Santidade
Conceituar é difícil. A idéia corrente é a de que um indivíduo "santo" é aquele que veste roupas esquisitas - de preferência com camisas abotoadas até o pescoço, mangas compridas e, no caso das mulheres, saias de comprimento até o chão. Nenhum adorno ou maquiagem. Absolutamente sem sexo - esta parece ser a meta, ou seja, nenhuma consciência (visível) de sentimentos sexuais.
Cruzo com tipos assim na rua e nas igrejas, e me entristece. Também em mim: raiva. Por que, por que fazemos de um conceito bíblico algo tão doente, tão mesquinho, estreito, legalista? Nós o apequinamos, o fazemos à nossa imagem e semelhança. Decretamos que o "santo" tem a ver com roupas, palavras (encha a boca de "Glória! Aleluia!"), conformidade, rejeição de tudo o que é "mundano". Fofoca tudo bem (é só dizer que está fazendo um "comentário") mas assistir um filme do Harry Potter? Blasfêmia!
Santidade não é, não pode ser, nada disso.
A palavra "santo" significa "separado". Não consigo definir exatamente o que seja (e talvez não devamos consegui-lo, mesmo) mas penso que tem relação com uma atitude presente no marido de uma amiga minha. Em plena onda de fofocas e maledicências (dentro da igreja) feitas sobre ele, minha amiga furiosa, ele só dizia algo como deixa para lá, sorrindo - ela sem poder conter-se, indignada com os pretensos santos na verdade invejosos da popularidade do marido (líder de jovens e muito amado por eles) e ele sem conseguir irritar-se. Sem ficar ressentido ou furioso. Sem sentir-se aviltado.
A maravilhosa, esplêndida Teresa de Ávila (1515-1582) disse que, se aspiramos à melhor oração que é união com Deus, uma das coisas de que teremos de abrir mão é da respeitabilidade, da reputação - enquanto ficarmos preocupados e ciosos de que não nos insultem, enquanto nos sentirmos diminuídos com críticas, injustiças, observações ferinas - não poderemos crescer espiritualmente no que Teresa chama caminho da perfeição - orar em verdadeira intimidade com Deus.
O esposo de minha amiga, que que eu saiba nunca leu Teresa, concordaria com ela; na verdade ele tem vivido isso, recusando-se a cair na armadilha da ira, do zêlo por sua reputação, seu "bom nome"...
Difícil? Claro que é.
Mas para mim, isso é santidade.
Escrito por Claire Scorzi às 05h59
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Literatura Feminina e o Humor
Foi a escritora judia americana Erica Jong quem observou não haver nenhuma "Chaucer Mulher" - nenhuma escritora com humor são, capaz de fazer rir enquanto desfruta do prazer de ser mulher.
Rigorosamente - e se alguém conhecer exceções melhores, me avise - o humor na literatura divide-se em ironia-sarcasmo - e aí encontramos grandes modelos na prosa de um Voltaire, de um Bernard Shaw (Pigmalião é exemplar nisso), um Millôr Fernandes, um Eça de Queirós - e histrionismo, ou o humor da gargalhada, da bobagem, do exagero (às vezes grosseiro) - onde Shakespeare, Fielding (Tom Jones), Dickens, João Ubaldo Ribeiro, Rabelais (Gargantua) e outra vez Voltaire se destacam.
Onde escritoras mulheres nisso? O humor irônico, do sorrisos (a ironia não provoca gargalhadas, pois no fundo é triste) é visto na ficção de uma Jane Austen, de uma Virginia Woolf, uma Agatha Christie, e por séculos este parece ter sido o máximo a que podiam chegar. É difícil mulheres escritoras que de fato nos façam rir, rir de doer a barriga; o histrionismo feminino só tem marcado presença em outra forma de arte, a da representação. Atrizes têm se destacado nesse campo interpretando, no cinema e no teatro, essa espécie de humor, o que provoca risadas, não apenas sorrisos.
