma chance, a um desafio, ao que era novo (e assustador, portanto, para mim). Todas as vezes em que eu poderia ter agido, e não agi - no máximo, reagi. Todas as vezes em que não falei aquilo que deveria ter dito, que poderia ter dito, mas não disse.

     O que eu não fiz. O que eu não falei.

     Os fantasmas das oportunidades perdidas. Eles me perseguem, me assombram.

     Minha melhor amiga, a Rô, me disse uma vez que é melhor nos arrependermos daquilo que fizemos do que daquilo que não fizemos; que nossa dor pelo que não foi abraçado, não foi enfrentado, é bem maior do que a dor por aquelas ações nas quais mergulhamos.

     Quando ela me disse isso - tem anos - eu já desconfiava dessa verdade. Ouvi-la da boca de alguém que admiro e respeito só trouxe a confirmação.

     Tantos arrependimentos pelo não feito. O que temi, o que não realizei; estática pelo receio de arriscar.

     Ainda assim, até uma covarde como eu tem seus momentos de ousadia. Penso que tenho pelo menos dois, que me trazem algum orgulho: a oficina de leitura que montei com as crianças da outra escola em que trabalhei é um deles. Uma outra melhor amiga (tenho duas; posso me considerar abençoada) me fez essa proposta e, não sei como (eu devia estar fora de órbita naquele dia) aceitei. Apavorada. Mas aceitei. E tornou-se a coisa mais maravilhosa, mais gratificante, mais "fertilizante" para mim: eu vivia tendo idéias para cada oficina, cada tema, cada grupo de crianças... e, o que é absolutamente mágico, elas adoravam. Elas me cobravam ("Hoje vai ter?"). Elas participavam e curtiam como eu.

      A outra ousadia é ter criado um blog http://blogdaloba.zip.net/ , e depois até um segundo, este aqui. Quando olho para ele, mesmo sendo irregular (não sou cega: há posts fracos, que não apago por causa dos comentários), sinto-me orgulhosa de mim mesma. Para os corajosos, pode soar ridículo. Para os apavorados como eu, deve ser compreensível.

      Sei que a raiz do meu medo é o temor de decepcionar os outros. Sempre me assusto quando as pessoas parecem esperar muito de mim. Porém me lembro de algo que li (tinha de ser!) certa vez: O importante não é sentir medo, é o feito apesar do medo.



 Escrito por Claire Scorzi às 15h58
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De Camões a Drummond

     Amor: é o que não aconteceu. Amor é boca debruçada sobre a outra boca, é saliva e dentes, o perfume do sabor experimentado (você se lembra?). É isto amor: o olho que persegue o vulto se afastando, dor e saudade. Palmilhar no outro corpo o desconhecido e só então, espantada, saber: é bom. Amor é o riso que brota depois com a lembrança. O choro que brota depois com a lembrança. Amor nasce sem ser conhecido.

     Amor perpetua explicações. Permanece fechado. Amor é castelo em monte escarpado. Amor é sombra na terra - dois riscos cortados, sangue, morte, e silêncio. Amor começa lá atrás, antes do Tempo, e se doa; e só é recebido se você abrir a mão.



 Escrito por Claire Scorzi às 14h34
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Apontamentos II

   A Criação do Universo : Teologia Sistemática.

    A estrutura de Gênesis 1 é poesia. Boa parte das controvérsias, disparates e discussões sobre o significado de Gn 1 dá-se devido ao fato de este ser interpretado literalmente, como uma narrativa histórica clara, objetiva, quando trata-se de uma descrição poética - portanto metafórica - da Criação divina.

    A estrutura de Gênesis 1 é :

"E disse Deus... / Haja... / e houve... / E fez Deus... / E assim foi.../ E viu Deus que era bom... / E foi a tarde e a manhã o dia...

    Essa estrutura é repetida, com pequenas alterações, seis vezes. Ora, ninguém escreve narrativa dessa maneira. Isso é forma poética. (...)" (Cousins, Peter. Ciência e Fé : Novas Perpectivas. p. 27-40).

