Claire
 


Post-Carinho : Para o b. m.

                               Se  Tenho  Medo

     Se tenho medo de meus dias terminar

     Antes de a pena me aliviar o espírito, antes

     De muito livro, em alta pilha, me encerrar

     Os grãos maduros como em silos transbordantes;

     Se vejo, nas feições da noite constelar,

     Enormes símbolos nublados de um romance

     E penso que não viverei para copiar

     As suas sombras com a mão maga de um relance;

     Quando sinto que nunca mais hei de te ver,

     Formosa criatura de um momento ideal!

     Nem hei de saborear o mítico poder

     Do amor irrefletido! - então no litoral

         Do vasto mundo eu fico só, a meditar,

         Até ir Fama e Amor no nada naufragar.

                             (John Keats. Trad. de Péricles Eugênio da Silva Ramos)

   (este post é para o aniversário de um garoto - inteligente, e talvez incerto quanto a isso; talentoso, e sabendo que tem muito a aprender; tão sério, ou tão enganosamente sério quanto eu mesma sou às vezes; alguém a quem admiro muito; a quem não darei abraços, pois como ele próprio escreveu "algumas pessoas podem ficar nervosas"... um feliz aniversário, b.m.; que você tenha intensa magia na ponta dos seus dedos; e que o soneto de Keats possa lhe falar dessa fome e sede de conhecer e de criar que eu vejo em você - esperando que lhe fale da maneira positiva. Não sei explicar o motivo, mas reler este poema outro dia me fez achá-lo com a sua cara; bom - você é quem há de saber se é, ou não. Desejo-lhe alegrias, dezenas, centenas delas. Feliz aniversário!)



 Escrito por Claire Scorzi às 05h35
[] [envie esta mensagem] []




As Herdeiras de Dickens

    Certa vez Paulo Francis escreveu que os herdeiros do romance tradicional - romances com uma estrutura de começo, meio e fim; com um enredo; com protagonistas e personagens secundários; com diálogos e descrições - eram os autores de "best-sellers" atuais. Ou seja: o romance tradicional, que originou diversas obras-primas, que deu ao mundo da literatura gigantes como Dickens (1812-1870), Dostoiévski (1821-1881), Jane Austen (1775-1817), Charlotte Brontë (1816-1855), Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Victor Hugo (1802- 1885), tantos, tantos - hoje só sobrevive através de escritores de obras que, conquanto sejam um sucesso de vendas, nada acrescentam; romances que serão esquecidos em pouco tempo.

    Não quero abordar aqui a razão disso, da falta de profundeza da literatura (?) de sucesso; isto pode ficar para um próximo post. Prefiro me deter nas exceções possíveis - escritores modernos e contemporâneos que obedecem ao cânone tradicional, sem experimentações radicais de estilo ou de temática, mas que ainda guardam qualidade literária.

    O exemplo que sempre me vêm à lembrança é O Nome da Rosa de Umberto Eco. Tenho minhas dúvidas se ele manteve a qualidade nas obras de ficção posteriores - considero O Pêndulo de Foucault um romance fraco, até pretensioso; em compensação, ouvi boas referências sobre Baudolino - porém aquele é um romance excepcional nos moldes da grande tradição do romance - começo-meio-fim; protagonistas e personagens secundários; uma trama, uma "história", enfim; descrições e diálogos.

    O outro exemplo para mim é a anglo-irlandesa Catherine Gaskin. Nascida em finais da década de 1920, por volta de 1960 já era uma romancista famosa, autora de obras históricas como O Calvário de Sara Dane e A Mansão dos Blake. Ao longo de uma carreira dedicada a escrever, ela alternou ficção histórica com outros de suspense - Herança Maldita, O Vaso Partido - e nos anos 70 aproximou-se peculiarmente de Dickens, acompanhando a vida de suas protagonistas da infância à vida adulta, como em Assuntos de Família e O Preço de uma Promessa (tradução melodramática de um título original mais sóbrio: Promisses). É impossível confundi-la com o autor de Oliver Twist - a visão de mundo de Catherine é diferente, assim como é diferente a sociedade e a época em que ela vive daquelas de Dickens - contudo, a atmosfera e a estrutura literária dos romances são as mesmas. Ela não é grande no nível de seu predecessor - e quem poderia sê-lo hoje? - mas destaca-se dos demais do gênero "best-seller".  Falta-lhe (felizmente) a psicologia rasa dos habitués do gênero, e, como mulher, uma talvez fuga deliberada dos sexismos que também pululam entre esses escritores (?).

    Um segundo exemplo feminino pode ser acrescentado: a inglesa Doris Lessing (1919). Respeitada entre os "entendidos" em literatura, Doris experimentou gêneros como ficção científica e suspense, além dos (ai,ai...) romances políticos. Mas é herdeira de Dickens como grande romancista tradicional, e que fez a façanha de obter o respeito da crítica. Talvez tenha sido essa característica de qualidade literária dentro dos moldes da tradição do romance que fez com que Paulo Francis tanto a admirasse...