Penso que o motivo da deficiência deve estar na minha definição do humor irônico feita acima: ironia ou sarcasmo não faz surgir gargalhadas, pois sua gênese é triste: diz-se, escreve-se uma frase ferina, sem origem num riso saudável, leve, bobinho, que é, somente, alegre. Não há autêntica alegria na ironia ou no sarcasmo, há dor e revolta. Essa categoria de humor nasce do inconformismo, da atitude interior de quem não aceita o que está errado. E o inconformismo é, tem de ser, por força das circunstâncias muito específicas da condição da mulher, a atitude, o olhar feminino sobre o mundo e sobre o ser humano. As mulheres não se conformam. E portanto são irônicas.
Tanta revolta, tanta tristeza, porém, cansa. E não faz brotar a alegria. Será que o feminismo não poderia dar um tempo e tirar o uniforme, os sapatos, e apenas rir? Rir. Dar risadas. Gargalhar. Ficar com dor na barriga e com os músculos da face doloridos de tanto - rir. Não seria possível?
Umas poucas escritoras estão tentando, eu acho. Não sei de muitas; mas sei de algumas. A citada Erica Jong com seu Medo de Voar e Pára-Quedas & Beijos, além da saborosa autobiografia Medo dos Cinqüenta. Amanda Quick (Malícia; Caso de Amor; Um Anel Muito Especial; Perversa Viúva). Pam Houston (Meu Fraco São Cowboys). Stella Florence (Ele me Trocou por uma Porca Chauvinista, Por que os Homens Não Cortam as Unhas dos Pés?). Dorothy Parker (Big Loira e Outras Histórias de Nova York). São melancólicas por vezes; parece que a dor é apêndice inoperável da escrita feminina. Mas se entregam com freqüência ao riso, à gargalhada autêntica, libertadora, alegre. Nem tudo está perdido.
Escrito por Claire Scorzi às 18h30
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Claire na Alcatéia 5 : Compartimentos
Abro as pernas e deixo que se sirva. Não estou muito preocupada com isso, não agora. Mas que horas são? Deve passar das dez, pelo menos. Ele prossegue, resfolegante, como se subisse quinze andares sem parar. Ah, sem desejo nem amor o ato parece tão ridículo. Não, não, não é o ato, são as pessoas. Será que, quando ele não me deseja, só me deixa fazer, também fico ridícula aos seus olhos? Não sei.
Qualquer coisa, feita sem vontade, dá nisso: tédio. Puro tédio. Tento me interessar, movo-me, melhora. Os gemidos e o suor do seu corpo me atraem, capturam, passo os braços em torno dele, ajudando-o, e vamos, agora juntos. Mas ele vai terminar antes de mim, já sei, posso senti-lo. Não, penso, Não, ordeno mentalmente, Não, vou me afastar e fazê-lo esperar um pouco mais.
Começo a repeli-lo, ele não entende mas aceita. Troco de posição. Em cima, posso controlar o ato, não quero ser provocante, só quero que ele me espere. Consigo. Minha boca no seu corpo agora. Espere. Espere. Agora. Vem.
O gozo é súbito, mas não dura nada. Por que tem de ser tão curto? A sensação devia se prolongar... Não adianta, acabou. O tédio volta, mais forte.
Ele acende um cigarro. Fico imóvel, as pernas abertas. Adormecida? Ele se zanga quando isso acontece, diz que pareço uma vadia. E daí, sempre digo, mas ele emburra. Não entendo o motivo de se chatear com tão pouco. Abaixo as pernas, e as fecho. Dou um suspiro. Ele olha para mim, viro a cabeça para fazer o mesmo.