    "Os antigos hebreus sabiam que esse texto era uma poesia, como também muitos comentaristas cristãos da Igreja Primitiva, como Orígenes e Agostinho. Se tentarmos interpretá-lo literalmente, cometeremos uma injustiça. (...) É uma introdução religiosa que nos apresenta ao Deus de Israel e ensina cuidadosamente que Ele não deve ser confundido com o mundo que Ele criou. Quanto às questões sobre como Ele criou, ou quando, ou em que ordem, Gênesis não declara absolutamente nada" ( idem, p. 29; 30).

     Gn 1 - 3, em linhas gerais, de forma poética, nos conta o essencial que devemos saber; isto é:

     1 - O mundo teve um início pessoal.

     2 - Há um único criador.

     3 - O homem não está só no universo.

     4 - O pecado trouxe alienação:

         - psicológica (entre o homem e sua própria natureza)

         - social (entre o homem e a mulher; entre um homem e outro)

         - espiritual (separação do mundo espiritual, atuação demoníaca entre as pessoas; presença da morte; inquietação espiritual e, daí, o estabelecimento de N religiões )

         - ecológica

     5 - O mundo é real.

     6 - O mundo é uma boa criação.



 Escrito por Claire Scorzi às 17h43
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Uma Página Transcrita 6

Terminei de ler cedo Madrugada de Edla Van Steen. Comecei a ler Da Amizade: Uma história do exercício da amizade nos séculos XVIII e XIX de Anne Vincent-Buffault. Tema tipicamente francês, penso. Um estadunidense ou um brasileiro nunca escreveriam sobre esse gênero de assunto. Mas os franceses - os franceses fazem filmes sobre gente cuja profissão é ler livros em voz alta para outras pessoas (Uma Leitora Muito Particular, com Miou-Miou); colocam personagens abrindo livros em cena e lendo trechos em voz alta (como nos filmes de Jean-Luc Godard) - enfim, eles ousam o impensável, o delicioso (que é pouco prático, "prático" aqui no sentido "como-posso-ganhar-dinheiro-com-isso"). Engraçado, porque eu me considerava mais "inglesa", nos meus gostos - porque sempre amei e amo a literatura inglesa. Contudo parece-me nos últimos tempos que meu modo de olhar as coisas, minhas tendências e preferências de assunto, são mais francesas do que inglesas; não sei...

Os franceses escrevem livros como o Dicionário Filosófico de Voltaire - não posso imaginar um americano escrevendo algo desse tipo; debruçam-se sobre a Idade Média com paixão, estudando-a, retificando sua imagem errônea de "idade das trevas" - ah, a qualidade dos medievalistas franceses: Duby, Mollat, LeGoff, Demurger, Régine Pernoud, André Vauchez... Escrevem "análises" minuciosas do coração, radiografam-no de forma apaixonada, atenta, seja em ensaios (Stendhal, Montaigne) seja em ficção (Proust, Stendhal de novo). Sempre afirmei que Henry James era estadunidense por acidente, por assim dizer; que seu estilo, sua elegância, eram muito visíveis, marcantes, e portanto mais ingleses do que americanos (estes, entre as suas muitas qualidades, não contam a elegância). Esquecia-me, ou não pesei como deveria, o amor de Henry James aos escritores franceses como Balzac. O maravilhoso Henry (assim o chamou aquele vendedor do sebo onde comprei A Roda do Tempo de James) talvez fosse mais francês do que qualquer outra coisa - minucioso, olhos analíticos (porém gentis) sobre as famosas intermitências do coração...

Falando em HJ : um livro para comprar URGENTE na segunda ida à Bienal: o romance O Mestre de Colm Tóibín , pela Companhia das Letras - Tóibín romanceia 5 anos da vida de ninguém menos do que - HJ.

                (19/05/2005 - excerto do diário pessoal)



 Escrito por Claire Scorzi às 12h58
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Para Fazer Brilhar o Dia...

Como se não bastasse as gentilezas do José ( Por Hoje É Só...) do Zadig e de pessoinhas mui especiais como a Prit (Diário de Bordo) e a Thams (Sereníssima - http://serenissimarj.blogspot.com/) ainda isto: o Flammarion ( Contra a Ilusão) fez um banner para mim.

Gente, e eu nem estou fazendo aniversário...

Vão lá, no Contra a Ilusão ,e vejam que lindo que é...

E - sim, para quem estiver se perguntando - eu sou uma boba. Fico desvanecida com essas coisas.



