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Claire



Resenha: SINHAZINHA (Afrânio Peixoto)

Sertão, Vingança, Amor Impossível... e a Ação das Mulheres


A feitura delicada de Afrânio Peixoto para as figuras femininas eu já conhecia de "Maria Bonita". Li críticos desfazendo dos seus perfis de mulher, mas eram críticos homens, e eu sou mulher - então, sim, acho que são perfis bem realizados no esforço do autor de combinar coragem moral com recato e reserva, as características exigidas das mulheres de respeito da época em que foi escrito o romance - 1929.

Mas, há também essa coragem - em Maria Bonita, em Sinhazinha (a jovem Clemência), em D. Emília - uma coragem que lhes mostra, mais rápido do que aos homens, onde está a justiça e onde começa o desvario. Sendo mulheres, numa sociedade patriarcal, há de ser preciso mais do que doçura e mansidão para fazer o que é certo; há de existir um pouco de audácia também, misturada à coragem. Uma audácia sutil, de mulher...

Ao fim, para que a vingança não triunfe, nem tampouco o caminho para o ódio, as mulheres decidirão o que é certo; com astúcia, nesse ambiente de violências. Disfarçadamente. Porque se trata de um mundo de homens.

Afrânio Peixoto conseguiu contar sua história de amor - aliás, entremeada de outras, narradas aqui e ali por outros personagens, histórias dentro da história - combinando ternura e paixão física. A ternura, que D.H. Lawrence nunca conseguiu mesclar na sua valorização da paixão física; e esta, aqui, no romance de Peixoto, como um valor positivo que nada mais é do que o coroamento do amor verdadeiro.



Escrito por Claire Scorzi às 21h16
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Resenha: OS CINCO PORQUINHOS (Agatha Christie)

Uma das obras mais interessantes de Agatha Christie pela estrutura que a autora utilizou: a técnica do ponto de vista. Narrando os episódios do passado que culminaram num crime pela ótica de variados personagens (cada uma das testemunhas conta a mesma história), Agatha nos dá pistas do caráter de cada um, suas implicâncias, seus pontos cegos e preconceitos. As personalidades do morto e da suposta assassina são filtradas pelos olhos de todos eles, e é analisando o conjunto de relatos que o grande detetive Poirot chega à verdade. As linhas finais do romance são impactantes e fecham com chave de ouro.

 



Escrito por Claire Scorzi às 19h00
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Resenha: MORIARTY (Anthony Horowitz)

Assim como aconteceu em "A Casa da Seda" Horowitz realiza um trabalho primoroso quanto à reconstituição do clima e do "tom" dos escritos de Conan Doyle para sua criação Sherlock Holmes. Embora ausente - ausente mesmo? - sentimos a presença de Holmes através dessa narrativa - e também a de Moriarty.


Engenho, pistas, suspeitas, reviravoltas até o fim, "Moriarty" é lido com prazer e interesse todo o tempo. Alguns leitores poderão não suportar a tensão (vinda das desconfianças) e olhar o final, como eu fiz. Alguns poderão aguentar suas dúvidas e suspeitas até chegar ao fim. Uma coisa é que me parece certa: todos os leitores deverão ficar chocados na reviravolta final do livro. E, é claro, ansiosos para que Horowitz escreva a continuação - porque não é possível, nem decente com os leitores, não haver uma continuação! Tem de haver!


Roendo as unhas até lá...


Obs.: Um extra: numa espécie de apêndice à trama, Horowitz acrescenta um "conto narrado pelo Dr. Watson" na conclusão. Boa sacada.



Escrito por Claire Scorzi às 12h17
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Resenha: APENAS UMA MULHER (D.H. Lawrence)

Homens e Mulheres e Raposas

 

 

 