 Escrito por Claire Scorzi às 06h34
[] [envie esta mensagem] []




Feminismo e Cristianismo

    Estou lendo Memórias da Transgressão: momentos da história da mulher do século XX de Gloria Steinem, e me entusiasmando (ainda que não concorde com tudo); e, como me acontece freqüentemente cada vez que leio uma feminista inteligente, brota a pergunta: Por que essa mulher não é cristã?

    Minha indagação está eivada de tristeza, porém. Porque eu sei parte da resposta.

    Mulheres como Gloria, Germaine Greer, Doris Lessing, Erica Jong e tantas outras não são cristãs porque foi decidido (Deus e o diabo sabem porquê) que feminismo e cristianismo são excludentes. Foi decidido que desejar salários iguais para trabalhos iguais, respeito à singularidade do ser feminino de modo que tal singularidade não signifique inferioridade, é não-cristão, ou até anticristão (!). Foi decidido também que crer num Deus criador e redentor é antifeminista, que crer em tal coisa é sinônimo de "aceitação do sistema patriarcal".

    Por quê? Por quê?

    Os cristãos ( e as cristãs) de fato não conhecem as feministas sérias, reflexivas (pensando bem, muitos não cristãos também não conhecem...) mas tão somente as que fazem barulho na mídia e são as mais focalizadas (nem sempre a mais "famosa" representa o melhor feminismo). Do outro lado, o mesmo: o que as feministas conhecem do cristianismo raramente veio através de uma leitura atenta da Bíblia, mas dos noticiários e de uma história que pouco traz de dignificante no que se refere ao tratamento das mulheres na igreja. Pregadores sexistas, fundamentalistas e farisaicos, além daqueles estilo auto-ajuda; são estes tipos de "cristianismo" que ocupam a mídia. São os que aparecem mais fartamente na Tv e no rádio, incluindo a internet. Isto quando não ganham manchetes por adultério ou por roubo dos recursos financeiros da igreja.

    Fico pensando em quantos já terão se dado conta de que é bem possível que as primeiras feministas estejam na Bíblia. Em Números 27:1-11; 36:1-13; e em Josué 17:3-6 aparecem elas - as cinco filhas de Zelofeade, que questionaram (!) Moisés acerca das leis da  herança. E, por terem-no feito, o Senhor deu razão a elas e modificou a lei. A palavra "feminista" não é usada, sequer existia - mas o conceito ali está, presente no comportamento dessas mulheres solteiras. No AT, depois de Débora (é claro!), elas são as minhas figuras femininas favoritas.

    Precisamos recuperar essa fagulha presente no início da história do povo de Deus. Precisamos recuperar as atitudes e a postura de Febe, de Priscila, de Maria Madalena, de Marta e Maria, no NT.  Mas- quando? Quando?



 Escrito por Claire Scorzi às 06h23
[] [envie esta mensagem] []




Post-Carinho : Para o Bruno

     Quero ser livre insincero

     Sem crença, dever ou posto.

     Prisões, nem de amor as quero.

     Não me amem, porque não gosto.

          Quando canto o que não minto

          E choro o que sucedeu,

          É que esqueci o que sinto

          E julgo que não sou eu.

     De mim mesmo viandante

     Olho as músicas na aragem,

     E a minha mesma alma errante

     É uma canção de viagem.

                      (Fernando Pessoa)

              (este post é para uma das pessoas mais gentis, mais amigas que eu tenho aqui na net. Bruno, temos muito pouco em comum; o que nos une é portanto mais tênue, e também mais forte - curiosamente -do que seria de se esperar. Uma das vezes em que eu estava realmente triste foi você - você - que estava aqui, através desse veículo aparentemente tão frio; você estava aqui comigo, me mandando não me preocupar com você, mas comigo mesma. "Você tem é de cuidar de você", você me disse. Eu nunca esquecerei isto. E nem quero. Você é um amigo por você mesmo, sem nenhum acréscimo necessário; sua amizade é algo tranqüilo e bom para mim. Escolhi este poema do Pessoa porque parte dele me fez lembrar de você; espero que goste. E lhe desejo um feliz aniversário, com direito a tudo de bom que houver nessa vida.)



 Escrito por Claire Scorzi às 06h07
[] [envie esta mensagem] []




Uma Página Transcrita 4

    (...) Lendo Uma Voz na Penumbra (comprei-o ontem à tarde, no sebo N. I.) de Phyllis A. Whitney. Será que todo romance "de amor" bem no fundo é sobre isto - a força da mulher vs. a força do homem, e se é possível que um deles ceda ao outro sem perder sua força?

     Até Shakespeare o escreveu - Benedick cedendo a Beatrice (Muito Barulho Para Nada). Mr. Darcy e Elizabeth Bennett em Orgulho e Preconceito de Jane Austen. J. chamou isso de "quebrar o espírito" um do outro. Seria possível escrever um romance onde esse espírito não fosse quebrado? Duas forças, dois "eu" se defrontam, atraem-se, mas há conflito; são ambos fortes. Na maioria dos casos, um - geralmente a mulher - acachapa-se ante o outro - em geral o homem. Uma das forças é quebrada, um dos espíritos é quebrado, diria J.; dobra-se. Teria de forçosamente ser assim?