 Escrito por Claire Scorzi às 17h16
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Jonas e o Fariseu

Para você se situar: leia o livro de Jonas, no Antigo Testamento, e a parábola do Fariseu e o Publicano, no evangelho de Lucas, cap. 18:9-14, no Novo Testamento.

Jonas foi um profeta que, encarregado por Deus de ir pregar na ímpia cidade de Nínive,  fugiu a isso, acabou na barriga de um grande peixe, foi salvo por Deus, foi para Nínive, pregou a futura destruição da cidade, e esta se arrependeu da sua pecaminosidade - o que muito desagradou Jonas, que se recusava a ir a Nínive justo por isso. No grande momento do cap. 4 ele diz a Deus que sabia que isso aconteceria e por essa razão se negava a pregar - pois a cidade se converteria e Deus os perdoaria. Pois sabia que és Deus compassivo e misericordioso, longânimo e grande em benignidade, e que te arrependes do mal... e chega ao cúmulo de pedir que Deus lhe tire a vida. Jonas prefere morrer a ver aquele povo pecador perdoado e salvo por Deus.

Absurdo? Chocante?

Na parábola narrada por Jesus em Lucas, cap. 18, dois homens vão orar no templo: um fariseu, seita rigorosíssima do Judaísmo, e um publicano, coletor de impostos, classe quase sempre corrupta e em geral desprezada pela gente honesta daquela sociedade. Enquanto oram, o fariseu gaba-se de suas virtudes diante de Deus, e aproveita para criticar seu companheiro ( pois não sou como esse publicano...) e o publicano, envergonhado nesse momento em que fala com Deus, nem ergue a cabeça: só suplica por misericórdia para si. Jesus conclui a história dizendo: Digo-lhes que o publicano desceu justificado para a sua casa, e o fariseu, não.

O que há em comum nessas duas histórias - nesses dois personagens, Jonas e o Fariseu?

Jonas era um servo de Deus. Foi rebelde com Ele porque, na sua visão, os ninivitas não mereciam ser salvos - e ele sabia que, arrependendo-se eles, o Deus a quem servia os perdoaria.

O fariseu congratula-se consigo mesmo por ser tão virtuoso. Começa a orar agradecendo a Deus, porém depressa passa ao auto-elogio e à crítica do seu próximo, o publicano. Nas suas palavras de agradecimento a Deus, deixa entrever que sua concepção de Deus é reducionista: ele O vê semelhante a si próprio, valorizando as mesmas coisas e desprezando as mesmas coisas (e pessoas).

Jonas conhece o coração de Deus, por isso sua revolta. O fariseu faz Deus à sua imagem e semelhança.

Qual deles é o pior?

Temos "Jonas" na igreja - cristãos que não querem partilhar o Senhor com os outros, que julgam-se os únicos dignos de Deus (como se o grande escândalo do evangelho não fosse justo o contrário: boas novas para os totalmente indignos). Conhecem o coração divino, e temem esse grande coração que é perdoador...

Temos fariseus também - cristãos que se congratulam por sua freqüência aos cultos, por sua fidelidade nos dízimos e ofertas, por sua vida impoluta. Que desprezam o pecador, e que acreditam estar Deus tão contente com eles, fariseus, quanto eles mesmos estão, que acreditam que Deus joga pelas mesmas regras que eles, desprezando outros seres humanos que bem longe se acham da perfeição.

Jonas conhece Deus, e teme Sua benignidade. O fariseu não conhece Deus, embora esteja convicto do oposto.

Qual deles é o pior?



 Escrito por Claire Scorzi às 14h09
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Post-Carinho : Para Elis

Ama-me por amor do amor somente.

Não digas: "Amo-a pelo seu olhar,

O seu sorriso, o modo de falar

Honesto e brando. Amo-a porque se sente

   Minh'alma em comunhão constantemente

   Com a sua". Porque pode mudar

   Isso tudo, em si mesmo, ao perpassar

   Do tempo, ou para ti unicamente.

Nem me ames pelo pranto que a bondade

De tuas mãos enxuga, pois se em mim

Secar, por teu conforto, esta vontade

   De chorar, teu amor pode ter fim!

   Ama-me por amor do amor, e assim

   Me hás de querer por toda a eternidade.