D. H. Lawrence escreveu essa novela-título por volta da época da Primeira Guerra (1914-1918). O contexto refere-se a um jovem soldado que, de licença do front, volta para visitar um velho parente e descobre que ele faleceu, e que agora, na antiga fazenda de sua juventude, moram duas mulheres, que se dedicam à vida de fazendeiras com pouco sucesso.
A arte de Lawrence está logo ali, na atmosfera de tensão que consegue estabelecer entre essas três pessoas, no uso simbólico (como fizera em "O Pavão Branco") da figura da raposa, animal que tem assaltado o galinheiro sistematicamente sem que as moças consigam impedir os estragos; no curioso "encontro" entre a raposa e uma delas, Nellie March - mescla de revelação, tensão, magia, enfim, simbolismo; na inicial cordialidade de Jill Banford e Henry, o jovem soldado, até que a atração entre ele e March destrua essa boa vontade; no uso insistente dos sobrenomes das moças muito mais do que nos seus nomes, especialmente March, uma figura feminina sempre vestida como um homem; e muito mais.
A chamar a atenção está o embate psicológico e emocional, nunca exatamente físico, entre homens e mulheres, uma constante de Lawrence. Como se quisesse dizer que a paixão, para funcionar, exige abdicação da própria individualidade, e de como o ser humano resiste a isso.
Ou a abdicação, como aparece aqui, é exigida por um dos dois, sem, contudo, ser necessária? Sendo apenas o egocentrismo de um que deseja esse abandono por parte do outro?
E enfim - o que é a Raposa? Ou quem é a Raposa?
A pensar. E reler. E pensar.



Escrito por Claire Scorzi às 20h59
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Resenha: ALI MORAVA O PECADO (Bruno Fischer)

Nessa segunda leitura, fui surpreendida por encontrar muito mais do que me lembrava. E perceber valor no que encontrei.

 Trata-se de um policial gótico. E disse um crítico: "uma novela gótica para homens".

Primeiro, à medida que relia, me ocorreu o óbvio: sendo uma história de obsessão sexual, seria "para machos". A habilidade de Fischer ao descrever a atração entre os personagens, e seus encontros sexuais, é visível: o uso das palavras, o ritmo, as elipses, resvalando na crueza sexual - porém sem cair no vulgar. Hábil. Os leitores de pornografia ficarão desiludidos. A atmosfera é a certa, mas a linguagem não é chula.

Mas o "gótico para machos" também o é num outro sentido: narrada em 1ª pessoa pelo protagonista masculino, revela-se uma novidade para o gótico, que em geral utiliza a voz narrativa das mulheres. Não aqui. Acompanhamos a evolução da obsessão de Harry, um jogador de basquete que vem descansar em suas férias numa cidadezinha - e entre as fofocas locais, incluindo uma história macabra de crime, trava conhecimento com Lela Doane; a atração começa...

A diferença dessa mescla de gótico com policial está na ambientação e atmosfera. Uma propriedade caindo aos pedaços, o clima de suspense e mesmo de horror sugerido (Harry sempre se lembrando das histórias que ouviu na cidade) em cenas que em princípio não o provocariam. É de destacar-se uma cena em que, indo ao encontro da amante, a atmosfera criada pelo autor tem algo de sombrio, de assustador - como se, ao invés de um encontro sexual, algo de horrendo fosse acontecer.

Medo, suspeitas, dubiedade, a sugestão de mortes ocorridas de forma particularmente apavorante, mentiras, segredos... e a obsessão. Um retrato. Uma advertência ou uma sedução? Traições, e sempre, sempre, a obsessão.



Escrito por Claire Scorzi às 21h41
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Resenha: ASSASSINATO, RAPTO & CIA (Bruno Fischer)

Boa Construção da Trama com Protagonista Fraco

 

Não há o que dizer do ritmo: vertiginoso, equilibrando-se diálogo, ação, interioridade do personagem central. Nem da atenção dispensada a detalhes, que em breve irão revelar sua importância na história. O senão, aqui, é a falta de carisma do protagonista e o fato de seu interesse amoroso ter tão pouco caráter. Em vista da personagem da ex-esposa, outra ambiciosa desmedida, acho que o sujeito tem é um péssimo gosto para mulheres...
Os personagens de real valor da trama são o detetive Ben Helm, aqui figura secundária que, como de costume, rouba a cena e é mil vezes mais carismático do que o protagonista (Helm é protagonista em "Lábios em Fogo" e em "O Silêncio é de Ouro", dois dos melhores romances de Fischer, por sinal) e a melhor amiga do personagem central Paul Flagg, sua chefe na história, Martha Paley - a mais interessante e forte figura feminina do livro.