Gosto do seu rosto. Bronzeado, os olhos bem escuros, cabelos fartos. Não gosto é das mãos, grandes, feias. Parecem brutais, e não é verdade, quando me tocam são gentis. Também devem haver coisas em mim que ele não gosta. Claro que há. Os seios, são grandes demais. O formato do meu rosto, quadrado, do qual eu mesma não gosto. Mas gosto dos meus olhos. Da boca. Do bumbum. Até os seios, apesar do tamanho, me agradam. Só desgosto deles quando imagino se não desagradam o cara com quem estou dormindo. Desagradará a ele? De qualquer modo não vou perguntar.
Sou abraçada. Em silêncio, os dois, e em silêncio coloco as mãos em seu corpo, repousadas no tórax, quentes. Mantenho os olhos fechados. Não me ocorre nada para falar. Esse é o problema, não temos assunto.
Falar do quê? Da inflação? Corrupção entre os políticos? A última greve? Gosto de cinema e poderia falar disso, mas não o interessa e detesto ser ouvida por educação. Sinto agonias quando percebo a postura bem comportada, aquele jeito do "pode-falar-eu-não-gosto-mas-vou-te-ouvir". Odeio.
Devia sair com outra pessoa. Ele também. Ele falaria de futebol com a outra, eu ia falar de cinema com outro homem. Na hora do sexo nos encontraríamos. Simples. A vida em compartimentos. Simples.
Acho que vou sugerir isso. Não agora, mas depois, quando ele perguntar se quero sair. Sempre pergunta depois. Não vai ser diferente dessa vez.
(conto escrito em dez./1988. Com modificações em jun./2005)
Escrito por Claire Scorzi às 09h37
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Claire na Alcatéia 4 : É Assim
E conversávamos, ela e eu. Como amigas, mesmo que não o fôssemos, experimentávamos: tínhamos a lua em comum, e o quanto a amávamos. Um amor estranho o nosso, feito de exaltações ( e poderia a lua inspirar um outro tipo de amor?). Palavras reverberavam entre nós; piscando, deixavam um rastro visível, talvez incomum; talvez nem tanto.
Eu me dizia: É assim - encontrando nela algo próximo, que antes pensava ser só meu. Não era - Ou - sim, poderia ser; o que brilhava nela era diferente, mais vivo, mais natural. Seria sempre o que vem de mim o insólito, o que não tem remédio, absurdo e inelutável? O que eu sabia? Nada. Podia ouvi-la, cortês, lutando com os meus sentidos, contra tudo o que em mim dizia: É assim.
É assim. A lua que eu amava de um amor dolorido, a que não sabia dar nome - nomes são limites - era amada por ela também, porém alegremente, com a insensatez de quem podia. É bom poder. Mas quando eu amara alguma coisa que eu pudesse? Há muito tempo... Meu mar me abandonara, longe, longe agora; fôra meu refúgio antes, aquilo a que me apoiava, tendo então alívio; onde, agora, o alívio? Para onde eu correria? A lua me fazia mal; não era repouso, mas ânsia, angústia - quando eu pensava estar livre.
Conversávamos, reunidas pelo amor comum, contudo ainda diferenciado; não podíamos amar do mesmo jeito, diferentes como éramos. Alegria dela. Loucura minha.
Escrito por Claire Scorzi às 03h57
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Observações Sobre Literatura Romântica (2)
As histórias de amor são feitas de equívocos e mal-entendidos. Não é de hoje: não apenas novelas românticas modernas, algumas, a meu ver, de primeira ordem, se constroem sobre equívocos e mal-entendidos; isto começa na literatura romântica que, para mim, exemplifica a melhor "antepassada" da contemporânea: Orgulho e Preconceito, A Abadia de Northanger, Emma, Persuasão - todos de Jane austen, são repletos de acontecimentos que ilustram tais características. Ter sempre uma dúvida entre o casal de protagonistas, um engano, algo mal explicado: este é o "gancho" dentro da ficção romântica por excelência.