     (...) Eu não respeitaria um homem a quem eu pudesse dobrar, e não mais respeitaria a mim mesma, se ele pudesse dobrar-me. O conflito: quereria que ele fosse forte, mas também eu sendo forte. Tentador, provocador pensar: só um homem de fato forte pode conviver com uma mulher forte, deixá-la ser assim; na convivência, crescendo ambos nisso. Mas é difícil, como é difícil. As mulheres em minha família. Mulheres fortes, maridos fracos. Homens fortes, ou falsamente fortes, esposas fracas; dobraram-se, foram esvaziadas; eles as esvaziaram. Para onde posso voltar-me em busca de modelos equilibrados? (...)

          (excerto do diário pessoal - 09/06/2005)



 Escrito por Claire Scorzi às 03h37
[] [envie esta mensagem] []




Claire na Alcatéia 7 : A Nós Dois

    Você quer ir para a cama comigo?

    Será que ele ainda se lembra? Não faz tanto tempo, mas homem é assim: esquece rápido as coisas. Mulher se lembra, se lembra de tudo: as palavras, o tom de voz, a expressão no rosto do outro, a música que tocava naquele momento - tudo.

    O choque. O rosto dele mudou de cor, passou de pálido ao vermelho, e ao mais vermelho (quando viu que eu o olhava). Ah, somos fortes. Corajosas. Mesmo quando mortas de medo - corajosas.

    Será que ele sabia que eu estava com medo? Medo de que mudássemos um com o outro (como de fato mudamoos, mas não para pior). Medo de que essa transição - de amigos para amantes - não se desse sem traumas, o sem jeito do sexo e que respingasse na amizade, quem sabe danificando-a.

    Com medo, mas fiz: droga, se eu tenho de ter um amante por que não um em que eu confie? (E me atraia, lógico). Passar à ação: não vamos ficar tendo essa conversa idiota em que os dois dizem coisas nas quais não estão pensando, apenas escondendo a verdade, escondendo os fatos: Eu quero. Você me quer. E isso, oras, não é o fim do mundo.

    Eu me lembro que a chave escorregava toda hora dos seus dedos. E lembro que ele, depois de pôr a mão no meu ombro, mantinha-a ali como se temesse uma fuga; que eu mudasse de idéia, vai ver.

    Porta aberta. Luz se acendendo, sua boca na minha. Minhas mãos nele descobriam que tremia. Nós. Lutando juntos, e não um contra o outro: para que o medo não nos engolfasse, não nos transformasse em outras pessoas, inimigas ou indiferentes.

    Ou ainda: para que, temerosos de ferir, temerosos de sermos feridos, não vestíssemos outras roupas enquanto nos despíamos: trajes que moldassem uma outra mulher, um outro homem, e não nós dois. Na cama com estranhos.

    Eu não quis me esconder. A tentação veio, porém repeli-a. Ele não o fez tampouco.

    Seus olhos. Seus olhos. Abertos, em mim. Seu corpo em mim. Meus olhos nele enquanto nos uníamos. Nos abraçamos com os olhos antes que os corpos o fizessem.

    E não foi estranho. Não foi louco, como com outros, e não foi inadequado. Nós dois nos encontramos. Ele segurou-me, olhos nos meus, como para impedir que eu me guardasse. Olhos nus, como estivemos nus.

    Será que ele se lembra que fui eu quem comecei tudo? Volto a cabeça quando ele diz algo sentimental, nada rebuscado. E quem se importa?



 Escrito por Claire Scorzi às 21h23
[] [envie esta mensagem] []




Post-Carinho : Para Prit

                                 Duas    Almas

   Ó tu que vens de longe, ó tu que vens cansada,

   Entra, e, sob este teto, encontrarás carinho;

   Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,

   Vives sozinha sempre, e nunca foste amada...

        A neve anda a branquear, lividamente, a estrada,

        E a minha alcova tem a tepidez de um ninho.

        Entra, ao menos até que as curvas do caminho

        Se banhem  no esplendor nascente da alvorada.

   E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,

   Essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,

   Podes partir de novo, ó nômade formosa!

         Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:

         Há de ficar comigo uma saudade tua...

         Hás de levar contigo uma saudade minha...

                       - Alceu Wamosy -

               

                 (este post é uma homenagem à minha amiga Prit, aliás Priscilla; especialista em Jane Austen, romântica de carteirinha, deu-me a maior força à época da criação deste blog, quando eu estava de "mudança" do meu outro endereço... A Prit é uma das pessoas por aqui que acreditam em mim e me enchem de alegria; sob muitos aspectos, pensamos igual, e já descobri entre nós coincidências tais que me lembrei do filme A Dupla Vida de Veronique a propósito disso. Prit: amanhã, dia 20, é seu aniversário; nem sempre podemos conversar tanto quanto eu gostaria, mas fico com saudades da única conversa "ao vivo" que tivemos, lá na Saraiva...Eu lhe desejo todas as coisas boas, as melhores, que Deus tem para você. Escolhi este poema ultra-romântico que, a mim, parece-me encaixar bem; eu quereria um poema de amor mais feliz, mas é difícil de achar, acredite! Tudo, tudo de bom para você, de coração...!)