                              (Elizabeth Barrett Browning - Trad. de Manuel Bandeira)

 

           (este post é para a minha princezinha de Manaus, que faz aniversário hoje. Sei que ela está muito feliz; este poema está 'escolhido' para ela há mais de mês, aliás, ele me veio à lembrança pura e simplesmente ao me lembrar dessa amiga...Querida Elis, desejo-lhe só o melhor do melhor: a alguém que, entre outras coisas, já me deu dicas quando eu era caloura no MSN; a alguém que, se cosmopolita, nada tem de esnobe; a alguém cujo coraçãozinho já é um bombom - com licor de cereja, claro! - ...Tudo de bom, amiga.)



 Escrito por Claire Scorzi às 14h05
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Arrepios na Espinha (ou De Arrepiar os Cabelos)

Você gosta de histórias de terror? Eu gosto. Atenção: eu disse "terror" - não horror. Não gosto daquele gênero do fantástico que, ao invés de dar um medinho, um arrepio na base da espinha (ou de fazer os cabelos na nuca se eriçarem) provoca sensações de nojo, de enjôo ou repugnância. Nesse ponto, o francês Gaston Leroux (1868-1927) criador de O Fantasma da Ópera e Uma História Horripilante - cujo tema é o canibalismo - me causa revoltas no estômago. "Horror", para mim, associa-se a asco e sofrimento, duas experiências que dispenso na leitura do genuíno terror. Já aquele arrepiozinho nas costas...

Que obras de ficção me causaram medo? Medo, mesmo - aquele tipo de narrativa que é mais seguro ler de dia,ou,  caso se faça à noite, apenas rodeada de gente? Há muitas histórias de terror boas, excelentemente escritas - capazes de me trazer os agradáveis arrepios, porém, são poucas. Falta de encontrar as histórias certas. Ou o fato de já haver lido demais. Mencionarei as que li ou reli em tempos recentes, e que continuam me assustando.

Pombos do inferno, de Robert E. Howard - um conto passado no sul dos EUA, mais precisamente numa daquelas antigas casas de proprietários escravistas e cruéis...

O Horla, de Guy de Maupassant - conto clássico. Possessão? Loucura? Que julgue o leitor.

Um Velho Diabo, de Bram Stoker - este conto tétrico do criador de Drácula mostra bem do que Stoker era capaz - e,

Drácula, romance, onde o capítulo enfocando a viagem marítima com a "carga misteriosa" a bordo é terrificante, de ler roendo as unhas e a testa coberta de suor; vale o livro inteiro!

Chá Verde, de Sheridan Le Fanu - o único conto que li até agora de Le Fanu, conhecido por suas narrativas fantásticas. Este é apavorante. E olha que eu já havia lido muita coisa antes dele.

Viy, de Nikolai Gogol - uma surpresa arrepiante (as páginas finais ) esta novelinha do clássico russo.

A Boneca, de Algernon Blackwood - conto do escritor inglês que só conheci recentemente, lendo uma antologia sua; um verdadeiro artista ao dar o "clima" de suas histórias. Esta aqui é o antepassado legítimo (e de primeira qualidade) de filmes como Brinquedo Assassino.

A Outra Volta do Parafuso, de Henry James - uma novela em que o medo maior é suscitado por puro estilo do escritor, ; não vemos nada, e o imaginado, como se sabe, é mais aterrorizante do que qualquer coisa descrita com detalhes. É outro clássico. Merecido.

Outras narrativas que não chegam aos arrepios, mas provocam, vá, um susto ou dois...

O Desejo, de Roald Dahl, conto encontrado numa antologia para crianças, mas que está deslocado aí, eu diria;

As Pupilas de Satanás, de Henry Kuttner (autor de Eu, O Morcego, que comentarei num post próximo), sobre bruxaria e possessão;

A Marca da Besta, de Kipling - seu conto sobre lobisomem.

Para a Meg (Meg SubRosa) não se zangar comigo, e também porque é uma vergonha uma bibliotecária não fazer isso, vão as referências:

BLACKWOOD, Algernon. A Casa Do Passado. RJ, Record, 2001.

GOGOL, N. O Capote e Outras Novelas. RJ, Civilização Brasileira, 1990.

HAINING, P. (Organizador). A Caverna dos Magos. RJ, Bertrand Brasil, 2003.

JAMES, Henry. A Outra Volta do Parafuso. RJ, Tecnoprint, s. d.