O Fitzwilliam Darcy é uma espécie de antepassado de centenas de heróis e anti-heróis contemporâneos, assim como o Heathcliffe de O Morro dos Ventos Uivantes de Emily Brontë (também do início do século XIX, como Austen); o primeiro, protagonista de Orgulho... é a raiz de figuras como o Niall Cameron e o Oliver Davenport de Penny Jordan, o Richard West de Justine Davis - orgulhosos, enigmáticos, ainda que não deliberadamente cruéis. Heathcliffe é o antecessor dessa outra vertente - a dos anti-heróis frios, vingativos, violentos.
E os heróis doces e generosos? Onde estaria a "origem" destes?
Em figuras menos famosas, talvez. O Romeu de Shakespeare é amoroso, mas não têm, pela trama, chances de demonstrar uma grande firmeza de caráter. Isso se vê em outros, pouco conhecidos; como o protagonista-título do primeiro romance de Charlotte Brontë, O Professor.
Escrito por Claire Scorzi às 04h39
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Diário de Leitora 3
Você Gosta de Brahms?, de Françoise Sagan
A francesa Françoise Sagan, que ao publicar o seu primeiro romance aos 19 anos, Bom Dia, Tristeza foi considerada a "enfant terrible" das Letras Francesas, é uma das escritoras que conheci muito jovem (por volta dos 14 ou 15 anos) lendo seu volume de contos Olhos de Seda. Desde então, Françoise é para mim um amor cíclico: eu a encontro, amo, afasto-me, redescubro-a e volto a me apaixonar - há amores assim...
Neste Você Gosta de Brahms? ela conta a história de Paule, mulher à beira dos 40 anos que vive um relacionamento frustrante com Roger - que, enquanto afirma seu amor, envolve-se, a intervalos, com outras mulheres - mas de súbito vê-se valorizada ao ser alvo da dedicação apaixonada de um jovem de 25 anos, Simon. Aquecida por essa afeição, Paule chega a afastar-se de Roger - mas, ainda amando-o, acaba rompendo com Simon e volta para o antigo amante, retomando o relacionamento ainda tão infeliz para ela quanto no início.
Lembro-me que quando assisti o filme baseado no romance - Mais Uma Vez, Adeus (Good bye, again) com Ingrid Bergman (Paule), Yves Montand (Roger) e Anthony Perkins (Simon) - tinha uns 13 anos e torci por Simon, detestando o final em que Anthony Perkins, em lágrimas, era rejeitado por Ingrid Bergman, que voltava aos braços de um Yves Montand egoísta e acomodado. Por que, eu me perguntava, ela não escolhia o homem que a amava de fato? Por que voltava para uma relação que não a satisfazia?
Agora, que tenho a idade de Paule, posso entender a decisão da protagonista. Contudo, permanecer sozinha seria a minha escolha para ela.
Você Gosta de Brahms? mistura impressões de música erudita, diálogos quase teatrais no seu poder concentrado em poucas palavras, enquanto a autora debruça-se sobre todos - Paule, Roger, Simon - levando-nos a enxergar suas dúvidas, sofrimentos, egoísmos, paixões e nobrezas. Lendo o romance tantos anos após ver o filme, ainda reconheço a nobreza de coração de Simon, a solidão de Paule, a crueldade descuidada de Roger - e, ainda detestando o desfecho, posso compreendê-lo e aceitá-lo em parte, e admirar o talento de Françoise Sagan em conseguir dizer tanto em menos de 150 páginas.
Escrito por Claire Scorzi às 04h31
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Mulheres Que Eu Amo: Agatha Christie
A inglesa Agatha Christie (1891-1976) publicou o seu primeiro romance em 1921 e desde então não mais parou. Uma trama engenhosa - por vezes demasiado intrincada - encobrindo freqüentemente motivos dos mais comuns para os crimes, parecem ter sido marcas no estilo dessa escritora que não criou o gênero policial, mas decerto estabeleceu-o com algumas características de modo a habituar seus leitores a elas: um assassinato misterioso, diversos suspeitos, pistas verdadeiras mescladas às falsas, reviravoltas quase até à última página - e, como bônus, observações irônicas e perspicazes sobre a natureza humana.