 Escrito por Claire Scorzi às 20h47
[] [envie esta mensagem] []




Celibato e Amor

     Os medievais defendiam a idéia de que o celibato era um chamado especial, um chamado para estar aberto, "vago" para Deus. Pelo fato de não se ter casado a pessoa cristã solteira estaria mais - ou deveria estar mais - dedicada a Deus. Na Bíblia, 1 Co 7, o apóstolo Paulo explicita-o: Quem não é casado cuida as coisas do Senhor, de como agradar ao Senhor (1 Co 7:32b).

     Pondo de lado a ênfase medieval, que colocava o celibato num grau superior ao do casamento, a visão do apóstolo parece razoável. Afinal, sem a responsabilidade de marido (ou esposa) e filhos, a pessoa solteira pode em princípio se dedicar mais à obra de Deus. Digo em princípio porque existem cristãos solteiros em condições específicas que impedem ou reduzem a possibilidade de tal dedicação; aqueles que acumulam o encargo de cuidar de pais doentes ou idosos, por exemplo.

     Ultimamente ocorreu-me outra maneira de compreender essa passagem bíblica.

     Quem não é casado cuida...de como agradar ao Senhor.

     Como agradaremos a  Deus? Orando mais? Possivelmente. Assumindo funções ou cargos na igreja? A Bíblia diz que uma pessoa é chamada para isso, e capacitada (Rm 12:6; 1Co 12:28) embora se diga que o cristão deve buscar dons (1Co 12:31). E também é dito que, em funções de grande responsabilidade, convém que o cristão seja casado (1Tm 3:2, 12;Tt 1:6). Então, é sensato supôr que "agradar ao Senhor" nessa passagem referente ao papel dos cristãos solteiros tem de relacionar-se a mais do que trabalhar na igreja.

     Veio à minha cabeça uma outra possibilidade: a de que agradaremos a Deus fazendo o que Ele nos diz para fazer, com uma abertura maior para fazê-lo do que sendo casados. E o que seria? Jesus disse-nos: Amai-vos uns aos outros. Ele disse que este era o novo mandamento (João 13:34) e o apóstolo João enfatizou-o (1Jo 3:11,14,17-18,23; 4:7-21).

     É evidente que as pessoas casadas amam; não se trata da capacidade de amar, mas da possibilidade ou abertura para amar: os solteiros podem amar mais. O seu foco terreno - uma só pessoa - não está presente. O casado tem graus para exercer o dom do amor - marido ou esposa, filhos - e depois os outros. Não é errado que seja assim. Porém a ausência desse foco, desse ponto central - falo de amor a seres humanos - possibilita mais: possibilita amar a muitos, imensamente, ou ilimitadamente. Possibilita amar a muitos, com os braços bem abertos, sem qualquer receio ou reserva - receio ou reserva que decerto acabariam ocorrendo, em se tratando de uma pessoa casada ou já comprometida.

     A idéia, claro, não é nova. O monge Aelred de  Rievaulx (século XII) parafraseou João assim: Deus é amizade, e todo aquele que permanece na amizade permanece em Deus (1Jo 4:16).

    Os perigos nem por isso terminam. Como escreveu C.S. Lewis, o Inferno é o único lugar onde estaremos livres dos perigos do amor. Amar sempre constituirá um perigo, uma ameaça, pois nos expõe ao não-amor, à indiferença, quando não ao ódio. Às vezes, ao amor mais caloroso, vívido, recebemos luvas de pelica e cortesia. É um risco. Acontece. Mas o sentimento, a sensação de vida, de plenitude trazida pelo amor, é sua própria recompensa. E a não correspondência também nos aproxima de Deus: quando amamos, e não somos amados (ou não tão amados quanto gostaríamos) podemos saber como Deus Se sente, abrindo os braços para um mundo indiferente, para uma igreja com freqüência inóspita e que O trata até com respeito - porém sem paixão.

     Para mim tem sido importante recuperar esse conceito, do celibato como um chamado para amar mais, já que, como solteira, venho me deparando com assomos de amor que me parecem suspeitos ou questionáveis, porque não consigo classificá-los. Não contendo teor sexual, são, ainda assim, perturbadores, até que lembrar-me de Aereld, celibato e amor, chamado, ajudou-me a pôr as coisas em perspectiva: se amo, não faz sentido etiquetar o que sinto numa categoria pré-concebida. Não é importante. O importante é: eu amo. E posso amar, estar aberta a isso, quer esse amor se encaixe nos moldes que já conheço, quer não. Os corolários dele - a preocupação com a pessoa, as orações por ela, a alegria de encontrá-la, o desejo de que ela realize os próprios sonhos - aí estão. Amar e amar apenas. Pode ser uma aventura amar assim. Em momentos isolados, na companhia daqueles que me são queridos, vou descobrindo que é.

                    (este post é para Prit, que semeou em boa parte a idéia; para Dira, doutoranda em amor; para José, um homem raro; para Elis e Thams, que talvez compreendam; e para Alisson - que é sempre uma inspiração)



 Escrito por Claire Scorzi às 03h11
[] [envie esta mensagem] []




Da Tristeza

     Eu andava pela rua - chovia - quando me vi pensando na tristeza.