KIPLING, R. Histórias Sobrenaturais. RJ, Bertrand Brasil, 1997.

Os Mais Belos ContosTerroríficos. RJ, Casa Editora Vecchi, 1958.

Para Ler Devagar. RJ, Monterrey, s. d.

SEIXAS, Heloísa (Org.). Depois: sete histórias de horror e terror. RJ, Record, 1998.

STOKER, Bram. Drácula. RJ, Tecnoprint, s. d.



 Escrito por Claire Scorzi às 04h34
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Projetos...

Idéias não faltam. Um projeto (sonhado) sobre um blog de literatura inglesa, escrito por mim e por uma amiga minha (que ama literatura inglesa como eu). Outro sonho: escrever com essa mesma amiga uma página dedicada a Jane Austen e a Henry James; ela escreveria as matérias sobre Jane e eu, as sobre Henry; ia chamá-lo de Henry e Jane. Um terceiro sonho seria montar um blog escrito somente por mulheres. Penso nos nomes - Dira, Luma, Yvonne, Lara, Prit, Thams, Elis...

Um projeto com experimentos literários meus e de uma amiga, minha irmã gêmea (mas não idêntica); ela fina poesia, eu me aventurando prosa.

Idéias. Projetos. Mas, e o tempo? E a oportunidade?

Ô mundo injusto...



 Escrito por Claire Scorzi às 19h27
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Corrente de Livros Versão Claire - II

1 - Você já desejou que algum personagem de ficção fosse uma pessoa real?

R. - Sherlock Holmes e o Dr. Watson.

2 - Poesia ou Prosa?

R. - Prosa.

3 - Você lê não-ficção? Quais os seus assuntos favoritos para ler?

R. - Gosto de ler: filosofia; teologia; história; teoria e crítica literária, além de livros de história da literatura; livros de história da música, das artes plásticas ou do cinema. Leio ciências sociais também.

4 - Um livro que você tentou ler e não conseguiu...

R. - Ser e Tempo de Martin Heidegger. Não passei das primeiras páginas, não entendia nada! Desisti. Sentia-me burra.

5 - Um livro considerado "difícil" que você leu bem?

R. - O Som e a Fúria de William Faulkner. Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa. A Divina Comédia de Dante Alighieri, que já li quatro vezes, e a-m-o!

6 - Um livro desigual (com partes ótimas e partes fracas)?

R. - Os Anos de Virginia Woolf.

7 - Antigos amores...?

R. - Richard Bach - era um amigo na minha adolescência, agora atrofiou a mente e não aguento lê-lo. Sartre - reli A Náusea e não me diz mais nada, perda de tempo. Dele, só releio ainda, com prazer, Diário de uma Guerra Estranha.

8 - Amores recentes...?

R. - de 2002 para cá: Thomas Merton. Phyllis A. Whitney. Dean R. Koontz. Em fase de flerte: Lúcia Castello Branco, Stella Florence e James M. Houston.

9 - Amores eternos...?

R. - Para toda a vida: Dostoiévski. Henry James. Shakespeare. Virginia Woolf. Jane Austen. M. Bandeira. Bilac. F. Pessoa. Stendhal. Dickens - eu os conheço há anos & anos, e continuo apaixonada. Tem outros...

10- Escritores homens criadores de mulheres de carne e osso...?

R. - Só conheço 3 : Stendhal, Balzac e Henry James.

11- Escritoras criadoras de homens de carne e osso...?

R. - Hum... só um homem pode responder a essa pergunta...

12- Um personagem que você...

a) ...beijaria: Miguel Rivera (Luar da Meia-Noite) de Lynn Erickson (hummm!)

b) ...estapearia: Uriah heep (David Copperfield) de Charles Dickens (sujeitinho asqueroso!)

c) ...quereria ter como amigo ou amiga: a Elizabeth Bennett (Orgulho e Preconceito) de Jane Austen; Miranda Grey (O Colecionador) de John Fowles; Sam Weller e o Sr. Pickwick, de  As Aventuras de Mr. Pickwick, de Dickens.

                *********************************

Enquete informal

Algum de vocês sabe se esse tal de ponto G existe? E, caso afirmativo - onde fica?



 Escrito por Claire Scorzi às 19h37
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Quando Não me Pareço Comigo

     "Você fica ótima de jeans".