Essa mulher inventiva, inteligente, descrita por alguns como tímida enquanto pessoa, com posições conservadoras que só raramente soavam antipáticas, exibiu qualidades insuspeitas numa pessoa da "velha geração" na Inglaterra. Não é difícil descobrirmos personagens jovens olhados com simpatia por ela (nada da "ranzinice" esperada de um senhora idosa) assim como ironizou, em diversos romances, a ignorância inglesa sobre os "estrangeiros". Embora observando a estrutura básica na maioria dos seus 86 livros, uma leitura atenta revela o capricho e até certa dose de experimentação. Agatha Christie contou sua história de crime misterioso brincando com a técnica dos "pontos de vista" em obras como Os Cinco Porquinhos(1943) e chegou a ambientar uma delas no antigo Egito - E No Final A Morte(1946). Foi menos feliz quando enveredou pelo romance de espionagem - Passageiro Para Frankfurt(1970) - e chegou perto de fazer crônica de costumes no excelente A Mão Misteriosa (1942).
Entre a volumosa coleção da escritora, menciono: Assassinato no Expresso do Oriente (1933), Tragédia em Três Atos (1934), Os Crimes ABC (1935), Cartas na Mesa (1936), O Natal de Poirot (1937), Encontro Com a Morte (1938), É Fácil Matar (1938), Hora Zero (1944), A testemunha Ocular do Crime (1957), Um Gato Entre os Pombos (1959) e Um Crime Adormecido (1976).
Escrito por Claire Scorzi às 06h12
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Escritores Novos
Se tem uma coisa que eu gosto de fazer é conhecer escritores novos. "Novos", aqui, não referindo-me a recém-publicados, mas novos para mim - escritores até famosos, em alguns casos, que ainda não tinha lido.
Certa vez o Flamarion (Contra a Ilusão) fez uma lista dos escritores que ele ainda não lera. Faço a minha agora (com o que me lembro).
Jean Rhys. Osman Lins. Moacyr Scliar. Scott Turrow. Joyce Carol Oates. Ledo Ivo. Nathalie Sarraute. Ungaretti. Agustina Bessa Luís. Júlia Lopes de Almeida. Edith Sitwell. Elizabeth Bishop. Alice Walker. Os Goncourt. Ionesco. Carol Shields. George Meredith. Brigitte Aubert. Patricia Cornwell. Isabel Allende. Elsa Morante. Gabriela Mistral (talvez um poema ou dois...)
Tem muitos, muitos. Esses acima são os que me lembro. Sempre que posso, aproveito para diminuir a lista; atualmente, entre as minhas leituras "de estréia" , estão Fausto Wolff ( O Nome de Deus) e, à espera na pilha de volumes-a-ler, estão Georges Bernanos (Diário de um Pároco de Aldeia), Michelle Perrot (Os Excluídos da História), Karl Rahner (O Cristão do Futuro), Helena Parente Cunha (As Doze Cores do Vermelho), Willa Cather (A Morte Vem Buscar o Arcebispo), Carlo Emilio Gadda (A Adalgisa), Karen Horney (Últimas Conferências Sobre Técnicas Psicanalíticas). Nunca li nenhum desses autores, entre eles uma historiadora (Perrot) e uma psicanalista (Horney).
Descobrir escritores novos, ler alguém que jamais se leu, pode ser uma experiência emocionante. Sempre começamos aí, no escuro (no máximo, às vezes alguém que respeitamos nos fala bem do "novo-para-nós"). Pode acontecer que o dito "novo" nada nos diga; não eclode nenhuma grande paixão, não "comungamos" com ele, embora possamos reconhecer suas qualidades enquanto escritor; mas ele não se torna nosso, não nos apropriamos dele. É assim que reconheço, por exemplo, as qualificações de um Vonnegut (lido pela primeira vez recentemente), de uma Iris Murdoch, sem que a "conexão" se faça. Não acontece. O escritor/escritora simplesmente não nos liga a si. Permanece distante - podemos ver que detém méritos, às vezes grandes, porém nenhum sentimento maior nos une a eles. Não se tornam nossos amigos.