     Foi assim: eu estava me lembrando da querida Clarice, e da amizade dela com o Lúcio Cardoso, a quem ela respeitava muito e que parece ter elegido como uma espécie de mestre literário (mentor?). Eu tinha acabado de comprar um volume com duas novelas do Lúcio na Feira do Livro (é, finalmente descobriram que o pessoal da baixada também lê), lembrando que só li dele Dias Perdidos, que é ótimo porém triste demais e aí, dei para associar idéias sobre tristeza...

     Cardoso escreve muitíssimo bem. Se há defeito na sua escrita, estaria nessa inconfortável, constante tristeza, que atravessa o romance inteiro. Não é aquela tristeza fácil, de nos fazer chorar rios de lágrimas, aquilo que os críticos chamam (nem sempre com justiça, verdade) "lágrima fácil"; é mais como melancolia - aquela tristeza suave, indefinida, que permanece em nós por muito tempo, quando não passa a residir permanentemente.

      Dias Perdidos - o título o denuncia - é triste; terminei a leitura, lembro-me, incomodada; sabia que era bem escrito, mas - vinha o "mas". O "mas" que é protesto contra a tristeza. O protesto pelo que não se quer. Eu queria ficar só com a parte boa, o fato de que o romance era envolvente, cheio de humanidade; porém mostrou-se impossível separar isso da tristeza: está lá, em cada página, em cada figura humana desenhada pelo autor. Tentar extrair uma parte, tê-la sem a outra, mutilaria a história: a própria melancolia é uma personagem.

      E  foi comprando o seu segundo livro - o segundo que pretendo ler - que compreendi que recusar a tristeza da literatura desse escritor era uma maneira de atraiçoá-lo. Lembrei mais, lembrei-me de Miranda Grey, a heroína de O Colecionador de Fowles, quando ela diz a certo momento: nos recusarmos à tristeza é atraiçoarmos todos aqueles que estiveram tristes. É egoísmo, falta de compaixão, cujo significado já revela: ter pesar pela dor alheia. Sentir dor pela dor do outro. Na raiz da palavra há um sentido de 'carregar junto'; pois é isto: carregar a dor do outro= ter compaixão.

      Assim, se quero ler Cardoso, ou Bandeira, ou outro "triste" - ler aqui no sentido de ler bem, captando o que de melhor há neles, tenho de aceitar a tristeza; correr o risco de entristecer-me junto; não fazê-lo seria uma espécie de traição; e seria ler mal, ou imperfeitamente.

      Além disso, a tristeza pode nos ensinar algumas coisas; que há pessoas que sofrem; que talvez haja algo que possamos fazer (sempre há); e uma delas pode ser apenas (e tão importante) - sofrer junto. Sentir a tristeza que não é nossa, mas existe.



 Escrito por Claire Scorzi às 05h39
[] [envie esta mensagem] []




Panfleto

     É um mundo horrível este. Às vezes, eu o olho abrandada pelos oásis da graça pintalgados aqui e ali. Mas às vezes eu tenho de olhá-lo como é, por conta de algumas coisas que leio.

     Já notaram como as pessoas são fascinadas, fascinadas com o mal? Ninguém - ou muito poucos, muitíssimo poucos - se fascina com o bem. Enaltecem o perverso, o bandido, o errado; dizem que mal e bem são conceitos relativos (tá: gostaria de saber se um defensor da "relatividade" do mal e do bem continuaria a dizer isso se fosse assaltado, maltratado, torturado). Cantam odes a satã e dizem que o diabo não é tão feio quanto se pinta. Escrevem livros sobre assassinos, serial killers, traficantes de drogas, terroristas, ditadores; a mídia então os festeja, são o seu ganha-pão. As pessoas lêem com avidez, mesmo se comentando (sem tirar os olhos das fotos aterradoras): "Puxa, que coisa horrível..."

     É. Que coisa horrível. Que coisa horrível, o quanto diz sobre a nossa podridão, o fato de nos interessarmos, nos apaixonarmos, muito mais pelo mal do que pelo bem. O mal é glamuroso, dizem; ser bom é muito chato. Sem graça nenhuma.

     Mas isso não é o pior.

     O pior é que nós, cristãos, contribuímos para isso. Nossa pretensa virtude é uma lista interminável de não podes. Nosso conceito de ser abençoado não é diferente daquele dos ricos e famosos posando para a revista Caras (ainda publicam essa coisa?). Nosso gosto estético inexiste: um romance é "bom" se não tiver palavrões. Ainda que a narrativa seja pobre e os personagens, falsos. Ainda que os pretensos heróis da "literatura cristã" (existe isso?) sejam anódinos, chatos, chatos, e os vilões (tradução: incrédulos) sejam mais humanos e interessantes. E quando se "convertem", ficam tão chatos quanto os primeiros.