Escrito por Claire Scorzi às 17h18
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Resenha: O SILÊNCIO É DE OURO (Bruno Fischer)

 

Muito antes de O Nome da Rosa, esse romance americano dos anos '50 já trazia uma trama policial que gira em torno de um livro. É por causa do livro desaparecido que os crimes são cometidos.
O detetive, Ben Helm, é um legítimo descendente de Sherlock Holmes: não usa músculos, só o cérebro. Ao contrário de Sherlock, porém, ele é casado e muito apaixonado pela esposa.
Fischer escreveu (que eu saiba) 4 livros onde Helm aparece: neste e em "Lábios em Fogo", ele é protagonista; nos outros dois romances, é personagem secundário, mas em minha opinião rouba a cena.
A trama policial é ótima, bem desenvolvida, sem pontas soltas, com figuras coadjuvantes interessantes (o jovem Spike) e evita a maioria dos clichês de hoje, isto é, sexo e violência. Não precisa: a história é boa o suficiente para se sustentar sem eles.



Escrito por Claire Scorzi às 19h21
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Resenha: REBECCA (Daphne Du Maurier)

 

 

O famoso romance de Daphne Du Maurier que deu origem ao filme de Alfred Hitchcock, Rebecca - A Mulher Inesquecível (1940), tinha sido uma leitura da minha adolescência. Depois de mais de 30 anos, resolvi fazer o que vinha me dizendo há tempos. Resolvi reler.

 

Nesta segunda leitura, onde (como esperado) oscilei nas minhas emoções a propósito do protagonista masculino, que ora eu odiava, ora me provocava compaixão - não tive dúvidas sobre um fato: a qualidade literária do texto. A narrativa fluiu bem, nessa releitura que durou dois dias.

 

A observar (anotações soltas sobre o romance):

 

* A protagonista-narradora jamais é nomeada - não se sabe seu nome.

 

* A crise do casamento dos personagens é nitidamente "moderna": falta de comunicação. Ele a compreende mal, e ela o compreende mal; ambos acreditam coisas um sobre o outro que não são verdadeiras.

 

* A nítida inversão de papéis na parte final do romance (sutil, porém, porque Du Maurier é das boas escritoras aqui: ela não repisa, não enfatiza): a heroína, que se desculpava e recebia o carinho do marido "como se fosse Jasper" [o cachorro], numa cena para perto do fim, abriga o marido nos braços como se fosse ele o cachorro que precisasse de consolo/ conforto/ proteção.

 

* Farta descrição dos cenários, contudo sem perder o ritmo; Rebecca nos prende todo o tempo em sua leitura.

 

 



Escrito por Claire Scorzi às 13h36
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Resenha: BENITO CERENO (Herman Melville)

Ambiguidade que Gera Tensão

 

Publicado em 1856, Benito Cereno conta como dois navios se encontraram no mar: um navio americano e um espanhol.
O americano é um navio mercante, um caça focas, que percebe algo de estranho no navio espanhol. -- e a explicação para estranheza será o tema subjacente a toda narrativa: descobrir a verdade. Porque a verdade se mostra cambiante, incompleta, ou incorreta a todo momento.
A narrativa de Melville se vale primordialmente do ponto de vista do capitão americano a bordo do navio espanhol: embora não seja narrado em 1ª pessoa, é no ponto de vista desse personagem, o capitão Delano Amasa - homem amável, compassivo, e, mesmo, inocente - aquela inocência "americana" que mais tarde o escritor Henry James irá fazer objeto de muitas de suas novelas - que Melville se detém para construir a narrativa e dar seu sabor particular. O leitor vê através do olhar do capitão todo o cenário, as personagens, suas falas, suas atitudes - e, enquanto Delano confia, desculpa, desconfia, outra vez desculpa e repreende a si mesmo pelas desconfianças que por vezes lhe surgem ante pequenos fatos insólitos, incompreensíveis e até vagamente ameaçadores - o leitor vai aos poucos se desvencilhando do ponto de vista do americano e buscando "ver" - ver malgrado através desse olhar amável do capitão - o que Realmente está acontecendo; o que é, afinal, que está em jogo aqui?
A narrativa estabelece um clima de suspense valendo-se daquilo que Delano "vê" mas interpreta erroneamente, gerando medo e ansiedade no leitor. É como se víssemos mais do que aquilo que o capitão vê: a escrita de Melville é de mestre, provocando nosso desconforto enquanto a tensão cresce a níveis quase insuportáveis.