Disse Tolstói a respeito de Dickens: "Todos os personagens de Dickens são meus amigos pessoais". De minha parte, digo: todos os meus escritores favoritos são meus amigos pessoais. Não os conheço como indivíduos, a maioria deles já faleceu. Contudo eles me falam - como amigos. Cúmplices. Como pessoas a quem amo mesmo quando discordamos. E como eu discordo de Doris Lessing, de Fernando Pessoa, de Bilac - mas meu coração se abre carinhosamente para abrigá-los...
E a cada vez que apanho um "novo" para ler, inédito para mim, existe a possibilidade, a pergunta: será que vou fazer mais um amigo?
Escrito por Claire Scorzi às 01h02
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Porque Hoje É Dia
Porque hoje é dia dos namorados, eu me pus a pensar nos casais - dentro da História e da Literatura.
Dante e Beatriz. Petrarca e Laura. Abelardo e Heloísa.
Alguém dirá: amores infelizes. Beatriz era casada, e embora Dante a conhecesse desde criança, viu-a desposar outro, sobreviveu a ela e fê-la simbolizar a Teologia na sua Divina Comédia. Laura também era casada e, como Dante, Petrarca amou-a de longe. Abelardo e Heloísa - sabe-se como o amor deles terminou.
Na Literatura - Romeu e Julieta. Tristão e Isolda. Armand e Marguerite (A Dama das Camélias). Todos os casais de Stendhal, malgrado seu entranhado romantismo (para mim, a intriga política de seus romances é mero pano de fundo para a história de amor que pretende narrar) tem o mesmo destino - Julien e a Sra. de Rênal, Fabrício e Clélia, Octave e Armance - a paixão os conduz à morte física ou à morte em vida (ver o destino de Armance, sua heroína na obra que leva seu nome no título).
Tragédias. Tragédias. Tragédias sempre. Nem a literatura nacional faz diferente. Paulo e Lúcia em Lucíola, Peri e Ceci em O Guarani de José de Alencar. Os modernos não fogem à regra. Em Grande Sertão : Veredas, não é melhor o final do amor de Riobaldo e Diadorim, casal heterodoxo de João Guimarães Rosa.
Alguém já disse que o verdadeiro amor é sempre aquele que a gente perdeu ou que não pôde ter, e que por isto a mais famosa história de amor de todos os tempos - Romeu e Julieta de Shakespeare, claro - termina, não por acaso, em tragédia. Porque, em conclusão, o amor autêntico seria, sempre, o inalcançável.
Será mesmo?
Hoje é dia dos namorados e eu me recuso a enxergar assim. Por isto, quero puxar pela memória as histórias de amor não trágicas, os casais - na História e na Literatura - que não terminaram separados, seja pela morte, pela demência (Eurico,o presbítero de Alexandre Herculano - mas o que é que Eurico viu numa mulherzinha passiva como Hermengarda???) ou pelo sofrimento de alguma forma.
Dostoiévski e Ana, sua segunda esposa, num casamento que atravessou períodos ruins mas que acabou feliz. Robert Browning e Elizabeth Barrett, cuja história de amor, verídica, mereceria um filme, é um exemplo de que a vida pode ser mais extraordinária do que a ficção.
Nas Letras: Fernando e Aurélia (Senhora) de Alencar. Elizabeth e Mr. Darcy (Orgulho e Preconceito) de Jane Austen. Benedick e Beatrice (Muito Barulho Para Nada) de Shakespeare. Pip e Stella (Grandes Esperanças - e como eles sofrem antes de chegarem a esse final feliz!) de Charles Dickens. Katherine e Ralph (Noite e Dia) de Virginia Woolf.