     Sim, nós também, cristãos, amamos o mal. Nós o cremos muito mais fascinante e o fazemos mais interessante que o bem. Se este mundo é um lugar horrível, a culpa também é nossa. Por nossa apatia. Nossa estreiteza espiritual, moral, intelectual, artística.

     Será que alguém ainda se lembra que Jesus Cristo (aquele, sabe, a quem alegamos seguir) nada tinha de chato? Que uma leitura atenta dos evangelhos nos revela um homem bom, o bem, como fascinante, apaixonante, caloroso?



 Escrito por Claire Scorzi às 04h39
[] [envie esta mensagem] []




Corrente Cinema

    A Meg (Meg SubRosa) me passou esta, para a qual também irei escolher minhas vítimas no final. Vou tentar não fazer vergonha - tenho visto tão poucos filmes! - o resultado aí vai:

1) Qual o seu filme favorito?

    Um só? Difícil...Vão 2 que eu adoro: O Espelho Tem Duas Faces e O Nome da Rosa.

2) Qual o último DVD que você comprou?

    Não compro DVDs.

3) Quais os 5 últimos filmes que você viu?

    Já tem tempo, vejamos se eu me lembro; hum, O Profissional de Luc Besson (final idiota!). Simplesmente Amor (docinho, docinho). Apenas Bons Amigos... (em que fiz as pazes com o Michael Keaton). Laura (versão colorizada; não gostei!). E , de novo, de novo, Ladrão de Casaca, com Cary Grant: adoro este filme!

4) Qual o melhor filme brasileiro de todos os tempos?

    Não sei; não vi muitos de que eu realmente gostasse. Caiçara, de 1950, do diretor Alberto Cavalcanti, tem uma fotografia lindíssima (em preto & branco!). O Cangaceiro (de Lima Barreto, 1953) tem bons momentos, embora os atores sejam fracos em matéria de interpretação. Na indecisão, fico com esses dois.

5) Qual o seu diretor/ator/atriz e seu gênero favoritos?

    Diretor: tenho vários de que gosto muito. Alfred Hitchcock. François Truffaut. M. Antonioni. Otto Preminger. Woody Allen. Brian De Palma...

    Ator: Al Pacino talvez seja o mais próximo de favorito.

    Atriz: Essa é fácil : Isabelle Adjani!!!!!!! Não tem para ninguém!!!!!!!

    Gênero: Gosto de dramas. Filmes de suspense antigos, e policiais antigos também; os modernos exageram na violência, e história que é bom..., com exceções. Hollywood e o atual cinema inglês redescobriram a comédia romântica; às vezes o resultado é delicioso.

6) Escolha 5 pessoas para passar a corrente...

    Lá vai (e qualquer uma delas vai se sair muitíssimo melhor do que eu!): para a Prit (Diario de Bordo), que já viu 200 filmes em poucos meses, isto é moleza pra ela; para a Elis (O Essencial É Invisível aos Olhos), outra cinéfila; para o José (Por Hoje É Só), claro, que sabe até as falas dos filmes que ama; pra Dira (Voando Pelo Céu da Boca), porque estou curiosa para ver a lista dela!; e para o Sandro (Estudo Bíblico) pra ver se ele pára de me ignorar e faz a lista de filmes favoritos dele que está me devendo há meses! (Não esqueci, não, viu , seu Sandro?)



 Escrito por Claire Scorzi às 18h37
[] [envie esta mensagem] []




Diário de Leitora 4

     A Sabedoria do Padre Brown, de G. K. Chesterton

     Entre as virtudes de Chesterton (1874-1923) uma das mais incomuns e valiosas é a sua convicção sem fanatismo. Aliada a esta, outra: exprimir idéias sem tom doutrinário - aqueles casos horríveis em que o desejo de "pregar" é tão forte no escritor que este esquece a história e procura impingir seu ponto de vista ao leitor. Chesterton, como outro inglês (e tão diferente dele), D. H. Lawrence, escapou a essa armadilha.

     No volume de contos A Sabedoria do Padre Brown, unem-se a agilidade da trama policial e a habilidade típica do bom contador de histórias que primeiro estabelece um clima para a aventura que pretende narrar. As doze aqui incluídas têm quase todas um início panorâmico - cenário, disposição das personagens como num quadro - com parágrafos longos, e em cerca de 20 páginas o ritmo lento altera-se, a narrativa é acelerada e o final, abrupto. Em pelo menos três contos, o leitor pode sentir a necessidade de voltar algumas linhas para reler e assim "apanhar" o fio da meada. Chesterton, ao contrário de Agatha Christie, não faz longas recapitulações de como-o-seu-detetive-desvendou-o-crime.

      Duas aventuras - que não nomearei, pois dizê-lo revelaria parte do mistério - merecem menção especial. Nelas, o autor demonstra, como fizera em O Homem Que Foi Quinta-Feira, um inesperado respeito (nestes tempos fundamentalistas) aos poetas, e também aos cientistas. A solução dos crimes deixa claro que, para o escritor, poesia e ciência conhecem a verdade - mas não toda ela. Podem percebê-la em parte - o seu humor não é cruel - e, isto, é bom dizer, ele reconhece. Mas parte da verdade não é a verdade completa...