     Meio sorriso, estilo obrigada-não-se-aproxime-mais e alguma coisa dita. Não lembro.

     Outro dia. Outra escola. Outra biblioteca então. Um calor medonho e uma decisão radical. Ganhei a blusa com decote enorme e por desespero de causa lá vou eu, usando essa coisa; minha irmã, minha mãe que me vêem vestida para ir trabalhar: "Nossa, você está linda..." Volto ao espelho . A pergunta: "Você não gostou?" e eu respondo que não é isso, é só que eu não sei se ainda se parece comigo. Quando não me pareço comigo? Hum - boa pergunta. Fisicamente, jeans já não me é estranho (tens uns 10, 12 anos que travamos conhecimento, embora não sejamos exatamente íntimos). Não, jeans não é o problema. O que então?

     Maquiagem - se uso, me sinto uma palhaça. Não adianta, simplesmente não sou eu - e fica o batom, um hidratante com filtro solar, e só. As roupas, quando sou eu, um vestido de mangas japonesas com cintura desenhada por laços (traje básico de trabalho-de-todos-os-dias), saias uma ou outra vez, às vezes uma calça comprida; e se quero sair sem compromisso, me divertir ou ir à igreja, calças compridas pretas, ou vinho, com blusas nas mesmas cores (minha favoritas para vestir). De vez em quando, tons pastéis. Freqüentemente: preto dos pés a cabeça.

     Essa sou eu. Quando me pareço comigo mesma.

     Quando não sou eu: decotes generosos por calor. Calças compridas listradas (que ganhei). Estampados, eu que amo cores lisas. Peças em verde, em rosa, ou lilás, ou violeta: vejo-me no espelho e me estranho. Dizem-me que estou bonita (o que não sou: eu diria "incomum" - a mescla de ascendência indígena, portuguesa, síria, e talvez espanhola e judia deu-me traços curiosos, acho eu; diferentes. Mas nada delicado ou suave). Olho-me, examinando-me à procura de mim: onde? Passo o dia com o amado-odiado decote (o calor, porém estou sem graça). Uso livros como escudo, a sensação horrível de que todos estão olhando - o que minha mãe costumava dizer, os tímidos são em extremo pretensiosos, pensam ser o centro das atenções. Atravesso o dia, chego em casa, descontraio-me. Horas e horas tensa. Uma - mais uma - razão porque abomino o calor.

     Quando não me pareço comigo: comportamento: risada alta, reclamar da vida, mentir. Não, esta não sou eu. E nem a mulher boazinha que alguns parecem pensar que sou, incluindo colegas de trabalho. Também não sou tããão sensata quanto me dizem - o engraçado é que desde adolescente sou julgada assim. Mas eu bem que tento...



 Escrito por Claire Scorzi às 12h49
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Claire na Alcatéia 11 : Imprevisível

     Devia ser brinquedo, paz ou mentira. Devia ser intermezzo, poesia, ponto de fuga ou despedida. Devia. Ela não soube, não entendeu. Matado o desejo era dizer - adeus - ou nem essa. Devia ter sido um risco calculado, um sonho feito carne, um desabafo. Errado. Ela se enganou, e ele também. Deveria ser um jogo sem vencidos ou vencedores, mas ficou o contato, a memória, o calor das bocas, o som da porta batida.

     Nunca brinque com o que é mais forte do que você.



 Escrito por Claire Scorzi às 19h59
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Diário de Leitora 6

     A Selva do Amor, autores diversos

     Pode-se discutir a ênfase anglo-americana desta seleção- 7 estadunidenses, 5 britânicos (ou naturalizados como tais, como é o caso de Conrad) para 1 italiano, 2 franceses, 2 russos, 3 alemães (ou que escreveram em alemão, caso de Kafka), 1 espanhol e 1 português. Como se sabe, porém, nenhuma antologia é perfeita. E admito: os anglo-americanos são dos melhores.

     Não se trata de uma seleção de contos de amor - e nem sequer uma coletânea que enfoque primariamente relacionamentos, já que em algumas histórias um dos sexos é mais objeto, mais passivo do que ativo, até pouco analisado - em Febre Romana de Edith Wharton, o centro é a mistura de companheirismo e rivalidade entre as duas mulheres e não o fato de terem amado o mesmo homem; este acaba se tornando coisa, objeto de disputa. Quem for ler A Selva... esperando contos de amor sairá logrado.