E, fechando com chave de ouro, quero encerrar com o "meu" casal feliz favorito da ficção: Amadis e Oriana, no romance inacabável (cuja autoria é complicada, tendo tido acréscimos de muitos) de cavalaria Amadis de Gaula - uma odisséia de amor, perigos, lutas, equívocos, separações, reatamentos - porque Amadis e Oriana são apaixonadíssimos um pelo outro. Uma história de amor feliz. Feliz Dia dos Namorados.
Escrito por Claire Scorzi às 05h22
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Observações sobre literatura romântica
O Feminino certo e o Masculino certo. Há uma noção de feminilidade e de masculinidade muito marcantes, em certas obras; marcantes, porém, equilibradas, me parece. Toda a literatura romântica do "masoquismo feminisno", infelizmente, deturpa por completo tal noção; nesse masoquismo, há desequilíbrio porque apresenta abuso, dominação masculina e conseqüente humilhação feminina; papéis sexuais, homem & mulher, caricatos até à morbidez; desaparecem aqui a idéia de uma dança de que Natalie Rogers falou: "agora eu conduzo, depois é você quem conduz" - nenhuma dança nesse gênero de ficção "romântica" pervertida, doentia; não há jogo nem os diálogos estilo "pingue-pongue" tão caros às melhores comédias românticas do cinema clássico, mesmo a séries como Lois & Clark ; só há conflito, violência verbal e/ou física e a capitulação feminina; não há espaço para a troca, a convivência, a resolução (síntese) do conflito, o dar e receber.
Escrito por Claire Scorzi às 07h46
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Vá Ler Poesia!
À minha esquerda, um grupo fala mal do governo ( que novidade...). À direita, duas pretensas amigas celebram sua amizade criticando uma terceira que não está presente. Pouco atrás de mim, dois sujeitos reclamam do custo de vida. Desemprego. Não muito distante, para meu desprazer, uma mulher inumera para outra (que a ouve com avidez) uma lista de doenças que soa interminável, com direito a sintomas, nomes e preços dos remédios, o que disse o médico, quando será a próxima consulta. Ao meu lado, um grupo acaba de parar diante da banca de jornais, onde uma manchete escandalosa traz as mais recentes fotos de uma chacina, e todos repetem entre si os detalhes nauseantes.
O que tenho desejo de fazer, o que só posso e quero gritar: Vá ler poesia! Escutem, por que vocês não pegam um bom livro, um romance de preferência, e não se sentam em algum canto para ler?
Irrita-me, enoja-me que as pessoas se contentem com tão pouco, com um mundo tão estreitinho, tão miudinho, medíocre, reles, ordinário. Que possam encontrar prazer ou objetivo em viver assim, dia após dia.
Vá ler poesia! Vá ler alguma coisa, por favor, e por favor, por favor, que não seja o jornal, com suas manchetes escandalosas, tendenciosas, onde política e economia e mesquinhez imperam, com ares de importância. Apanhe um bom livro - certas bancas de jornal até vendem alguns - e ponha-se a ler algo de fato relevante, algo que continuará a ter valor dentro de 100, 200, 500 anos ou mais.
Uma (boa) banca de jornais pode vender Shakespeare (Hamlet, Romeu e Julieta), Pablo Neruda (Cem sonetos de amor), Esopo (Fábulas), Omar Khayyam (Rubaiyat), Daniel Defoe (Robinson Crusoe, Contos de Fantasmas), Edgar Allan Poe (Histórias Extraordinárias), Conan Doyle (O cão dos Baskervilles)... Nenhum dos quais é perda de tempo, ao contrário: ler significa expandir o tempo - porque expande nossa mente.
Ao invés de deter-se falando bobagem, de desperdiçar tempo escutando ou lendo bobagem, faça a si mesmo esse favor : Vá ler poesia! Povoe-se de versos, leia em voz alta (no banheiro mesmo, se falta opção ) umas gotas de Drummond, alguns litros de Bandeira, quem sabe quanto de Fernando Pessoa. Sinta os versos rolarem, passarem por sua boca - deslizando e escorrendo pelos lábios...