Escrito por Claire Scorzi às 13h16
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PARA GOSTAR DE LER

 

 

O crítico e professor americano Harold Bloom teve mais uma de suas idéias "literárias" anos atrás, ao selecionar diversos textos de prosa e poesia para uma coleção destinada aos jovens. O resultado, traduzido em português com selo da Ed. Objetiva, é uma série de 4 volumes - Contos e Poemas para Crianças Extremamente Inteligentes de Todas as Idades.

 

Cada volume da coleção refere-se a uma das estações do ano. Começando com a Primavera (v. 1) o livro abre com um soneto de John Keats, As Estações Humanas, uma espécie de apresentação da obra inteira. Este e o conto surpreendentemente perceptivo de Émile Zola, As Feiosas, são os destaques.

 

No volume 2 - "Verão" - o tom oscila entre contos e poesia fantasiosos e moralizantes (o que nem sempre funciona). São belos O Rei do Rio Dourado de John Ruskin, fantasia onde a menção a cores acentua a atmosfera de conto de fadas; O Gênio da Garrafa de R. L. Stevenson; Rikki-tikki-tavi de Kipling; e o poema Agosto de Swinburne.

 

No vol. 3 - "Outono" - nota-se uma delicada melancolia, como se fosse um comentário a essa estação em que as folhas secam. Doce e de uma tristeza sábia é a narrativa poética de Christina Rossetti - O Mercado do Duende. Sabedoria, como o preço pago pela mesma, é o que encontramos no conto Penacho de Nathaniel Hawthorne. Saudade e esperança são as tônicas dos poemas O Amor Descobrirá o Caminho (autor anônimo) e A Ilha Branca (de Robert Herrick).

 

No vol. 4 - "Inverno" - predomina o fantástico, o inexplicável, até o terror. Ao lado de poesias que falam da morte, da natureza e da corrupção humana - Tristeza (Aubrey de Vere), Um Soneto de Inverno e Canção de Christina Rossetti, O Cisne de Prata (Orlando Gibbons) - somos brindados com contos e novelas de tirar o fôlego: O Sinaleiro de Dickens; O Horla de Maupassant; William Wilson de Edgar Allan Poe (este fica melhor a cada nova leitura); No Escuro de E. Nesbit; e Finados de Edith Wharton. Não falta nem o toque russo dos mestres: A Rainha de Espadas de Pushkin, com justiça um clássico, e o cômico-surrealista O Nariz de Nikolai Gogol.

Contos e Poemas para Crianças... é uma festa, um verdadeiro banquete de leitura, e não só para os jovens. Os "extremamente inteligentes de todas as idades" terão muito o que saborear. Textos clássicos, alguns pouco conhecidos, "pratos" para qualquer gastrônomo exigente.



Escrito por Claire Scorzi às 21h18
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Resenha: UMA MULHER ENTRE DOIS (Bruno Fischer)

O americano Bruno Fischer (1908-1992) escreveu 25 romances policiais e um outro tanto de contos para revistas pulp fiction como a famosa “Black Mask” – para a qual escreveu também o cultuado Dashiell Hammett. Fischer nunca chegou a ser tão reconhecido. Uma injustiça. Dentre os seus melhores romances, está este: Uma Mulher Entre Dois, publicado em 1960.


Interessante é comparar um de seus primeiros trabalhos, Escada para a Morte, de 1939, com esse; é possível perceber a distância que vai de um escritor habilidoso para um profissional altamente consciente do processo de escrita. Em Uma Mulher Entre Dois (The Girl Between) a qualidade salta aos olhos – na descrição física das personagens, na caracterização das mesmas, no cuidado em não repisar, revelando sem abusar de ênfases e praticamente sem uso da grandiloquência. A composição de cenas, mesmo aquelas focadas nas chamadas personagens menores, traz o mesmo apuro; a narrativa em terceira pessoa segue um personagem, observa-o, centra-se nele, e só após algumas páginas, a intervalos, passa a seguir outros; o “foco” do autor parece acompanhar determinadas figuras somente quando fazê-lo se torna importante para Fischer: quando ele decide nos mostrar quem é este ou quem é aquela, quais os seus pensamentos e motivações – já que as motivações de certas figuras constituem também pequenos mistérios dentro do enredo policial. Um policial noir. Porque seu protagonista é um anti-herói, porque o sentimento de insegurança atravessa toda a narrativa (todos estão sujeitos à violência), há uma angústia no comportamento do protagonista e uma realidade social cruel é posta em primeiro plano – porém Fischer não facilita aqui: a verdade obsessiva em seus romances, o da importância do dinheiro, não se mostra em discursos pífios e frases banais.