      Essa abrangência generosa do cristianismo de Chesterton talvez explique a sua popularidade mesmo entre os não cristãos. Um humorista, um pensador, um artista com seu texto - assim eu o definiria, sem esquecer: um cristão convicto sem fanatismo. Pois é preciso crer sem ódio.



 Escrito por Claire Scorzi às 04h57
[] [envie esta mensagem] []




Post-Carinho : Para o Rafael

       Se a treva fui, por pouco fui feliz.

       Se acorrentou-me o corpo, eu o quis.

       Se Deus foi a doença, fui a saúde.

       Se Deus foi o meu bem, fiz o que pude.

       Se a luz era visível, me enganei.

       Se eu era o só, o só então amei.

       Se Deus era a mudez, ouvi alguém.

       Se o tempo era o meu fim, fui muito além.

       Se Deus era de pedra, em vão sofri.

       Se o bem foi nada, o mal foi um momento.

       Se fui sem ir nem ser, fiquei aqui.

             Para que me reflitas e me fites

             estas turvas pupilas de cimento:

             se devo a vida à morte, estamos quites.

                             Paulo Mendes Campos

       (este post é para o cínico com quem todos nós amamos brigar - no bom sentido...; um dos primeiros que me "recebeu" aqui na blogosfera. Rafael, você é alguém que eu admiro muitíssimo, eespecialmente quando resolve escrever ficção; espero que você saiba disso. Ontem foi aniversário seu, e hoje venho lhe desejar, sentimental que sou ,tudo que há de bom nessa vida... o poema do PMC me fez pensar em você logo que o li. Feliz aniversário, de verdade; não quero ser melosa, você não está acostumado, e tal...felicidades!)

            



 Escrito por Claire Scorzi às 04h14
[] [envie esta mensagem] []




Uma Página Transcrita 3

    ...Estou lendo Correspondências de Clarice Lispector, e o que CL diz numa carta a Lúcio Cardoso sobre a amizade deles me fez pensar na minha amizade com C.

    "(...). Eu disse que nunca tinha podido chegar + perto dos seus problemas porque você nunca deixava; que eu, por encabulamento, então, disfarçava minhas perguntas de amizade em perguntas de curiosidade(...)" (pág. 46).

    Queremos partes dos nossos amigos que eles não nos podem dar; e não podem ser extraídas à força, seria uma forma de violação. Essas partes têm de nos ser dadas espontaneamente; temos de aprender a esperá-las, o coração aberto e grato por aquilo que já é dado, ainda que pouco. Eu costumava acreditar que era muito madura quanto a isso, respeitando o ritmo de "dar"  de cada pessoa. Mas sou como a maioria, no fundo. Quanto mais amo alguém, mais quero que me confie o seu íntimo. Então, tenho de aprender a respeitar, a me conter, e a ser grata - o que presunçosamente um dia julguei saber; um auto-engano. (...)

    A boa conversa de ontem (surpreendentemente), aquela que me deixou com boa impressão: M. Ele: "não sei como você pode ter lido tanto e não ser pessimista" e eu: "Eu também não entendo!" e ele: "Que alívio!" - e mais. Foi - pelo menos para mim - uma boa conversa.

                  (excerto do diário pessoal - 05/07/2005)



 Escrito por Claire Scorzi às 05h04
[] [envie esta mensagem] []




Exilados no Inferno

    Todas as profissões têm seus traidores, todas têm seus anjos. Em A Conturbada História das Bibliotecas de Mathew Battles, leio sobre os bibliotecários alemães que, durante o período nazista, colaboraram com o sistema (inclusive compilando listas de autores que deveriam ser censurados); e também leio sobre os heróis anônimos, como o bibliotecário Hermann Kruk que, entre 1942 e 1943, administrou uma biblioteca no gueto de Vilna. Conta-nos Battles:

Enquanto lutavam para organizar um catálogo de fichas, Kruk e seus colegas puderam encontrar momentos de paz, e até mesmo de alegria, em meio aos livros. Em seu relatório, Kruk tentou captar esses momentos.(...)O que emerge desses dados é um retrato daquilo que a leitura significou para os membros de uma comunidade exilada no inferno.( A Conturbada História das Bibliotecas, p. 175).

     "Exilada no inferno" diz o autor. E prossegue contando-nos como, mesmo aos maiores horrores dos expurgos e execuções dos judeus em Vilna, a biblioteca registrou altos índices de freqüentação e de empréstimo de livros. Maltratados, mal encadernados, gastos, os volumes foram, para seus sofridos e constantemente aterrorizados leitores do gueto, aquilo que o próprio Kruk chamou, num de seus registros, um milagre.

     O milagre do livro. Não pude deixar de me maravilhar e emocionar lendo essa passagem (p.174-179). A emoção decerto tem algo a ver com o que os livros foram para mim tantas vezes, e de modo pungente na infância. É verdade que pouco há a comparar: a garotinha que eu fui, com um pai alcoólatra e uma mãe amorosa mas que trabalhava muito, encontrava seu refúgio nos livros, mas nem de longe sofreu como essas pessoas desconhecidas de um país distante. Ainda assim, ler sobre a biblioteca de Vilna e seus usuários não deixou de estabelecer um laço entre nós: nosso amor comum, nossa gratidão, nossa rica alegria trazidas por - livros.