O amor, quando se revela,/ Não se sabe revelar/ Sabe bem olhar p'ra ela/ Mas não lhe sabe falar...
Ou ainda: Uns tomam éter, outros cocaína./ Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria...
E também: Gastei uma hora pensando num verso/ que a pena não quer escrever. / No entanto, ele está cá dentro, inquieto e vivo...
Quem se inunda de tudo isso não poderá, não aguentará ser, medíocre. Limitado. Banal. Quem se alimenta disso, amplia o mundo dentro de si, mundo que passa a carregar consigo. O mundo dentro de nós é que é real, porque é ele, em última análise, que nos dá o poder de enfrentar o mundo fora de nós com esperança, com amor, e com coragem.
O mundo dentro de nós é dádiva divina, Graça comum aos que crêem e aos incrédulos.
Escrito por Claire Scorzi às 06h03
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Claire na Alcatéia 3 : Retrato a Pastel
Meu coração é um transatlântico, e é grande como a palavra.
O homem - não um menino - não diria isso. Sabia-o sem saber, como poetas e pintores o sabem tantas vezes: a verdade nos vêm - relâmpagos. Ele sabia, e sem saber. A verdade vinha a ele como visitante silente, dizia-lhe, e estava lá.
Poesia. As palavras, como cinzas e como pérolas, brilhando mas esfumaçando-se nos dedos. Pincel. O toque minúsculo. Ela voltava e tornava a ler. Não fácil. Cada linha a ser percorrida, conhecida: sons saindo dos lábios, sons sendo repetidos. A poesia é uma mulher tímida, japonesa de olhos baixos. Desvela-se aos poucos, sussurra paciência e toque leve: por isso acedia a ele. Ela franzia a testa, lendo, não possuidora daquilo. Estranho. Nele, parecendo simples (não era) e como agulha a perfurá-la.
Versos. Doendo nela, doendo em outros. O homem poeta escrevia, as conversas semelhando-se aos versos. As pessoas são castelos fortes. As pessoas são emaranhados. As pessoas dão-se, e querem. Há pessoas que se dão sabendo bem que receberão muito pouco, muito pouco de volta. O homem poeta sabia-o. O coração era um transatlântico, grande como a palavra. Mas foi ela quem disse isto sobre ele, porque ele não sabia, ou sabia sem saber. E ela se sentou e escreveu um retrato. A pastel, que é como se diz das cores suaves.
Escrito por Claire Scorzi às 19h43
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Apontamentos
John Locke (1632-1704).
A Metafísica. "(...)O nosso ser seria intuitivamente percebido através da reflexão. A existência de Deus seria racionalmente demonstrada mediante o princípio de causa, partindo do conhecimento imediato de uma outra existência (a nossa). A existência das coisas, alfim, seria sentida invencivelmente, porque nos sentimos passivos em nossas sensações, que deveriam ser causadas por seres externos a nós. (Padovani, Umberto. História da Filosofia. São Paulo: Melhoramentos, 1964. p. 269.)
A Política. Para Locke, os indivíduos aceitam um contrato social abrindo mão de certos direitos - como o de defesa e de fazer justiça particular - cedendo tais direitos ao Estado; contudo, fazem-no em prol de uma defesa mais eficaz exercida por esse mesmo Estado para cuidar do interesse coletivo, do bem comum. Se o Estado, o governo em exercício, falha em garantir os direitos dos indivíduos, inclusive os inalienáveis (vida, liberdade, bens) os indivíduos têm o direito e o dever de se revoltarem contra o poder corrupto, usurpador.
Interessante notar que a doutrina política de Locke ajusta-se ao pensamento e atuação política dos calvinistas, inclusive puritanos (ver que Locke freqüentou Oxford quando o movimento puritano estava em seu auge, tendo o teólogo e pregador John Owen entre os líderes da Universidade).
Escrito por Claire Scorzi às 04h59
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