Uma Mulher Entre Dois se destaca dentro da obra de Bruno Fischer (digo isso como leitora de 19 dos seus 25 livros) pela criação bem sucedida de um protagonista anti-herói. O autor havia tentado o mesmo em Código de Honra, sem sucesso, em minha opinião: seu personagem ali é apenas desagradável e até artificial. Mas neste romance de 1960, Fischer consegue: cria um “herói” questionável, imerso na corrupção política e nos meandros do poder. E ainda: consegue nos fazer gostar dele. E acompanhar a narrativa de mais de 200 páginas pensando se haverá, ou não, redenção para seu Curt Stone. Ainda: é possível que aqui também esteja a mais bem construída figura feminina de seus livros, uma heroína. Ah, Uma Mulher Entre Dois possui uma heroína? Sim. Embora o leitor leve algum tempo para descobrir quem ela é.



Escrito por Claire Scorzi às 16h31
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Resenha: AMEI UMA ASSASSINA (Bruno Fischer)

Policial dentro da melhor tradição

 

Um dos melhores momentos do escritor policial Bruno Fischer, um autor americano já falecido e injustamente desconhecido. Aqui, ele alia a trama policial a uma história de amor onde o casal de protagonistas mantém diálogos qque lembram as comedias românticas americanas antigas.
Ágil, com muita correria - o casal de heróis passa todo o tempo fugindo e sendo perseguido - mortes e mistérios, segredos (um que o leitor conhece, mas a heroína não, acrescenta tempero à relação ambígua do casal), romantismo, um herói que é firme sem ser grosseiro e doce sem ser um bobo, humor, aqui Fischer chega perto de privilegiar a love story ao invés da trama policial. Na minha opinião, não faz feio, e integra o romance na grande tradição - nitidamente anglo-americana, como diria um amigo meu - de casais "aliados", isto é, aqueles onde herói e heroína fogem e investigam tudo juntos, como verdadeiros parceiros.
Uma excelente tradição, diga-se de passagem.



Escrito por Claire Scorzi às 19h05
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Resenha:O ÚLTIMO CASO DE TRENT (E.C. Bentley)

Um clássico que brinca com o clássico

 

O estilo é rigidamente britânico: lembra aqueles romances do século XIX vitoriano. O gênero, literatura policial, já recebeu elogios e insultos que nem vale a pena relembrar aqui.

Um romance bem escrito, uma trama bem urdida que parece brincar com o gênero policial - pelo menos, aquela fatia do gênero que nasceu com Sherlock Holmes e Hercule Poirot - mas ao mesmo tempo celebra-o: divertido, delicioso, clássico na linguagem e aberto a desvios na solução da trama, este é um romance que merece a fama que angariou. Crime, romance (discreto como boa parte das subtramas românticas da literatura inglesa clássica), humor fino, inteligência: sente-se confortavelmente e prepare-se para se deliciar.



Escrito por Claire Scorzi às 20h40
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Resenha: LAURA (Vera Caspary)

É possível se apaixonar por uma pessoa morta?

 

Você é daqueles que acham literatura policial literatura menor? Então, permita-me discordar. E uso como prova este romance aqui: "Laura".

Filmado em 1944 com a bela Gene Tierney e Dana Andrews nos principais papéis, "Laura" alterna vozes narrativas com habilidade - é bom prestar atenção não apenas ao que cada narrador/ narradora conta, mas também ao que não conta; um erro comum é o leitor deduzir que algo foi dito quando não foi; tratou-se somente de elusão, suspeitas - e nesse caso, uma suspeita tanto pode levar a A quanto a, digamos, C...

Outra coisa: os diálogos. São requintados, elegantes, como não se imaginaria, talvez, que um americano escrevesse; o desleixo de hoje faz-nos esquecer de estilistas da frase como Hemingway ou Edith Wharton - ambos americanos da primeira metade do século XX.

A fazer notar, ainda, como Vera Caspary desenvolve a trama policial ao mesmo tempo em que vai deixando subentendida uma trama de amor que é, no mínimo, inusitada. Afinal - quem pode se apaixonar por alguém a quem nunca conheceu - uma pessoa morta?