     Mas é interessante, um prazer para o leitor ir descobrindo, a cada história da antologia, a variedade de enfoques para relacionamentos entre homens e mulheres, e para relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo mostradas como rivais. E o conceito de "rivais" se amplia e sutiliza quando se lê algo como O Diário de um Homem de Cinqüenta de Henry James, onde os dois homens, o mais velho e o jovem, não "disputam" a mesma mulher, mas sim "disputam" a verdade sobre duas mulheres - a do passado do mais velho, e a filha desta, amada pelo mais novo no presente. James, mestre como é, constrói uma série de jogos de espelhos: o mais velho/o mais jovem, que "são" o mesmo homem, passado e presente; a mulher jovem/ sua mãe, que "são" a mesma mulher, passado e presente; o casal do passado /o casal do presente - e as diferentes soluções desses dois casos de amor. James sugere, insinua, indaga-nos: quem está dizendo a verdade? Quem mentiu? Quem se enganou e assim fez a escolha errada? Como acontece com este escritor soberbo, não existe uma resposta só. Cada leitor pode tirar as suas conclusões.

      Um outro destaque é A Filha do Negociante de Cavalos de D. H. Lawrence. Desde O Amante de Lady Chatterley que sei da capacidade de Lawrence de observar sentimentos e emoções conflitantes de seus personagens durante relacionamentos - mas neste A Filha... ele me surpreende por ser capaz de pôr a nu a psique masculina (estou achando que ele deve ter sido expulso de todos os clubes masculinos após esse conto...). Numa palavra: brilhante.

     Para mim, outros pontos altos da seleta estão em O legado de Virginia Woolf, conto narrado de forma até tradicional para uma inovadora como Virginia, que começa tranqüilo e vai num crescendo até o desfecho chocante: ela provou que podia usar formas convencionais e cativar seu leitor da mesmo modo; Boles de Gorki, singelo retrato da solidão dos seres marginalizados sobre os quais Gorki escreveu tanto; e Os Mortos de James Joyce, uma história de tristes equívocos, de desencontro na "sintonia" entre o casal - melancólica, melancólica: literatura em estado puro. John Huston fez uma transposição feliz desse conto para o cinema: Os Vivos e os Mortos (The Dead).



 Escrito por Claire Scorzi às 04h37
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Claire na Alcatéia 10 : Renascença

     contemplo o quadro. a moldura é dourada e lança faíscas na tela. reverbera sua beleza. porque belo é. e eu nem sei o porquê.

olho cativada a imagem, a mulher com vestes antigas e ricas, monalisa sem meio sorriso, vênus sem nudez. nudez sim, mas é outra. que não lança gritos nem captura olhares porém os desvia, acintosa, intimidadora como é. nudez da vida que estala, beleza franca, nau sem vela avançando contra as marés. nada de bússola. nau que cria seu rumo, destemida eva, embarcação avariada (são muitas as dores nas partidas), nau-mulher.

o retrato. retrato. o ângulo do rosto que não se ausenta (porque ausentar-se seria mentir) entocaiada por índios e soldados, espanhóis e ingleses, portugueses e franceses, em torno e dispostos a incendiar a nau. da mulher. que vibra de vida e dos saberes que eva legou a nós.

a face: sem maquiagem. o fulgor da beleza que desafia. a mulher no retrato que é nave. o fausto das roupas e o despudor da boca. do olhar. somam horas, cruzo os dias, eu volto. quero o mistério, abrir a concha, colher a pérola que é a mulher. medo ela não tem. medo ela tem. ela é várias, inventora de máscaras, mãe de um teatro onde eros e ícaro vivem em cena, amor insistindo em voar até que as asas derretam.

é a dor que escandaliza. é a verdade. falsear seria perdoado, desnudar-se não. e dói, e ela o diz, seu rosto de nau-mulher em trajes suntuosos. bela é. poema em faces nuas. vejo as lágrimas molhando a tela. o retrato chora. ela, eva-poeta, monalisa cujo sorriso é só ferida disfarçada.

 

                  (voltei ao conto-retrato. abraços perfumados para quem descobrir quem é. E um beijo na boca do meu mar) 



 Escrito por Claire Scorzi às 03h19
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