 Escrito por Claire Scorzi às 16h19
[] [envie esta mensagem] []




Claire na Alcatéia 6 : Entre Meninos

    Era uma vez um menino. Não era um mau menino, ao contrário, embora gostasse de posar de mau. Zangado, seco - afeição muito de perto causava-lhe desconforto, e as pessoas, para o amarem, tinham de criar subterfúgios e pretextos. Olharmos para o que ele fazia, isso: talvez assim, focando o que era feito, e não ele mesmo, pudéssemos amá-lo sem o afugentar (como a gente pode oferecer um agrado em forma de alimento para um bichinho selvagem).

    Pois bem, junto com esse menino estava outro, que também era um bom menino. Este não fingia ser mau, era mais - triste. Triste demais, muito embora estivesse sempre fazendo piadas. Os dois estavam jogando um jogo sobre o qual eu não sei nada e nem interessa aqui, felizmente. Como homens (afinal eram homens, ainda que muito novos) o jogo era o seu modo de estarem juntos. Garotos, homens, é tudo a mesma coisa (sei, sei, vocês dirão que generalizo): ser amigos era jogarem juntos, embora não se tratasse de futebol.

    Eles conversavam? Sim, um pouco. Não faço idéia sobre o quê (Como não sou menino, seus temas de conversa são inescrutáveis para mim). Imagino que falassem do jogo. Um projeto em comum que tinham. Um filme que o primeiro deles tinha visto e o segundo ainda não. Uma música. O novo site que o segundo menino havia descoberto enquanto navegava pela net outro dia. Cada um de vocês pode completar com a própria idéia. Eu imagino coisas assim. Não sabemos. Nunca saberemos, porque o que um dizia para o outro, por mais trivial que fosse a conversa, era só deles. Amizade não são grandes frases. A gente deixa as coisas profundas e difíceis para aqueles a quem se quer impressionar, mas com amigos já se ultrapassou isso. Relaxamos, ainda bem. Ser profundo e difícil o tempo todo cansa, além de ser chato.

     Pois os dois se falavam, e era só. Compartilhavam o momento com suas idiossincrasias, com tudo que lhes era próprio, numa conversa talvez longa, sem pausas, talvez curta, errática. Frases. De um, de outro. E o jogo. O primeiro menino admirava muito o segundo, que também o admirava (amizade pode começar assim: duas pessoas que se admiram mutuamente). O primeiro achava o segundo um escritor talentoso, e o segundo não concordava (era do tipo que detesta 99% do que escreve). O segundo gostaria de converter o primeiro àquilo em que ele acreditava, mas sabia que conversão é algo que vem, e não que se impõe. Mesmo pensando diversamente sobre Deus, se entendiam.

     É claro que o segundo menino orava - pelo menos às vezes: ele não era muito organizado - pelo primeiro. E é claro que o primeiro, se não sabia disso, imaginava. E é claro também que, emburrado como era, não dava a mínima (já disse, ele posava de malvado). E é claro, óbvio, eu diria, que esses dois meninos se amavam, no que esta palavra tem de grande, de incompreensível, e de autêntica. Pois amizade real é amor.

    Portanto, eles nada faziam de mais.Ficavam juntos e jogavam, e às vezes falavam (outro segredo da amizade, que a Clarice Lispector sabia à perfeição, é que os amigos de verdade não precisam conversar o tempo todo). Trocavam suas experiências contrárias - mas ali haviam chegado, apesar disso: eram amigos - e construíam com o momento a dois uma experiência que era de ambos. Nela, eram diferentes de quando sozinhos ou de quando com outras pessoas. Ali estavam eles. Participando de um tempo que se juntaria a outros que iam possuindo em comum.



 Escrito por Claire Scorzi às 05h16
[] [envie esta mensagem] []


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
 
 
 
  BRASIL, Sudeste, Mulher, de 36 a 45 anos, Livros, Arte e cultura, estudos de teologia e filosofia...


 


 Todas as mensagens
 Link



 Antigas Ternuras
 À Procura
 Burburinho (quadrinhos, livros, música...demais!)
 Canto do Jo
 Casa de Chá do Luar de Outono
 Contra a Ilusão
 Cronopios - Revista de Arte e Cultura
 Dessincronizado
 Devaneios Gratuitos
 Diário de Bordo
 Digestivo Cultural
 É Tudo Verdade
 O Essencial É Invisível aos Olhos
 Estação Noturna
 Estudo Bíblico
 Gamella
 Juvenília
 Lado B
 Lara Vedder
 Livraria do Crime
 Marcelo Maroldi
 Milton Ribeiro
 Minuta
 Mulheres Que Amo
 Na Estrada
 Nos Ares
 Odisséia 2005
 Otium Liberale
 Pensamentos Cativos
 Poesias e Vinho Tinto
 Por Hoje É Só
 Remonstrante
 Ricardo Costa - História Medieval
 Voando Pelo Céu da Boca



 Dê uma nota para meu blog