A galeria de personagens é mais um destaque. Um crítico ferino, uma dama cínica, um candidato a cafetão, uma mulher carismática, um detetive semialeijado cujo 'erro' foi aprender que existe mais na vida do que dinheiro e posses.

"Laura" eleva, se preciso for, o conceito de literatura policial. Boa escrita com surpresas na trama bem antes da última página...

Responda: alguém poderia se apaixonar por uma pessoa morta?



Escrito por Claire Scorzi às 20h20
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RELENDO FAULKNER: DESTRUIÇÃO OU SOBREVIVÊNCIA

 

Conheci William Faulkner aos 16 anos para 17, quando alguém citou seu nome com respeito; ao encontrar pela primeira vez um livro seu, comprei. O livro era Santuário, que ele publicou em 1931. De lá para cá, li o romance três vezes, a última terminada ontem.

Anotei no dorso da folha de rosto do exemplar: relido entre 3/7 e 18/7. Para mim, parece muito tempo. Sim, estive resfriada, o que me desanima nos piores momentos até para ler; sim, leio muitas coisas ao mesmo tempo; mas as razões não se resumem a essas.

Descubro : ler Santuário se torna mais difícil com o passar dos anos. Mudou o livro ou mudei eu?

Suspeito que fui eu. Depois dos 40 me descubro mais nervosa, mais sensível à leitura. A passagem de que me lembrava melhor - lá pela página 80 - a longa, angustiante espera de Temple Drake no celeiro, escondida e descoberta, quando seu perseguidor a alcança e ataca - foi a que mais tardou a leitura. A angústia de Temple tornou-se a minha; sofri com ela (Faulkner é elíptico; temos clarões, num estilo quase cinematográfico em seus cortes, capítulos curtos, o tom despido de melodrama). Não me recordo de tal identificação nas vezes anteriores. Simpatia sim. Lendo, aos dezessete anos, lembro-me de comentar com colegas de escola a ansiedade para que Temple fosse salva. Não sei mais que palavra usei. Salva? Resgatada? Temple é salva?

Ninguém é salvo em Santuário. Alguns sobrevivem, outros são destruídos, e isto é tudo. Mas eu não cessava de me fazer perguntas enquanto ia relendo, de novo diante de Temple e Popeye, de Horace Benbow e Narcisa e Clarence Snopes, de Miss Reba e Gowan e Ruby. Não deixava de me perguntar o que Temple estaria sentindo. Faulkner nunca nos diz o que ela sente. Ou ele não sabe (pode um personagem escapar ao seu criador? Creio que sim) ou quer que nós, leitores, busquemos saber. Eu a vejo amendrotada diante de Popeye, furiosa com Popeye; devaneando, prolixa, falando tanto sem dizer muito e dizendo tantas coisas no que não diz a Horace Benbow. E talvez seja isso : como outros grandes escritores, temos de prestar atenção àquilo que Faulkner não nos diz. Temple Drake nos 17 anos, na tolice juvenil que é quando pensamos saber tanto (e todos não fomos assim aos 17?), Temple ao se vestir, repetindo : "Agora posso agüentar tudo" - e a repetição planta em nós a dúvida se ela pode mesmo; Temple no tribunal, prestando depoimento sem fixar os olhos em quem quer que seja; na cena que encerra o livro, sentada ao lado do pai num banco de jardim duma cidade estranha, fora de seu país, intocada pela paisagem chuvosa - seu rosto que ela fita ao abrir o pó compacto com espelho - "taciturno, triste e descontente" diz Faulkner. Temple foi destruída? Ou sobreviveu?

Popeye, Red, Goodwin, Tommy são destruídos. Ruby e seu bebê sobrevivem; talvez Temple. Horace Benbow é outra incógnita. Seu retorno à esposa é uma admissão de derrota ou uma pausa para buscar novas forças?

E Temple, sempre. Ela. Eu a procuro enquanto leio, quero saber o que sente, o que sentiu todo esse tempo. Sim, vai ver é isto, Faulkner não sabe, ninguém sabe, a não ser que tenha estado lá - no celeiro, e depois, como aquela menina esteve.

Volto ao começo deste texto. Terá o livro mudado ou fui eu? Quem sabe ambos. A marca do que é grande literatura: um livro em cem, em mil, muda a cada vez que o lemos, nos perturba de modo diferente.



Escrito por Claire Scorzi às 05h59
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